Rios noturnos

Publicado em: 16/12/2010

Paulo Clóvis 

Do alto da pirambeira, diviso um rio que mistura pedaços deste e de outros rios, pequenos afluentes e caudais que se espraiam sem lógica, remansos e corredeiras, água em abundância, clara ou escurecida pela mata ciliar. A vista é deslumbrante, mas aterradora, porque um escorregão pode ser o fim de tudo. Uma senhora senta no outro lado, à beira do precipício, e também se espanta com a vista, quer saber mais, dá uma dica, pede uma impressão, e termina em silêncio, sem o que dizer. Rios em curvas, ganhando proporções inverossímeis, são recorrentes. Rios da infância, rios sonhados, lidos, vividos na pesca de carás, no banho e no susto da correnteza. 

Rios em despenhadeiros, em vales profundos, em traçados de artista, desembocando em algum lugar – não necessariamente no mar. E aqueles que terminam num azul ilimitado na cor, mas limitados na proporção… Em alguns casos, é preciso escalar um morro para chegar perto da foz. Como um córrego sufocado pela serragem pode engendrar um lago amplo assim?

Uma imagem que volta sempre é a do rio que vem calmo, na sombra do morro, e se expande de repente, perto do lugar onde jogávamos o anzol, com chances remotas de apanhar algum lambari. Ali, os primos botavam o braço nas tocas para pegar cascudos – e às vezes roçavam uma cobra. Em outro rio, a traíra morde o dedo indicador, aquilo ia sangrar um pouco, o dia frio, a cara de dor – mas o peixe estava na sacola.

De volta à imagem do sonho, a água é muita, mas não leva a lugar algum. Coisas sem sentido, porque se bastam por si mesmas. Talvez por isso o fascínio pelo tema, uma ponte, um caminhão descendo a encosta, os rios criando cidades, a estrada de ferro serpenteando ao lado, a força da natureza impondo limites aos projetos humanos.

Depois da aventura, já dentro de casa, emerge uma confusão de cenários, portas que não dão para lugar algum, cortinas que sufocam, porque se enrolam no pescoço, deliberadamente. Sem mais, a falta de ar, o desespero da respiração contida, o corpo se contorcendo. Era o muco produzido na madrugada, com o ventilador a mil e o cobertor largado, a esmo. Era noite, e foi preciso ir ao banheiro para liberar um pouco as paredes da garganta.

Durante o dia, as imagens começam a se diluir, embora ainda sobre algum material, já sem a marca do inusitado, do imponderável que a memória revive, em flashes cada vez mais difusos. Na próxima vez, prometo a mim mesmo, vou escrever de manhã, para não perder tanta matéria prima da noite anterior.

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