Receita para não ser quadrado

Publicado em: 24/04/2012

Se você, leitor ou leitora, não quiser provocar um muxoxo de desdém da geração pra frente tome muito cuidado. Há certas regrinhas fundamentais que precisam ser observadas e que mudam constantemente, exigindo atualização quase diária. Uma condição essencial é ser sempre contra, principalmente contra o Governo. Não se intimide: use ao máximo as expressões faciais de despreza e superioridade quando alguém destacar algo de positivo. Marcuse é um nome que você não pode esquecer, mesmo que não tenha lido absolutamente nada, dele ou sobre ele. Cuidado, porém, para não confundir Marcuse com marca de camisa ou maiô do Vale do Itajaí.

É muito importante assumir ares misteriosos e confidenciais quando o assunto encaminhar-se para a política. Seja sempre reticente e dê a entender que você sabe mais, muito mais.

Não use a palavra superado. Já está superada.

Em arte, seja definitivo: aceite apenas as criações que contestem a sociedade e o sistema. Eis aí um verbo muito importante: contestar. Use-o no bolso da calça Lee.

Se você tiver deixado crescer bigodes, corte-os imediatamente para protestar contra os que protestaram contra eles.

Mesmo que você não perca um capítulo de novela de TV abomine a televisão, mas considere válido o Chacrinha pelo seu poder de comunicação. Guarde bem essas palavras: válido e comunicação.

Certifique-se de que o bar esteja desfalcado do produto estrangeiro, peça-o! Como responderão que está em falta, recuse o nacional e empanturre-se de cerveja.

Mesmo sabendo que a solenidade exige gravata, compareça esportivamente, se possível sem meias, como se estivesse de passagem.

Se tiver passado o fim de semana em Cacupé, diga que o aproveitou para um pulinho até o Rio e faça o possível para que o Zurí publique. Dá prestígio.

Mostre intimidade com o Grand-monde. Quando referir-se ao Governador, garanta que “O Ivo já tinha me dito isso”.

Muito cuidado com a música.

No momento, fique maravilhado quando alguém falar de Gal Costa ou dos Mutantes. Elís Regina é o fim.

Em matéria de sexo seja ultraliberal, sem fronteiras. Cite Henry Miller, que impressionará pra burro. Freud não, já passou.

Há muitas regras mais, sutilezas, olhares, gestos.

Mas estas já dão pra quebrar o galho.

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A bordo do “33 Orientales” (que devem ser aqueles 33 covardemente assassinados por dois brasileiros) o maestro argentino, de 60 anos, ficou entusiasmado quando soube que havia 12 jornalistas brasileiros no cruzeiro turístico até Buenos Aires. Compositor, diz que ia fazer u’a música especial, em homenagem ao Brasil. Procurou um dos salões e começou a solfejar, larari pra cá larari pra lá, enquanto acompanhávamos, divertidos, o curioso parto musical. O maestro tinha a sua barriguinha avantajada e, talvez para sentir-se melhor desapertou o cinto, ao sentar-se.

De repente, levantou-se.

Pra que, Santa Gertrudes!

As calças escorregaram, deixando à mostra um panorama encantador: as alvas pernas do maestro e uma ceroula não muito, mas de legítima fabricação Argentina.

As senhoras e senhoritas presentes, em que pese algum rubor nas faces, miram-se na impiedosa gargalhada que ressoou pelo Atlântico.

E, pelo resto da viagem, o maestro ganhou um apelido bem brasileiro. Mal ele apontava e lá vinha a gozação:

–       Lá vem o Calça-Frouxa.

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Millor Fernandes, o filósofo de Ipanema:

–       Todo o homem precisa de uma mulher, porque tem sempre uma coisa ou outra da qual realmente não se pode culpar o Governo.

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Quem andou preocupado na última semana foi o jornalista Adão Miranda, cujo grande coração andou querendo dar vexame, com acelerações e batidas fora do ritmo. Felizmente, a máquina do jornalista voltou a funcionar bem e ele já está no exercício do seu cargo na Prefeitura.

Um conhecido vereador, cantado em prosa e verso, por sua total e irreversível incompatibilidade com o vernáculo e com  a gramática, explicava o que havia acontecido com o jornalista:

–       Não foi nada grave. Apenas um taxi-cardia sem maiores complicações.

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De Sérgio Porto, comentando, em certa ocasião, o físico minúsculo do escritor R. Magalhães Júnior:

–       Quando ele põe uma caixa de fósforos debaixo do braço, todo mundo pensa que ele vai viajar.

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Noticia a imprensa que a ligação da nova canalização d’água com o sistema da ponte Hercílio Luz deverá ser feita até o fim do mês.

A falta d’água vai ser canalizada.

1 responder
  1. jose predebon says:

    Texto maravilhoso, inspirado, divertido. Rident castigat mores, já dizia um latino (não é o Latino, cantor)
    Fiquei fã do autor.
    Predeba 120425

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