Reportagem

Publicado em: 05/07/2004

Dib Cherem, testemunha ocular da história, revela aos Caros Ouvintes os primórdios do radiojornalismo e da programação da primeira emissora de Florianópolis “a cidade que encanta e seduz, (aonde) de dia falta água e de noite falta luz”.
Por Antunes Severo

O garoto Dib, aos 15 anos, enfrentou o seu primeiro teste pra valer. Inscreveu-se no concurso para locutor da Rádio Guarujá. “Foi numa manhã ensolarada de outono, lá pelos idos de 1945”. Nervoso, mas decidido Dib subiu os degraus do sobrado número 11, na Praça XV de Novembro. Fez o teste, foi aprovado e transformou-se num dos primeiros radialistas profissionais de Florianópolis.

Dib Cherem, 74 anos, vaidoso recorda “logo depois que eu passei a atuar em rádio era difícil freqüentar restaurantes e até mesmo sair às ruas. Havia um glamour”. E, tímido logo recompõe: “Mas o rádio não era só entretenimento, tinha também o jornalismo”. E foi no jornalismo, mesmo não renunciando a sua condição de galã, que Dib fez escola. Como os jornais do Rio e São Paulo chegavam no dia seguinte em Florianópolis, tratou de convencer a direção da emissora a contratar os serviços de uma agência noticiosa. Agora, além do serviço de “gilette press” a equipe contava com as notícias captadas pelo serviço de rádio-escuta da emissora e pelo aproveitamento dos boletins da United Press Internacional e da brasileira Asapress. Tudo isso porque “o rádio, então, era o centro das atrações”. Este foi o núcleo que deu origem ao departamento de notícias da Rádio Guarujá que se propunha a preencher uma lacuna na área do jornalismo e dos esportes.

Precursor do radiojornalismo local, Dib Cherem relembra: “A rádio Guarujá, em 1945 deixa de ser um pequeno serviço de alto-falantes para adquirir o status de emissora de ondas médias” com direito a prefixo que lhe assegura a condição legal de anunciar: Rádio Guarujá, ZYJ-7 – a mais popular.

A alcunha desairosa de “cidade que encanta e seduz” não era, porém, gratuita. Realmente o fornecimento de energia elétrica era precário e as ligações telefônicas deixavam a desejar. Também os recursos técnicos eram escassos, principalmente para transmissões externas de eventos como reportagens e coberturas esportivas.

“Em tempos ainda não dominados pela televisão com seus ilimitados recursos tecnológicos, a ‘Mais Popular’ como era conhecida a Guarujá, lançou-se numa arrojada programação que envolvia apresentações musicais de auditório onde nasceram excepcionais talentos, transmissões de novelas, fartos noticiários, em particular os esportivos e outros serviços de utilidade pública como desfiles e bailes carnavalescos, jogos de futebol e eventos alinhados com o interesse dos ouvintes”.

Desse tempo Dib evoca alguns programas noticiosos que predominavam na Guarujá. Bom Dia Florianópolis, uma crônica de sua autoria focalizando temas de interesse coletivo, diariamente às oito horas da manhã; a uma da tarde Correspondente Guarujá; às 18h10min ia ao ar a Resenha J-7 e às 22h00min o Grande Diário do Ar que condensava as principais notícias e editoriais opinativos. Além do mais, reforça Dib, eram produzidos dois programas esportivos: o Rádio Esportes das 12h40min e o Momento Esportivo das 19h00min. O carro-chefe da programação da “Mais Popular” não fica nisso. “O Departamento de radiojornalismo tinha o encargo, ainda, das transmissões de jogos, reportagens externas de desfiles militares e escolares e a irradiação dos festejos carnavalescos com a apresentação das escolas de samba, os carros alegóricos e de mutação e os bailes dos principais clubes da cidade”.

Dib, o cantor frei José Mojica e o empresário Ferreira Lima.

O trabalho do dia-a-dia, entretanto era um duro aprendizado. “A elaboração dos noticiários exigia paciência e imaginação, já que as fontes eram pouquíssimas. A gravação dos mais conceituados programas jornalísticos do Rio ou de São Paulo eram recursos a serem utilizados, uma vez que as matérias dos órgãos da imprensa nacional que aqui chegavam tinham perdido a sua atualidade. O mais eficiente e moderno meio de obtenção de fatos nacionais e internacionais era recorrer à agência noticiosa Asapress que remetia, via telégrafo, farto material para ser aproveitado pelos veículos de comunicação da época”.

Mesmo sendo uma atividade em grande parte alimentada pelo espírito pioneiro, o rádio para se manter dependia de recursos financeiros. Recursos que deveriam ser proporcionados por investidores e anunciantes. Mas, na verdade, eram todos amadores. Dib, porém, já naquela época percebe que os participantes, empresários e pequenos anunciantes, “ainda não tinham plena convicção dos benefícios que poderiam advir da publicidade para o lançamento de seus produtos”.

Bate Pronto

Antunes – O rádio, ainda hoje, tem a mesma força?

Dib – Ainda é ele, hoje, um popular veículo de informação, sobretudo em emissoras especializadas, com notícias a todo o momento, entrevistas e outros serviços de utilidade pública.

Antunes – É verdade que o atual senador Pedro Simon foi locutor da Rádio Guarujá?

Dib – O senador Pedro Simon, quando aqui freqüentou o curso de Direito, foi nosso companheiro na apresentação do Grande Diário do Ar, das 22 horas.

Antunes – No que o rádio pode suplantar a televisão, se isso é possível?

Dib – Posso argumentar?

Antunes – Com certeza. Fique à vontade.

Dib – Debate exibido outro dia num dos canais de televisão abordando temas de natureza administrativa, provocava dúvidas se os mais habilitados técnica e profissionalmente seriam mais capacitados para expressar com clareza seus pontos de vista, esquivando-se das ciladas da própria língua portuguesa. Aliás, tal observação não é fora do comum nos instantes em que os entrevistados demonstram sérias deficiências para esclarecer questões que lhe são postas. A televisão pode ser um instrumento de dois gumes: tanto pode enaltecer quanto lançar ao abismo indivíduos que, normalmente, são dotados de altíssima capacidade intelectual e de invejáveis conhecimentos em sua atividade profissional. No rádio, todavia, a situação é aparentemente inversa, pois distante do temido foco das câmeras e da observação implacável dos telespectadores, seus integrantes não dispensam outras virtudes para um desempenho eficiente, quais sejam: dicção perfeita, voz agradável, aptidão para leitura e interpretação de textos. Tais qualificações são básicas para quantos postulam uma carreira radiofônica, já que essa manifestação da área de comunicações é um dos mais poderosos veículos de divulgação, constituindo-se, ainda, num incomparável caminho para produzir talentos jornalísticos.

Antunes – Esse pensamento continua válido para os dias de hoje?

Dib – Mais do que nunca. A sociedade moderna organizada não mais prescinde ou dispensa a tecnologia das comunicações, que aproxima os povos e nações, civilizações e culturas, assegurando a vivência com os eventos de interesse coletivo significando o ingresso das pessoas em todas as manifestações ou dos apetrechos de informática.

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