Rádios líderes de audiência: megaprograma de entretenimento

Publicado em: 21/05/2006

Hoje voltamos novamente ao passado glorioso do rádio. Radio Days. Como todos sabem, os anos 40 do século 20 marcaram o auge do rádio em nosso País. Os maiores talentos  musicais, da dramaturgia, do humorismo e do rádio-jornalismo estavam concentrados em duas gigantes: Nacional e Mayrink Veiga do Rio de Janeiro.

Eram os tempos  em que o sabonete Lever – então sabonete das estrelas, brigava pela liderança de mercado, ocupada pelos sabonetes Eucalol e Palmolive. E é nesse cenário que um pioneiro do rádio, o publicitário Rodolfo lima Martensen cria um programa que marcou época: Levertimentos e quebra um paradigma ao envolver no projeto duas emissoras de rádio concorrentes.

Rodolfo Lima Martensen já era na época, anos 40, o Gerente Geral da Lintas, uma agência de publicidade que nasceu e se desenvolveu como House Agency da  miultinacional Lever, hoje Unilever.

Naqueles anos, Eucalol patrocinava um  programa de humor de grande audiência e que atravessou décadas: Balança Mas Não Cai enquanto que o sabonete Palmolive, o outro líder, patrocinava a novela Em Busca da Felicidade, também um sucesso de audiência.

Lima Martensen montou o seu QG no Rio e lá permaneceu durante 15 dias conversando com os principais conhecedores do meio rádio: Victor Costa, Floriano Faissal, Jair Picaluga, Gilberto Martins, Radamés Gnatalli, Muraro e Almirante.

 Ao retornar a  São Paulo, onde estava sediada a Lintas, Lima Martensen já tinha em mente  que tipo de programa teria maiores chances de sucesso. Ao invés de “brigar”  diretamente com os seus concorrentes patrocinando  o mesmo gênero de programa de ambos, decidiu propor à direção da Lever um programa variado com uma hora de duração com  musica,  humor, radioteatro e notícias, uma receita , a seu ver, capaz de atrair e manter a audiência.

A partir daí, foi fácil chegar ao nome mais apropriado: LEVERTIMENTOS.

Mas, o que iria fazer a diferença era algo inédito: produzir e transmitir o programa  através das duas emissoras mais populares do País e rivais que disputavam ferozmente a audiência radiofônica: a emblemática Rádio Nacional, líder de audiência no País e a  poderosa Mayrink Veiga.

Conheçam parte dessa história relatada pelo próprio Rodolfo Lima Martensen em seu livro de memórias Desafio dos três Santos:

 “Para se poderem avaliar as proporções e o arrojo do programa idealizado para a Lever, é preciso que o leitor faça a sua mente retroceder no tempo e imagine as dificuldades e limitações da época [anos 40]. Os grandes programas [de rádio] eram gerados integralmente ao vivo. Não havia o recurso tranqüilizante da fita magnética que, agora [anos 80] permite a gravação prévia das audições, refazendo-se os desempenhos fracos ou defeituosos. A ligação das irradiações externas com o estúdio só podiam ser feitas por linha telefônica, de som nem sempre aproveitável – unidades móveis de freqüência móvel modulada e walkie-talkie que hoje dão total mobilidade às reportagens externas ainda não estavam  disponíveis.
 
Até aquela data nenhum programa gerado pela Nacional era retransmitido pela Mayrink, ou vice-versa. A rivalidade entre as duas emissoras era feroz. Os artistas de cada emissora se digladiavam em acusações públicas e as “macas” de auditório, quais torcidas uniformizadas, defendiam seus ídolos com aplausos e gritinhos histéricos, enquanto vaiavam e  chutavam os artistas da emissora concorrente. Foi nesse clima de competição e nessa floresta de obstáculos que idealizei o Levertimentos”.

Lima Martensen descreve em linhas gerais a mecânica do programa:

“Depois da abertura musical, executada pela orquestra da Nacional, sob a direção de Radamés Gnatalli, César Ladeira, falando dos estúdios da Mayrink  Veiga, dava início ao programa. Imediatamente, Celso Guimarães, na Nacional anunciava Almirante, o animador da audição, que passava a palavra a Silvino Netto que, na casa de um ouvinte previamente sorteado, organizava  uma festinha de aniversário, à qual comparecia uma Marlene,  Aracy de Almeida, Carmélia Alves ou Emilinha Borba.

 Lá, cantavam para os convidados do aniversariante, acompanhados do regional de Pixinguinha e Benedito Lacerda. Terminada essa irradiação externa, Almirante reassumia o comando e apresentava a revelação musical do momento, a sapoti Ângela Maria, um brotinho encantador  que cantava na Mayrink Veiga com acompanhamento da orquestra da Nacional, nos estúdios da Praça Mauá, sob o comando do Maestro Léo Peracchi.

Depois vinha uma cena curta de radioteatro em que os elementos das duas emissoras rivais contracenavam pelo ar. Almirante então chamava o popular humorista Barbosa Junior que se encontrava num ponto qualquer da cidade, na Cinelândia, em Copacabana ou em algum subúrbio, entrevistando o público na rua, sobre um determinando assunto momentoso, que era escolhido para ensejar piadas e situações de comicidade. Sempre no comando, Almirante apresentava Chico Anysio na Mayrink Veiga  e Yara Salles na Nacional, interpretando um texto gozadíssimo de Sérgio Porto, inesquecível Estanislau Ponte Preta “.

Com esse time de estrelas e a estratégia inédita de juntar forças de duas emissoras de rádio rivais,  dá pra entender hoje o sucesso do programa Levertimentos que ajudou a levar o sabonete Lever naqueles anos para a Vice-Liderança em vendas. Levertimentos ficou no ar durante dois anos e meio.


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