RC14 – Preços Extremamente Baixos

Publicado em: 02/05/2006

Alô, queridos ouvintes e leitores, preparem-se para tomar uma pequena dose de desopilador de fígado, na forma de uma história leve, oriunda dos casos reais do nosso rádio, acrescidas com a imaginação natural de quem sempre conta o conto sem deixar de aumentar um ponto. É uma passagem envolvendo o Pimenta, um dos grandes locutores que conheci.
Por José Predebon

Pimenta vivia de bem com a vida porque fazia o que gostava. Era, como gostava de dizer, o “locutor titular da emissora”. Nunca quis fazer carreira, como colegas que se tornavam produtores, comercializando horários e às vezes até enriquecendo.
Pimenta gostava mesmo era do microfone. Gostava, não, deliciava-se. Muitas vezes animava-se e dava um verdadeiro espetáculo, quando colocava as palmas das mãos prolongando as orelhas e empostava seu vozeirão de Paul Robison, como um dia compararam. Ele adorou, comprou um disco do famoso baixo cantando Old Man River, e passou a dizer, sempre que podia, que era considerado o Paul Robison brasileiro.
Pimenta também era conhecido pela sua desenvoltura alcoólica, que ele prudentemente exercia longe de seus horários de trabalho. E assim ele ia vivendo, envelhecendo, curtindo a vida e fugindo dos dentistas, dos quais morria de medo. Só abria a boca nos pronto-socorros odontológicos, aos quais recorria quando a dor ficava insuportável.
E assim, beirando os cinquenta (beirando bem do lado de lá) Pimenta foi obrigado a colocar uma dentadura. O fez durante umas férias, pois não queria ser visto banguela. A dita prótese, como o dentista chamou aquela peça tetricamente sorridente, só iria incomodar um pouco no começo, pois, com o tempo, garantia, ele nem se lembraria que a estava usando.
Mas no primeiro dia ficou apavorado com a dificuldade de pronunciar determinados fonemas. Precisou repetí-los muito, no banheiro, para superar parcialmente o problema. Teve fé de que com o passar dos dias iria conseguir falar normalmente. E reassumiu sua vida de locutor titular. Contudo, náo conseguia evitar alguns “escorregões”, e precisava concentrar-se totalmente para dizer, por exemplo “este instituto”, ou, pior ainda, como lhe apareceu num texto, “organização sistêmica”.
Que tristeza! Passou, qual locutor novato, a examinar cuidadosamente os textos, antes de enfrentá-los. Mesmo assim, às vezes “empastava” as palavras, como se tivesse bebido. E isso foi naturalmente notado por colegas e por chefes, que comentavam, primeiro para si, e depois abertamente, “O pimenta está vindo trabalhar bêbado”.
Certo dia um anunciante reclamou, e o Pimenta foi chamado à sala do homem “Pimenta, deixa disso ou a gente não vai segurar a coisa, entende?” Com vergonha de confessar a verdade, Pimenta foi para casa arrasado. E resolveu afogar a mágoa na pinga. Atracou-se a uma garrafa e quando esta ficou pela metade, ele começou a xingar o anunciante que reclamara do texto mal lido, e sabia bem o trecho que empastelara: “Lojas Suflair, preços extremamente baixos, até risíveis”. Bravo, colocou as mãos em concha e disse a frase, quase gritando, com raiva. Epa! Como agora saiu perfeita, assim? Repetiu, facilmente, e se julgou curado da deficiência oral. Foi dormir bêbado,  mas feliz.
Só que, de manhã, ao tentar dizer a frase, saiu-lhe “prechos balchos” de novo. Insistiu, insistiu, e por fim acabou descobrindo que agora, com uns tragos, a língua funcionava bem, como se ainda tivesse a companhia de todos os seus dentes originais. Solução, claro, indolor. Passou a trabalhar sobre os efeitos de vodka, que não se revela no hálito. Nunca mais arrastou fonemas.
Só que, com o tempo, surgiu-lhe outro problema: o do fígado. Mas isso faz parte de outra história, para outro dia. (técnica, acorde de encerramento).


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