Salve a imaginação!

Publicado em: 25/11/2016

Cresci no tempo do rádio, tempo em que a imaginação imperava.

reflexaoVivemos, hoje, um tempo audiovisual, talvez muito mais visual do que auditivo. Sobretudo com o império da televisão, e depois das transmissões pela Internet, a predominância das imagens é inconteste. Ver parece ter se tornado sinônimo de viver.

Naquele tempo, o cinema, com sua imensa magia, precisava ser buscado; era necessário ir aos cinemas, que se multiplicavam celeremente. As fotografias impressas nos jornais e nas revistas também se precisava buscá-las. Mas o rádio penetrava em tudo. E, melhor, não exigia a atenção total, a concentração absoluta; ouvia-se sem que houvesse uma exclusividade mobilizadora: podia-se ouvir simplesmente fazendo outras coisas.

Quando o avanço da tecnologia possibilitou a miniaturização, a portabilidade dos rádios ampliou ainda mais seu raio de ação.

Na TV ou no cinema, artistas e sua imagem casam-se irremediavelmente. Já no rádio, radioatores, radioatrizes, locutores e locutoras, cantores e cantoras não precisavam enquadrar seus tipos físicos nos padrões aceitos de beleza.

O que se impunha era a beleza da voz e a capacidade de utilizá-la nas interpretações. Mocinhos e mocinhas, no rádio, podiam ser interpretados por pessoas sisudas, antipáticas ou mesmo feiosas; desde que a voz fosse bela, e bem empregada, a imaginação fazia o resto.

Imagens são limitadas e determinadoras, mas a imaginação não tem limites. Ela voa, constrói, destrói, cria e recria, apropriando-se de tudo, transformando todas as coisas, e afeiçoando-as à vontade de quem imagina. O que chamamos “real” tem limites, ditados pela visão de suas características físicas; a imaginação não tem peias ou fronteiras. O mundo criado pela imaginação só tem os limites da capacidade de cada um de imaginar.

Se compararmos o tempo do rádio com o tempo multiaudiovisual de hoje, creio podermos pensar que a imaginação empobreceu.

Meninos de outrora podiam ir ao cinema ver os seriados e os filmes de faroeste. Mas também podiam ouvir, por exemplo, “Jerônimo, o herói do sertão”, pela Rádio Nacional. As vozes marcantes de Milton Rangel e de Cauê Filho, interpretando, respectivamente, o protagonista e seu ajudante Moleque Saci, permitiam uma ampliação da magia, maior até que aquela vista nas séries do cinema. Ou será que aqueles, adultos de hoje, meninos de outrora, que acompanharam a série, sequer podem associar o moleque Saci à figura do branco Cauê? Jamais! Aquela voz era realmente de um negrinho, um moleque magro, irrequieto e bastante petulante.

Eu mesmo, caro leitor, lembro-me do susto que tive quando, indo à Rádio Nacional, vi de perto, num dos estúdios, Milton Rangel, um homem moreno claro, de estatura mediana, cabelos castanhos – um senhor já àquela altura, e com uma barriga proeminente. Não, aquele não era nem será jamais o Jerônimo. Muito menos o velhinho magro, de cabelos brancos, ao seu lado, era o Moleque Saci, que fez minha imaginação voar pelos sertões nos inícios de noite ao pé do rádio.

Salve a imaginação! Ela é tão poderosa, tão renitente em sua construção, e na sua capacidade de fixar-se na memória, que ainda hoje, tantas décadas passadas, ainda estão firmes, nítidas, indeléveis, dentro de mim aquelas construções mentais que conformaram meu imaginário de menino.

O rádio, confrontado com os meios de comunicação visuais, é apenas um exemplo. Mas as sutilezas, a magia, o poder da imaginação apresentam-se em muitos outros momentos de nossa interação com o mundo que nos cerca.

Um desses momentos pode ser ilustrado com o exemplo clássico do corpo que se desnuda. É simples, prezado leitor: o que conterá mais sensualidade, a mulher na capa da Playboy, ou o tornozelo entrevisto e os braços parcialmente à mostra descritos por Machado de Assis? Onde, também, estará a feminilidade mais presente, na grosseria do explícito ou na sutileza do imaginado, em face da impossibilidade do que está encoberto?

Quer outro exemplo, caro leitor? Um lance perdido pela falta de habilidade, talento ou empenho de um jogador de futebol pode se transformar quase numa jogada magistral, se estivermos apenas ouvindo a partida no rádio, sujeitos à genialidade descritiva do narrador esportivo.

Clássico é o exemplo de ler um livro, quando este nos interessa e absorve. Neste caso, montados nas asas generosas da imaginação, fugimos de nós, da vida real, do mundo concreto, e ingressamos no mundo maravilhoso, infinito e sedutor que construímos com… nossa imaginação.

Eu disse aí acima que ver parece ter se tornado sinônimo de viver. Será que isto não terá significado um empobrecimento de nosso imaginário? Eu aposto que sim. E, sem saudosismo atroz, mas com confiança na inventividade humana, espero que surjam meios capazes de estimular a imaginação das novas gerações, como fomos estimulados imaginativamente, no passado, na era de ouro do rádio.

Salve a imaginação!

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