Saber envelhecer

Publicado em: 05/02/2012

O dom da vida, apesar da fadiga e da dor que a caracteriza, é belo e precioso demais para que dele nos cansemos

Lanço mão, agora, dos ensinamentos de Sônia Sírtoli Farber, Teóloga, quando fala do tema “Envelhecer com sabedoria”. Nas lembranças mais felizes, que a maioria de nós tem, nossos avós estão presentes. Eles possuem essa mágica de envolver o cotidiano numa bruma de encantamento. Casa de vovô, de vovó, é um arquétipo de fantasia, lembramos dela e um comando cerebral nos faz salivar. Nem sempre os doces da vovó são os mais requintados, mas, com certeza, são alimentos de sonhos. O jeito como ela lidava com a comida – e até falava com ela! – abria o nosso apetite. 

Até agora, na lembrança. Ela “surrava a massa”. Não lia receita e sempre tinha um docinho, especialmente guardado, para criança que chegava, com dois ou 42 anos de idade!

Os vovôs têm que ter o “cantinho” deles, pois apesar de terem os maiores relógios que a gente conhece, não seguem o mesmo fuso horário que os demais. Dormir em casa de vovô é uma festa, pois seja lá que hora a gente acorda, eles já estão de pé esperando por nós, com leitinho quente que tem um sabor diferente de todas as marcas que estão no mercado.

Com o tempo e a agitação, corremos o risco de acabarmos nos afastando desses pequenos prazeres que a convivência com os idosos nos oferece. Infelizmente, muitos deles não têm mais condições de viver esse tempo em seu próprio ritmo. Mas isso não tem que ser assim, nem isso pode ser desculpa para o abandono e o descaso. Podemos não ter as mesmas prioridades daqueles que já caminharam na vida muito mais que nós, mas perdemos, e muito, quando não ouvimos o que eles têm a ensinar. A vida, por seus olhos tem contornos diferentes dos nossos, e isso é estimulante.

Nem sempre os idosos conseguem acompanhar as inovações da técnica, mas tem a experiência da vida. Com eles devemos aprender que, na vida, nem tudo precisa ser visto sob o ângulo da competência e rentabilidade; que ainda que se valorize o ditado “tempo é dinheiro”, há coisas que dinheiro algum é capaz de financiar, como um dia a mais de convívio com aqueles que amamos. Paradoxalmente, aquelas pessoas que buscam “falar” com os mortos, são aqueles que não dedicaram tempo suficiente para se comunicar em vida.

Infelizmente, muitos percebem tarde demais, que tudo que conquistaram na vida não é capaz de devolver um só dia dela.

O Papa João Paulo II escreveu um texto intitulado “Carta aos Anciãos” no qual ele se apresenta sendo, também ele, ancião.

“Setenta anos eram muitos no tempo em que o Salmista escrevia estas palavras, e muitos não os superavam; hoje, graças aos progressos da medicina e melhores condições sociais e econômicas, em muitas regiões do mundo a vida ampliou-se notavelmente. Porém, é sempre verdade que os anos passam rapidamente; o dom da vida, apesar da fadiga e da dor que a caracteriza, é belo e precioso demais para que dele nos cansemos”.

E você como está se preparando para a sua velhice? Aposentadoria privada, plano de saúde… não é disso que falo.

Quanto você tem investido na sua vida hoje, para chegar a uma velhice feliz e sem sentimento de ter desperdiçado o tempo que teve? Devemos todos, rezar para saber envelhecer, pois em uma sociedade em que se valoriza o contribuinte, o produtivo, nem sempre encontramos espaço para aqueles que colaboram mais com a experiência que com a força. Envelhece bem, aquele que viveu bem cada uma das suas fases, que tem a noção de ter feito o seu melhor. Sabiamente o autor do Eclesiástes ensina “Se não acumulaste na juventude, o que queres encontrar em tua velhice?”.

Do livro Terei saudade da vida?

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