Ruazinha Perto da Minha Rua

Publicado em: 23/07/2011

Aquilo tudo era uma chácara, eu me lembro, quando passava de ônibus a caminho da Universidade Federal: havia uma casa antiga, paredes brancas, uma porta e três janelas na cor vinho, a pintura desbotada, e um homem velho, barbas brancas, eternamente sentado na soleira da porta. Diziam que se a gente mexesse com ele, ficava agressivo. Nunca soube sequer o seu nome, então não posso dizer se era mentira ou verdade; recordo-o como uma foto enquadrada na janela do ônibus da Trindadense.

Naquela época, não suspeitava que um dia moraria alí, onde, então, eram seus domínios. Pelo tempo, imagino que o velho tenha morrido e os herdeiros tenham loteado a chácara. Naquele espaço, foram sendo construídas, lado a lado, as casas dos parentes: filhos, netos e sobrinhos. Com o tempo, os mais novos foram se mundando – sim, mundando, porque sempre que a gente muda, ganha o mundo -, outros foram ficando, ficando…

A abertura de vias e estradas próximas mudou o destino do beco familiar agora ligado a duas vias importantes, rua principal e avenida, elevando o seu status para “ruazinha”.  Tem uns cinqüenta metros de extensão e, apesar da mão dupla, nela só passa um carro por vez. Azar de quem estiver mais perto da boca da rua, que volte de ré. Nem sei se tem um nome, mas tem uma praça, pracinha, nascida da área verde estabelecida por lei.

Tem umas cinco ou seis árvores remanescentes da chácara e canteiros onde flores teimosas nascem espontaneamente por entre o mato e também um banco como toda praça que se preze. Cortando a pracinha, um caminho liga uma rua à outra rua. Alí mora um homem que todo dia sai a passear com seu curió, tem vizinha na janela e no portão conversando com a outra, tem cachorro enfezado que parece que late por obrigação, tem gente que passa, inclusive eu a ir e vir.

Não sei o que acontece, mas parece que, na ruazinha, as pessoas tornam-se de novo civilizadas, se cumprimentam, e se olham nos olhos e sorriem e dizem: – Bom dia, senhor! – Boa tarde, senhora! Eu me sinto feliz quando isso acontece, mas, desde que vim morar aqui, uma coisa me intriga: teria a ruazinha, em sua pequenez, o poder de mudar as pessoas reavivando memórias de vizinhança, quadra, bairro, cidade pequena?

Hoje, ao cruzar com uma senhorinha, descobri a razão. Naquela ruazinha sou eu quem olha as pessoas nos olhos, sou eu quem sorri e quem diz: – Bom dia, senhor! Boa tarde, senhora! É em mim que a ruazinha reaviva a memória de vizinhança e de cidade pequena. É a mim que ela humaniza e salva.

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