Ricardo Medeiros defende tese de doutorado

Publicado em: 26/07/2004

No próximo dia seis de outubro diante de professores franceses e brasileiros presentes em dois continentes, Ricardo Medeiros, fará a defesa presenciada na França e no Brasil pelo sistema de videoconferência em transmissão simultânea. Você pode participar indo ao Laboratório de Ensino à Distância da Ufsc, às 10 horas da manhã ou ao auditório da Université du Maine, às 14 horas.Radionovela e Publicidade: memória da recepção em Florianópolis durante os anos 1960. 

A tese, “Radionovela e Publicidade : memória da recepção em Florianópolis durante os anos 1960”, será defendida no dia 6 de outubro deste ano, na França, pelo jornalista e escritor Ricardo Medeiros. O trabalho acadêmico aborda o processo de recepção das histórias em capítulos e das mensagens comerciais dos patrocinadores dos folhetins eletrônicos da antiga Rádio Diário da Manhã. Dito de outra forma, a tese estuda como se deu a relação e interação entre os dramas, a publicidade e os ouvintes, bem como os efeitos gerados pela cumplicidade desses três eixos na emissora de maior audiência de Santa Catarina há mais de 40 anos.

Desde 2001, Ricardo Medeiros está ligado ao Departamento de História da Université du Maine, da cidade de Le Mans, onde desenvolveu este trabalho acadêmico. Através de uma convenção entre Brasil e França, o jornalista pode com isso contar com dois orientadores. Pelo lado francês, Ricardo Medeiros foi orientadora pela doutora em história contemporânea, Brigitte Waché, enquanto que pelo setor brasileiro a orientação se deu através do doutor em jornalismo Eduardo Meditsch, professor do Departamento de Comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina.

A defesa da tese será viabilizada através de videoconferência entre a Université du Maine e a UFSC, via o laboratório de Ensino à Distância (LED). Isto implica dizer que por esse sistema os membros da banca examinadora e o doutorando estarão se comunicando ao vivo através de monitores.  Os membros do júri serão num total de cinco: três franceses e dois brasileiros. Do lado francês fazem parte da banca os professores de história contemporânea Brigitte Waché (Université du Maine) e  Guy Martinière (Université de la Rochelle) e pelo setor brasileiro o professor Eduardo Meditsch, além da historiadora Lia Calabre, vinculada à Fundação Casa Rui Barbosa, do Rio de Janeiro, e que desenvolveu a tese No Tempo do Rádio : radiodifusão e cotidiano no Brasil (1923-1960).

A defesa da tese  “Radionovela e Publicidade: memória da recepção em Florianópolis durante os anos 1960” foi marcada para o dia seis de outubro. A sessão começara às 10 horas pelo horário brasileiro e às 14 horas pelo horário francês.  A defesa é aberta ao público dos dois países.

O que é recepção

É entendido como recepção o processo que envolvia o antes, o durante e o depois do ato de escuta da radionovela. Faziam parte do ato que antecedia a audição dos radiodramas itens como o período do dia e o horário escolhido para se dedicar às novelas, onde e com quem acompanhar essas histórias, discussão com amigos, vizinhos ou parentes sobre o capítulo anterior e as expectativas dos próximos enlaces do folhetim. No mesmo rol se encontravam os rituais incorporados pelo público para ouvir esse gênero de ficção. São entendidos como rituais o conjunto de práticas como as de mulheres de ouvir novelas enquanto desenvolviam os seus afazeres domésticos ou de se postarem em pé junto ao rádio para acompanhar mais um capítulo da sua novela preferida.

Quanto ao ato propriamente dito de escutar novelas podemos enumerar como parte deste momento a escuta tanto do capítulo como dos blocos comerciais. Na escuta dos capítulos a população entrava em contato com o mundo imaginário desse tipo de ficção e envolvia-se com temas, situações e personagens das histórias seriadas. Por intermédio da publicidade, cada ouvinte tinha a oportunidade de se envolver com o conteúdo dos anúncios, do mesmo modo com que com as marcas e nomes de patrocinadores.

O processo de recepção de radionovela continuava mesmo após o ato da audição do capítulo do dia. Neste momento o público estaria inclinado a discutir cenas e situações vividas pelos personagens, além de estar propenso a incorporar modos e costumes apreendidos do folhetim e de comprar ou não os produtos anunciados na novela recém acompanhada.

Capítulos

Para discutir essas fases vividas pelos ex-ouvintes de novelas da Rádio Diário da Manhã, a pesquisa foi dividida em duas partes: Radionovela e Vida Cotidiana e A Ação da Publicidade sobre os Ouvintes, totalizando seis capítulos.

A primeira parte engloba os três primeiros capítulos: Gênese da Radionovela, Radionovela em Florianópolis e O Mundo Imaginário como Entretenimento. No primeiro capítulo, Gênese da Radionovela, é feita uma retrospectiva da origem das radionovelas e sua exploração comercial. Os romances saem das páginas de livros e jornais para serem interpretados no rádio, via a “soap-opera” americana e os dramas cubanos, gêneros direcionados às donas-de-casa e que desde o início foram bancados por empresas de produtos de sabão. Anos mais tarde, o estilo cubano de se fazer novelas se espalha pela América Latina, e leva à reboque os patrocinadores tradicionais que usam da propaganda para « vender » à responsável pelas compras de casa os mais variados produtos. O segundo capítulo, Radionovela em Florianópolis, enfoca a origem e o desenvolvimento dos dramas radiofônicos na capital catarinense, que passam pela realidade de conviver sobretudo com o apoio publicitário das multinacionais. Por sua vez, no terceiro capítulo, O Mundo Imaginário como Entretenimento, nós temos vários momentos distintos. O primeiro deles refere-se às modalidades de diversão dos ouvintes de Florianópolis, entre às quais os bailes, passeios pelo centro da cidade, cinema, leitura de revistas e jornais, além da escuta de rádio. O segundo momento desse terceiro capítulo é relacionado com a escuta das radionovelas na RDM : freqüência, período, local, hábitos particulares para a audição dos dramas, assim como identificação das pessoas com quem o ouvinte dividia esse espaço de contato com as novelas. No terceiro capítulo é feita ainda uma análise sobre os aspectos : atração dos ouvintes pelas radionovelas, nomes de dramas, lembranças de enredos e influência de temas de radionovela na vida do ouvinte, entre outros. Além disso o capítulo relata a relação entre ouvintes, personagens e atores. De outra forma dita, esse seguimento do trabalho entra no campo de influência de personagens no cotidiano da população ouvinte da Rádio Diário da Manhã e da ligação na década de 1960 entre ouvintes e atores e atrizes do rádio.

A segunda parte do trabalho, intitulada A Ação da Publicidade sobre os Ouvintes, contempla os três últimos capítulos: As Armadilhas da Sedução, Patrocinadores Brasileiros e Patrocinadores Multinacionais. Assim sendo, o quarto capítulo, As Armadilhas da Sedução, discorre a respeito dos temas de propagandas lembradas pelos ouvintes , conteúdo dessas propagandas e análise de jingles e spots inseridos no momento das novelas. Este seguimento enfoca igualmente outros aspectos, como as táticas para persuadir o ouvinte e o grau de influência da publicidade sobre as compras da população . O quinto capítulo, Patrocinadores Brasileiros, dá atenção aos parceiros publicitários das histórias seriadas, vinculadas da Rádio Diário da Manhã, tanto a nível local[1], como estadual[2] e nacional.[3] O último capítulo, Patrocinadores Multinacionais[4], trata dos mantenedores estrangeiros de folhetins, ou seja : empresas americanas e européias que anunciavam na emissora de Florianópolis. 

Enquete por Questionário

Para viabilizar esta pesquisa um dos recursos utilizados foi uma enquete por questionário, aplicada no ano 2002 junto ao ex- público da Rádio Diário da Manhã na Grande Florianópolis. No total, foram preenchidos 57 questionários, que continham perguntas em torno dos eixos radionovela-publicidade e radiouvinte. Sua primeira parte traçava um perfil do entrevistado : nome, ano de nascimento, cidade nascimento, qual a atividade do entrevistado e seu estado civil na década de 1960, além do seu nível escolar, entre outras questões. A segunda parte era conduzida diretamente para o assunto radionovela : sobre o que as novelas de rádio falavam, qual a influência dos temas de novelas no cotidiano do ouvinte, lembrança de nome de radionovelas, freqüência de audição de novelas, lembrança do nome de personagens , lembrança de nomes de atores e atrizes, entre tantas indagações. A terceira parte do questionário contemplava a questão da propaganda : lembrança de nome de propagandas, lembrança de produtos anunciados, lembrança de patrocinadores e compra de produtos influenciada pela publicidade inserida em radionovela, entre outros.

Das 57 pessoas que responderam o questionário, 47 (82, 5%) são do sexo feminino e 10 (17,5%) são do sexo masculino. A idade média dos entrevistados é de 61 anos, sendo que o mais novo possui 38 anos e o mais velho 77 anos. Quarenta e três deles (75,4%) moram em Florianópolis, 13 (22,8%) em São José e 1 (1,8%) em Palhoça.

Na década de 1960, majoritariamente os entrevistados eram donas de casa, integrado por 20 mulheres (35,1%) que se dedicavam à vida doméstica. Outros 16 entrevistados (28,1%) eram estudantes nesta época. Havia também um grupo de 21 pessoas (36,8%), que possuía outras atividades, como a de funcionário público, costureira e professor. Em relação à década em questão, 30 consultados (52,6%) declararam que pertenciam à classe média e 23 (40,4%) à classe baixa. Apenas 4 consultados (7 %) disseram pertencer nos anos 1960 à camada carente da população brasileira.

Depoimentos

Para desenvolver Radionovela e Publicidade: a memória da recepção em Florianópolis durante os anos 1960 uma outra fonte escolhida foi a da história oral, que consiste na realização de entrevistas gravadas com pessoas, por exemplo, que possam testemunhar a respeito de determinado acontecimento, como a radionovela. Esta metodologia de pesquisa, que começou a ser utilizada nos Estados Unidos nos anos 1950 e no Brasil a partir da década de 1970, é um dos dispositivos eficazes- em paralelo com documentos escritos, imagens e outros tipos de registros- para se ter uma noção do que foi o passado.

Assim sendo foram colhidos o depoimento de 53 pessoas, entre ouvintes, publicitários, pessoal da parte artística e técnica de radionovela, produtor de programa, diretor de rádio, psicólogo e produtor musical. Todas as entrevistas foram registradas em gravador e depois transcritas na sua integridade, transformando então, na prática, o discurso em fonte documental. Tal compreensão deveu-se ao entendimento de que , segundo Lígia Maria Leite Pereira (1991), a função do documento oral é preencher as lacunas existentes nos documentos escritos ou para registrar o que ainda não se cristalizou nesses mesmos documentos. Ela relata também que as histórias de vida, com suas riquezas de detalhes, tornam-se uma relevante fonte nas áreas em que determinada pesquisa encontra-se estagnada. Destes relatos orais surgem outras variáveis, além de novas questões , agindo no sentido de reorientar o campo de investigação. [5]

Pelo lado do público ouvinte, foram reunidos 26 testemunhos, sendo nove deles durante o ano de 2000 e o restante em 2002. No cômputo geral, foram entrevistados 24 mulheres e 2 homens. Os representantes masculinos são José Alvari Oliveira e Nilo Padilha, enquanto as mulheres aparecem na pesquisa via Ana Maria Martinelli, Cecília Maria dos Santos Machado, Delmar Bellin , Juça Brincas , Lúcia Rosa Daniel, Maria dos Santos Oliveira, Nadir Soncini , Terezinha Lopes, Beatriz Anália Demaria, Carmem Goulart da Silveira, Dilma Maria Cunha,Vera Pacheco Bastos, Nina Rosa Lima Medeiros, Jane Bulcão Vianna, Maria Marta da Costa, Maria Ana Machado, Uda Gonzaga, Odaci Andrade de Saibro,Vanda Alves de Lima, Eli Jovelina Lino, Norma Barbato Couto, Elza Cunha, Ivete Lucia Bruggemann Wagner e Nilza Pereira da Silva.

Quando da escuta das radionovelas na RDM os interrogados eram mulheres do lar (38,4), estudantes (26,9%), professores (15,3%), funcionários públicos (11,5%), domésticas (3,8%) e comerciários (3,8%). Vinte e quatro depoentes (92,3%) habitavam em Florianópolis e 2 moram em São José (7,6%). Os entrevistados, com idade média de 61 anos, trouxeram à tona, como diz Samuel Raphael (1990) a respeito dos idosos, « verdades que são gravadas nas memórias das pessoas mais velhas e em mais nenhum lugar ; eventos do passado que só eles podem explicar-nos, vistas sumidas que só eles podem lembrar ».[6] Foram pessoas, como nos alerta Maurice Halbwachs (1990), que reconstroem o passado com o auxílio do presente para evocar suas lembranças.[7]

Ainda em busca de uma multiplicidade de pontos de vista e de reinterpretarão da história, foram feitas entrevistas abertas com 27 pessoas ligadas diretamente ou indiretamente com radionovela ou com o mundo publicitário. Neste universo, onze pessoas foram abordadas no ano de 2000, quatorze em 2002 e duas no ano de 2003. Do total dos depoentes, 21 deles tiveram o seu relato gravado e 6 foram interrogados via Internet. Para melhor checar algumas informações o publicitário Eloy Simões e o novelista Gustavo Neves foram entrevistadas em duas ocasiões.

Dentre as pessoas entrevistadas em 2000 estão Antunes Severo, publicitário e ex-funcionário da Rádio Diário da Manhã; Augusto Mello, ex sonoplasta da RDM; o publicitário Eloy Simões; George Alberto Peixoto, ex diretor da Rádio Santa Catarina; Gustavo Neves Filho, ex ator e ex autor de novelas da Rádio Diário da Manhã; Maria Alice Barreto, ex-atriz de radionovela; e Nivalda Severo, ex funcionária da RDM. Além deles, foram colhidos depoimentos pela Internet com Jorge Pereira de Souza, proprietário das organizações Pereira de Souza; Luiz Cama, publicitário da empresa Ogilvy; Mario Lago, ex ator e ex autor de radionovela; e de Wilson Russell Mac Cord, ex-publicitário da empresa Sydney Ross.

No período de 2002 foram entrevistados a proprietária da Rádio Santa Catarina Heloisa Cruz; o ex- contábil e diretor comercial da Diário da Manhã Hidalgo Araújo; o ex- Gerente do grupo A Modelar, Ody Varella; o ex- diretor financeiro do grupo A Modelar, Altair Cascaes; o ex redator de publicidade do grupo A Modelar, jornalista Itaeli Pereira; o ex-diretor comercial do grupo A Modelar, João Alfredo de Campos Filho; o ex-diretor da Loja de Móveis do grupo A Modelar, Delcir Iguatemi da Silveira; o ex-funcionário da Unilever no Brasil Karam Albert; o Geógrafo Rocelito de Souza Coelho; o jornalista Walter Souza; o jornalista Cyro Barreto; o jornalista e escritor Francisco José Pereira; o técnico em eletrônica Walter Lange Júnior; e Osmar Silva filho, filho do autor de novelas Osmar Silva. No ano de 2003 contribuíram igualmente com seus depoimentos, pela Internet, a diretora do programa de radioteatro da Rádio FM Cultura de Porto Alegre; e o jornalista, radialista e teatrólogo Nilson Mello.

Foi desta forma, unindo os mais diversos depoimentos com a parte teórica e demais materiais, que esta tese foi se edificando, numa tentativa de construção de um cenário possível onde circulavam os dramas radiofônicos que permitissem analisar um pouco mais a ligação publicidade-radionovela-ouvinte na Florianópolis dos anos 1960.

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[1] O patrocinador local e aquele cuja empresa tem sua origem na cidade de Florianópolis.

[2] O patrocinador estadual é aquele cuja empresa tem sua origem no Estado de Santa Catarina, mas não na cidade de Florianópolis. Em português a expressão « estadual » equivale ao « departamento » francês .

[3] O patrocinador nacional é aquele cuja empresa tem sua origem no Brasil, mas fora do Estado de Santa Catarina.

[4] O patrocinador multinacional é aquele cuja a empresa tem sua origem fora do Brasil.

[5] LEITE PEREIRA, Lígia Maria.Relatos Orais em Ciências Sociais : limites e potencial. Revista Análise e Conjuntura. Belo Horizonte, volume 06, número 03, dezembro de 1991.

[6] SAMUEL, Rapahel. História Local e História Oral, in Revista Brasileira de História. São Paulo : ANPUH, 1990. P. 230.

[7] HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo : Vértice, 1990. P. 71.

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