Sapatilha

Publicado em: 10/08/2011

Foi de cortar o coração ver no jornal a foto do delicado sapato de uma jovem atropelada na semana passada na avenida das Torres, em São José. Era uma espécie de sapatilha cor de rosa que ficou ao lado da pista que ela, com o aval de um motorista, atravessava a caminho de casa quando foi apanhada por outro condutor, certamente um desses apressadinhos sem noção que pululam na cidade, no Estado, no país, no mundo. A pressa, aliás, é o câncer de nosso trânsito, mas não só dele.
Os jovens querem queimar etapas e se matam para acumular capital e sobressair aos amigos, mostrar que são melhores, exibir carros, roupas e celulares da moda. E os velhos, ou nem tanto, há muito foram subjugados pela lógica materialista do obter mais, do guardar para a aposentadoria, do superar o colega, o irmão, o cunhado nos quesitos posses e sinais de riqueza. E entram em crise – com depressão, gastrite, suores e palpitações – quando o resultado custa a aparecer.
Li no fim de semana um texto do jornalista Gilberto Dimenstein em que chamava a atenção esta frase: “Para medir a civilidade de uma cidade, veja suas calçadas; de um país, o número de pedestres mortos”. Atropelamentos quase diários são um sinal de que estamos longe da civilidade, porque nem motoristas nem transeuntes sabem se comportar, ansiosos que sempre estão, correndo atrás não se sabe do quê, perseguindo um bem que pode estar ao seu lado ou um palmo à frente do nariz.
Não estou escrevendo isso com ares de autoridade. Já cometi besteiras homéricas e não posso garantir que ainda não esteja cometendo, porque todos somos fracos, inconsequentes, muitas vezes desprovidos do senso do ridículo. Mas ainda tenho semancol para fazer algumas perguntas: onde quer chegar esse pessoal que anda em desabalada carreira pelas ruas, calçadões e avenidas? Será que eles não têm ideia de sua pequenez, de sua insignificância? Por que agem como autômatos, manietados por alguém (ou algo) que não conhecem?
Fico imaginando os pensamentos dessa moça de 21 anos que ficou imóvel no asfalto, seus sonhos numa idade em que ainda se sonha, seus medos porque todos os têm, seus gostos, suas músicas, os livros que eventualmente mantinha na cabeceira…
A sapatilha no acostamento precário choca pela crueza, mas é o atestado de que estamos num mundo insano, em que se admitem anúncios de carros velozes mesmo sem estradas e onde as calçadas, feitas para andar e conversar com os amigos, viraram pontos de tiro ao alvo – onde o alvo somos eu, você, a humanidade inteira.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *