Retratos à Luz da Pomboca: o livro de Aldírio Simões*

Publicado em: 09/03/2013

Um tributo à memória do cronista do manezismo ilhéu e seus desdobramentos como parte basilar da cultura da cidade de Florianópolis. Homenagem a um dos inspiradores da criação do Instituto Caros Ouvintes.

[Por Raul Caldas Filho]

Se algum historiador do futuro quiser conhecer o temperamento dos habitantes da cidade erguida sobre a Ilha de Santa Catarina,  no transcorrer do século XX, terá que, inevitavelmente, debruçar-se sobre estes Retratos à Luz da Pomboca. As figuras aqui reunidas pertencem aos mais diferentes meios sociais e o que as une não são as crenças, nem paixões ideológicas, mas sim a espirituosidade, o senso de humor e uma peculiar maneira de encarar a vida.

Aldírio Simões, desde que passou  a publicar esses perfis – realizou um verdadeiro inventário do homo sapiens ilhéu, reunindo numa plêiade de personagens (nada menos que 75), tanto da área urbana quanto do interior da Ilha. São comerciantes, advogados, médicos, políticos, escritores, pescadores, empresários, radialistas, boêmios, funcionários públicos, jornalistas, figuras folclóricas, desportistas, músicos, sambistas etc., formando uma galeria de tipos de fazer inveja a Jorge Amado.

Ela também estão presentes – e muito bem representadas -, ainda que em menor número, o que se explica pelo fato da liberação feminina continuar encontrando certas resistências no território desterrense.

Encontramos, pois, neste livro, através dos descontraídos e muitas vezes hilariantes depoimentos, casos, “causos”, histórias, façanhas, aventuras e até mentiras e bazófias, mas tudo temperado pelo característico “molho” manezinho. Termo, aliás, que, em outras épocas, era usado, de uma forma pejorativa, para designar o pescador ou o “beira de praia” e que hoje, graças ao Troféu Manezinho da Ilha idealizado pelo próprio Aldírio, é aceito como título honorífico a todos aqueles que se identificam e amam “este pedacinho de terra perdido no mar”, conforme os imorredouros versos de Zininho.

E para aqueles menos informados – ou principiantes nos hábitos “Manés”- explique-se: “Pomboca” era uma pequena lamparina a querosene usada pelos moradores dos distritos e redutos da “Ilha Capital”, quando a luz elétrica não chegava àquelas localidades. Ficou também muito conhecida na Lagoa da Conceição, pois os pescadores garantiam que a sua luminosidade atraia os siris e os camarões. Isso nos bons tempos em que esses saborosos crustáceos proliferavam, com abundância bíblica, nas mansas águas da lagoa.

Deleitem-se e divirtam-se, portanto, com estes Retratos à Luz de Pomboca, que são também, acima de tudo, um retrato da alma ilhoa.  (Prefácio | Retrato à Luz da Pomboca | Aldírio Simões | Edição do autor | Florianópolis, 1997)

*Na próxima semana: A Brasília do Menezes “Uma morena cor-de-jambo, de cintura fina, rosto bonito e sensual, no fulgor dos seus 18 anos, com a pele queimada do sol contrastando com a tez alva do jornalista sulino”.

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