Saudade do bom Repórter Esso!

Publicado em: 08/06/2009

Faz mais de 40 anos que ocorreu sua derradeira edição radiofônica.

A cobertura exaustiva que o rádio e a TV desencadearam para informar o trágico acidente com o Airbus A-330 da Air France – por sinal, a maioria das emissoras apresentando trabalhos de boa qualidade – me fez retroagir até os tempos de minha infância quando acompanhei o primeiro informativo do rádio, que gozava de grande credibilidade.

O Repórter Esso era transmitido em 14 países do continente americano por 59 emissoras de rádio e de televisão. Sua primeira transmissão de rádio no Brasil foi em 1941, no dia 28 de agosto, pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. A última apresentação se deu em 31 de dezembro de 1968, então na Rádio Globo, também do Rio de Janeiro.

O gaúcho Heron Domingues criou um estilo de locução até hoje ainda imitado Brasil afora (montagem postada aqui com duas manchetes sobre a morte de Hitler e o fim da guerra

Já o locutor Roberto Figueiredo que apresentou sua edição final, na oportunidade ficou muito emocionado e chegou a ser substituído por alguns instantes.  Não se conteve e chorou…

Sobre Heron Domingues, contam que ele se concentrava minutos antes de ir ao ar com o  Repórter Esso e que, quando tinha  dúvida sobre alguma palavra difícil, andando pelos corredores da Nacional, perguntava a um ou a mais colegas como era a pronúncia correta. E afirmava que “era melhor ser criticado por companheiros da emissora do que ser chamado de ignorante por um grande número de ouvintes”.

Descontada a influência americana – o Repórter Esso não divulgava notícias que contrariassem o governo dos EUA – esse programa de curta duração: 5 minutos (quatro edições de segunda a sábado e duas aos domingos) marcou época e se caracterizou como grande fonte de informação para todo o Brasil. Sua versão para a televisão brasileira aconteceu no dia 1º de abril de 1952, através da TV Tupi, do Rio de Janeiro.

Conhecido como o “primeiro a dar as últimas” e “testemunha ocular da história”, assim como no rádio, o Repórter Esso na TV também alcançou amplo sucesso. E, como no rádio, teve apresentações regionais (São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife). Encerrou sua carreira na televisão no dia 31 de dezembro de 1970.

Os anos “negros” de censura explícita nos órgãos de imprensa, rádio e TV – aplicada pelo golpe militar de 64 – talvez tenham influenciado a decisão da Standart Oil Company of Brazil de acabar com o seu famoso correspondente (rádio e TV). Excetuando-se o Jornal Nacional, da TV Globo, nada surgiu nem no rádio nem na TV com a força e o crédito do Repórter Esso.

Voltando ao término das transmissões do Repórter Esso no rádio, é marca histórica porque encerrou um ciclo de 27 anos ininterruptos no ar e comovente pela atuação emocionada de Roberto Figueiredo (postada aqui), a qual serve para  mostrar aos jovens que cursam comunicação, especialmente àqueles que fazem jornalismo, o profissionalismo de ouro de uma época não muito distante do rádio brasileiro.

Roberto começa a ler as manchetes do período 1941-1968 e quando chega à manchete de 1954 sua emoção aflora… a manchete de 1959 vem com choro… mais um pouco, ele sai do microfone e entra o locutor substituto que lê algumas manchetes… Roberto retorna lendo as manchetes ainda muito emocionado e,  com muito custo chega à última manchete, a de 1968. Soluçando, ele encerra a última das muitas edições do grande Repórter Esso, marco importante para o radiojornalismo do Brasil.

Outro programa noticioso que marcou muito na história da radiodifusão brasileira foi o Grande Jornal Falado Tupi, criado por Corifeu de Azevedo Marques. Ao lado do Repórter Esso, alavancou o crescimento do radiojornalismo do país, mesmo com a falta de recursos técnicos da época. Esses dois programas fizeram com que a maioria das emissoras de rádio do país passassem a ter informativos compactos ou de longa duração.

Mas os informativos de então continham maior número de matérias do exterior, geradas pelas agências noticiosas, principalmente pela UPI, United Press International. Acompanhavam os órgãos impressos que também se ocupavam mais com as notícias de fora, isso porque elas chegavam em maior número às redações.

Em 1949, Heron Domingues, o primeiro locutor exclusivo e mais famoso dos locutores do Repórter Esso, fez uma comparação entre a imprensa e o rádio:

“A imprensa é a análise, o rádio é a síntese. A imprensa dirige-se aos que sabem ler; o rádio fala, também, aos que são analfabetos. As frases radiofônicas são curtas, contêm apenas o sujeito, o verbo e o objeto direto ou indireto. Em casos especialíssimos, recorremos ao luxo dos adjetivos ou ao desperdício dos pleonasmos de efeito. A vibração da palavra no tímpano de ouvido é fugaz; e o entendimento deve ser instantâneo para que o cérebro possa acompanhar o curso da notícia.”

A partir de um manual orientador do Repórter Esso, normas complementares foram criadas. Muitas delas até agora orientam o radiojornalismo. Que na verdade ensaiou seus primeiros passos com Roquete Pinto (1925), que foi o grande criador do rádio brasileiro, na sua Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Ele foi também o precursor a levar ao  ar o primeiro jornal falado, o Jornal da Manhã.

Diretamente de sua casa, por telefone (o uso do telefone no rádio é bem antigo), ele lia as mais interessantes notícias selecionadas dos jornais do dia. Lia e tecia comentários num formato que viria a ser muito usado anos depois. Por exemplo, o Jornal da Manhã, da Jovem Pan, consagrou o estilo criado por Roquete Pinto e, curiosamente, usa o mesmo título, Jornal da Manhã,  no seu principal programa de notícias.

O Grande Jornal Falado Tupi, que entrou no ar no dia 3 de abril de 1942, em uma única edição noturna (22h00), seguiu a técnica de edição dos jornais impressos: os blocos de notícias eram divididos por assuntos. Quatro locutores se revezavam na sua apresentação. Corifeu comandava o noticioso e comentava as principais notícias do dia. Por muitos anos esse jornal permaneceu com grande audiência na programação da Rádio Tupi de São Paulo.

Corifeu de Azevedo Marques, pela sua importância como jornalista pioneiro no rádio, virou nome de movimentada rua do bairro Butantã, na capital paulista.

Resgatado aqui um pouco da história do Repórter Esso e do Grande Jornal Falado Tupi, informativos que “cimentaram” as bases do radiojornalismo que ouvimos hoje. Exigente,  e sempre muito crítico, este colunista sempre espera que o meio radiofônico cresça cada vez mais nesse setor, especialmente em tempos de imensa modernidade técnica. Que se formem jovens bons jornalistas de rádio à altura das novas convergências que estão sendo disponibilizadas.

P.S. Outro dia, pela manhã, ouvindo a Colon FM, de Joinville, deparei com um programa noticioso intitulado Primeira Página. Esse nome, criação minha, deu vida ao primeiro jornal produzido profissionalmente no rádio paranaense. Foi nos idos anos 60, na Rádio Independência de Curitiba, na qual teve grande audiência por mais de uma década.

FINAL, DOIS PONTOS.

1. Dizia Chacrinha, o do Cassino do rádio e da TV, que nada se cria… tudo se copia e
2. Que não se deve ser mais esperto do que a esperteza. Falou e disse.
(Ah que saudade do velho guerreiro!)

Quem canta seus males espanta. Estamos vivenciando a semana do amor. E, no dia dos namorados, não podem faltar canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, como a inesquecível:

Eu Sei Que Vou Te Amar

Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida eu vou te amar
Em cada despedida eu vou te amar
Desesperadamente eu sei que vou te amar

E cada verso meu será pra te dizer
Que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou

Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

11 respostas
  1. Vera Lúcia Correia da Silva says:

    Caro amigo Jair,
    Credo! quanta informação!
    Só vc mesmo para pesquisar tantas coisas interessantes.
    Até para mim que já trabalho a tanto tempo no mercado, não conhecia tanto da história de ambos os jornais citados. Parabéns!
    Que sirva de cultura e informação aos futuros estudantes de jornalismo, principalmente de radiojornalismo, pois nem aula de rádio alguns tem, sabia?
    Fico frustrada com os estagiários que contrato para trabalhar no GPR, pois a maioria não tem conhecimento nenhum de rádio, digo de toda essa história e até parte técnica que tenho que ficar aqui explicando, proporcionando estágio em alguma emissora, para poderem ter contato com o meio em si.
    Parabéns novamente. Vou contratá-lo para dar um suporte aqui no GPR, o que acha da idéia?
    Abraços de
    Vera Lúcia

  2. J.Pimentel says:

    Meu primeiro contato com rádio foi exatamente com esses programas. Meu pai comprou um rádio e chegou em casa todo feliz com seu rádio “rabo-quente” de baquelite. Ligou o aparelho que estava sintonizado na Piratininga e ouvimos um programa nesse estilo que cita aqui, com Amauri Vieira. No dia seguinte liguei o rádio e minha segunda experiência foi exatamente o GRANDE JORNAL FALADO TUPI, com Alfredo Nagib, Antônio Pimentel (RECÉM CHEGADO A SP) e o âncora, Corifeu de Azevedo Marques.Isto foi nos idos de 1952. O Repórter Esso de que me recordo foi Kalil Filho, também na Tupy de SP e, há uns quatro anos, faleceu o Reporter Esso de Recife (TV Jornal do Comércio), Waldir Coelho, na cidade de Natal, onde viveu seus últimos anos como profissional, na rádio Cabugi, sem qualquer citação ou recordação da imprensa.Boas lembranças.

  3. Israel Lucio says:

    Ol? queridos Colegas, CAROS OUVINTES.
    Gostaria de Parabenizar a voc?s por este site sencacional.
    S? por curiosidade.
    Alguem sabe de um parente de Heron Rodrigues?
    se Tiver, gostaria se algu?m poderia passar contato para que eu pudesse comprimentar-los .
    sem Mais no Momento agrade?o pelo carinho.

  4. nelson pereira de godoi says:

    sinto muitas saudades dessas pessoas que fizero o grandes jornal falado tupi que bom seria que voltase aqueles tempos de um grande jornal

  5. Milton Luis Pereira says:

    Em nome da verdade: o primeiro Reporter Esso da Radio Tupy de Sao Paulo foi Milton Figueiredo, que venceu o primeiro concurso. Ficou 6 meses , deixando o noticiario a cargo de Dalmacio Jordao ,que havia sido o Segundo colocado..
    Milton Figueiredo vive hoje em Carmo do Rio Claro-MG, sua cidade natal, com 84 anos.

  6. Luiz Guilherme Winther de Castro says:

    Tenho o prazer de ser amigo de Job Milton Figueiredo Pereira, ainda vivo, com problemas de saúde, mas bem vivo e com a cabeça muito boa. Praticamente, uma vez por semana, visito-o em sua casa e a conversa gira em torno de música e rádio. Milton Figueiredo, nome adotado no rádio, trabalhou em sete ou oito emissoras de rádio, em São Paulo e Juiz de Fora. Conheceu diversos artistas de rádio e cantores daquela maravilhosa época de ouro do rádio. Largou a profissão para ajudar seu pai no cartório em sua cidade natal. Havia muito serviço no registro de imóveis e o pai precisava dele.Foi a época da construção de Furnas e o movimento no cartório era muito grande. Foi realmente o primeiro Repórter Esso da Rádio Tupi em São Paulo, durante seis meses. Segundo suas próprias palavras, não se deu bem fazendo tal jornalismo, não gostou muito e não era o seu forte. Ficou até contente quando o substituíram e ele passou para a locução comercial, atividade que gostava mais e era muito bom.De qualquer maneira, foi o “primeiro Repórter Esso” na emissora e tal fato não pode ser esquecido.Tem de fazer parte dos anais históricos da Rádio Tupi e na história do rádio brasileiro. Milton Figueiredo também tocava piano, segundo seus amigos e parentes mais antigos comentam. Sou mais de dez anos “menos velho” que ele e só fui conhecê-lo quando vim morar em Carmo do Rio Claro, MG, terra também de minha esposa. Meu primeiro contato com ele foi há mais ou menos 21 anos, quando ela apresentou-me a ele. Com o passar dos anos, nossa amizade solidificou-se.

  7. Antunes Severo says:

    Luiz Guilherme,
    Bem-vindo ao Instituto Caros Ouvintes.
    Grato pelo contato e pelas informações preciosas sobre a carreira profissional do Milton Figueiredo.
    Conte mais. Será um prazer tê-lo como mais um colaborador voluntário no site do Instituto Caros Ouvintes.

  8. Luiz Guilherme Winther de Castro says:

    Milton Figueiredo, meu amigo Job, conta vários pequenos episódios da carreira que procurarei selecionar de forma resumida e passar para vocês.Um deles é que conheceu o pai da Hebe Camargo, cujo nome era Sr.Sigesfredo Monteiro Camargo, que tocava violino na orquestra da emissora, parece que da Rádio Tupi, confirmarei depois. O violinista o cumprimentava educadamente e o chamava de Sr. Pereira. Job diz que foi um dos homens mais educados que ele conheceu, uma pessoa extremamente fina no trato.
    Job é uma pessoa muito humilde, não se gaba e nem conta vantagem de nada que fez no rádio e nem na vida. Na verdade, é avesso a qualquer tipo de entrevista para contar sua trajetória profissional nos anos que dedicou-se à profissão de locutor. Já tentei, e um amigo radialista daqui também, gravar uma entrevista com ele para guardar como um documentário para a cidade, mas ele não aceitou e nem aceita ainda. Para mim, ele conta histórias que presenciou ou tomou conhecimento e fala sobre artistas que conheceu. Refere-se também a outros colegas de rádio que conheceu e alguns com os quais conviveu e só se ouve dele elogios, nunca qualquer palavra desabonadora. Alguma crítica, quando faz, refere-se a ele mesmo. É espirituoso, faz trocadilhos divertidos com facilidade. Na verdade, ele é considerado aqui em Carmo do Rio Claro, um dos ainda poucos intelectuais vivos. Seu pai e seu irmão, o mais velho e uma irmã, professora, também eram pessoas muito cultas, mas já falecidas. Ainda têm alguns irmãos vivos, aposentados, também estudados e cultos, que se preocupam com ele. Um mora na cidade e está sempre com ele. Um irmão e uma irmã moram fora, mas têm contato direto com ele e sempre que podem, estão por aqui.

  9. Milton Luís Pereira says:

    O Luiz de fato é um grande amigo de meu irmão.É um agradável papo que semanalmente anima o Job Milton,hoje mais recluso em casa. Job Milton destaca entre os amigos do rádio as vozes de Antônio Pimentel (para ele um dos melhores locutores que conheceu),Humberto Marçal,Ribeiro Filho e outros.Entrou para o Rádio pelas mãos de Cassiano Gabus Mendes que, inclusive,foi quem sugeriu a adoção de Milton Figueiredo como nome artístico.Trabalhou em várias rádios entre as quais cito: Tupy,Difusora, Piratininga,Nove de Julho.

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