Sacrum Profanum: um grito (da) pela mulher

Publicado em: 21/11/2012

Imagino que foi durante suas idas e vindas – Passo Fundo-Florianópolis-Mundo – que a ceramista Rosana Bortolin (cá da capital do Planalto e radicada em Floripa) foi moldando a ideia de dominar os quatro elementos também para bradar, aos quatro ventos, um pungente grito pelas mulheres dos quatro cantos do Planeta. Podemos considerar que foi sacada ala Guga usar a essência da vida (fogo, ar, água, terra) associada a outros materiais para gritar contra o que se tornou insustentável num tempo que se arrasta longo demais (repetir não é demais, tempo longo demais): a opressão a que a mulher continua submetida pelos séculos e mais séculos e mais séculos por regras, leis, editos, costumes, normas, diretrizes impostos pelos homens.

A exposição com vulvas provocadoras, ameaçadoras, profanas, sagradas (fotos do nosso cotidiano óbvio que achamos estar longe) deverá chegar a Portugal (em Passo Fundo está no Museu Ruth Schneider) ficará em nossas mentes também pelo horror que provoca em alguns que mal entram na sala e dão meia volta, pelo espanto em outros que seguem aflitos até o fim, pelo misto de agonia e satisfação naqueles que se chocam, mas que sentem-se satisfeitos por verificar que outra voz grita num quadrante que se faz de surdo (às vezes também de cego e mudo).

O aspecto intrigante da exposição que joga o sagrado e o profano utilizando-se do mesmo ente (embora sagrado e profano tenham idiossincrasias culturais há coisas que são universalmente sagradas – ou deveriam ser), é que Rosana diz quase nada, fala o mínimo, é frugal. Se há parcimônia no conjunto como interpretar o fato de ninguém conseguir ficar indiferente diante de algumas fotos e vulvas de barro cozido? Como justificar que diante de algo tão amplo e complexo (a violência contra a mulher) não precisamos de muita conversa para discernimentos?

A Rosana preparou uma armadilha obrigando-nos a refletir ou sair correndo! Descobrimos o que ocorre dentro da sala ao botar o pé na rua: o que a artista mostra é o que está em nossas próprias cabeças, não raro como arame farpado sendo puxado por quem precisa abrir novo caminho no meio do enrosco. Vamos lá: em nossas cabeças – na Europa, Ásia, África, América, Oceania, Passo Fundo, Florianópolis – foi tudo sendo depositado como fino pó que incomoda duplamente: por ali estar emporcalhando a paisagem e por não termos a coragem de fazer a revolta contundente. Ou, o que é pior, por achar que somos cumplices ou impotentes.

Raras vezes assistimos os quatro elementos sendo manuseados, domesticados, moldados com singeleza para desconfortar, desacomodar, intrigar, chatear como esta exposição Sacrum Profanum de Rosana, uma menina que apenas pisava na terra da coxilha coberta pelo trigo verde/amarelo e que, agora mulher, quer saber o que nos guarda lá onde se encontra o que há mais profundo desta mesma terra.

A exposição (que comprova outra vez todo talento, a sensibilidade e a enorme competência da  Rosana) iniciou em março de 2012 no Espaço Oficina do Centro Integrado de Cultura (CIC) de Florianópolis, se desdobra e já esteve em Blumenau, está em Curitiba e Novo Hamburgo, irá a Montenegro e fica em Passo Fundo (com chancela da UPF, Vice-reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários) até 18 de dezembro no Museu de Artes Visuais Ruth Schneider (pode ser vista de terça a sexta das 9 às 18 horas e sábado e domingo das 14 às 18 horas).

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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