Saudade

Publicado em: 23/11/2005

Foi no supermercado, na hora das contas.
– O que é isto? – pergunta o homem diante do que a moça dá. Ela se surpreende, então não está vendo que são duas balas?
Por Flávio José Cardozo

– Para adoçar a vida – diz, querendo ser simpática.
– Mas quem que pediu bala? Não me lembro de ter pedido. Pedi?
A moça, que está num dia de imenso contentamento, pois voltou às pazes com o namorado, acha lá com os botões de sua blusinha que o freguês está brincando. De vez em quando, mesmo na crise dos diabos que se atravessa, surge alguém fazendo graça na hora de pagar as compras. Deve ser um desses.
– Pedi bala? – ele repete, numa interrogação agora mais severa.
Pô, parece zangado mesmo, o lábio inferior está até tremendo. Ela então explica o óbvio: com a falta de troco, tem sempre umas balinhas à mão. Ninguém reclama.
– Pois eu reclamo! A senhora perguntou se eu queria bala?
– Não, não perguntei.
– Estou em idade de chupar bala? Olhe bem pra mim: estou?
– Bem, acho que uma balinha uma vez ou outra…
– Que uma vez ou outra, moça! Não sou homem de balinha. Tenho filho em idade de chupar bala?  
– Quem sabe os netos… – ela arrisca.
– Meus netos estão no interior do Mato Grosso. Um bocadinho longe para levar as balas, não acha?  
– Quem sabe algum menino da vizinhança… – ela insiste, risonha.
Ele dá um tapa no balcão. É atrevimento demais. Então não basta querer empurrar as balas em lugar de dinheiro, quer ainda lhe ensinar o que fazer com elas?
– Moça, vou dizer uma coisa. Ando por aqui com vocês dos supermercados. Outro dia, num aí, me vieram com caixinha de fósforo. Noutro, com um tal de troco da bondade. O que eu briguei por causa desse troco da bondade! Supermercado não pode obrigar a gente a deixar lá o troco pra ele fazer caridade. Exigi meus cinqüenta centavos.
– Cinqüenta centavos?!
– Cinqüenta centavos, sim. Embirrei, a moça também embirrou, eu a querer meu dinheiro, ela a dizer que não tinha, que todo mundo recebia como troco aquele cuponzinho que ia colocar lá numa urna chaveada. Ficamos naquilo. Até que um freguês da fila, brabo com a demora, arranjou os cinqüenta centavos.
Peguei. E então, só pra mostrar que meu caso não era de pão-durismo, fui lá e joguei o dinheiro vivo dentro da urna. Pensavam que eu não era capaz duma bondade?
– O senhor é fogo.
– Sou mesmo.
– Vou ter que arranjar seus vinte centavos. O senhor não quer adoçar a vida…
– Que adoçar a vida coisa nenhuma.
– Hoje estou tão feliz, se o senhor soubesse…
Ela põe olhos no infinito, fala das pazes que fez, ainda bem que não há movimento nenhum, é só ela e o homem naquele momento. E ele a escuta. E pensa: que tola, está tão tolinha que é bem capaz de começar a bater errado o preço das coisas, a dar troco demais pra todo mundo. Ah, os 18 anos…
– Estou tão feliz… – ela diz de novo, meio inebriada.
Sim, está mesmo muito feliz, vê-se isso com uma clareza de sol primaveril. Como não achar bonita essa alegria?
E então:
– Vou levar as balas – ele decide, numa voz solene como se anunciasse algo muito grave. – Vou levar as balas.
Em sua homenagem, só por isso.
– Que bom. Leve para a sua mulher…
Ele ouve aquilo e sente um travo. Sua mulher…
– Ela vai gostar… – a moça inocentemente machuca.
– Sim, sim, vou levar.
Sai e logo adiante põe a bala na boca, mas ai que vida a minha  que nada mais adoça.
(Do livro Coisas do azul, a publicar)


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