SE BRECHT FOSSE VIVO, APOIARIA A RÁDIO FAVELA FM

Publicado em: 23/10/2006

Em sua teoria a respeito do rádio, que é uma soma de artigos escritos entre 1927 e 1932, Bertold Brecht ressalta já naquela época a importância da participação do púbico na condução dos rumos da então nova tecnologia. Ele defende a intervenção direta dos ouvintes nos programas, além da vigilância que o meio de comunicação deve exercer sobre os governos.
Por Ricardo Medeiros

O alemão destaca também que o rádio poderia contribuir em muito para a formação da opinião pública. Brecht observa que: “O rádio tem apenas uma cara, quando deveria ter duas. Precisamos descobrir o lado positivo da radiodifusão, ou seja, uma proposta capaz de mudar o funcionamento do rádio. Temos de transformar o rádio, convertê-lo de aparelho de distribuição em aparelho de comunicação. O rádio seria o mais fabuloso meio de comunicação imaginável na vida pública, um fantástico sistema de canalização. Isto é, seria se não somente fosse capaz de emitir, como também de receber; portanto, se conseguisse não apenas se fazer escutar pelo ouvinte, mas também se pôr em comunicação com ele. A radiodifusão deveria, conseqüentemente, afastar-se dos que a abastecem e constituir os radiouvintes como abastecederores. Portanto, todos os esforços da radiodifusão em realmente conferir, aos assuntos públicos, o caráter de coisa pública são totalmente positivos” (Apud Revista da USP, 1997: 128).


Cena do filme “Uma onda no Ar”, que retrata a trajetória da 106,7, a “Voz do Morro”.

Na opinião de Brecht o ouvinte não pode ser um agente passivo. Ele deve intervir na programação de uma emissora. A população tem que dar sua opinião, fazer sugestões. Em alguns casos, o ouvinte deve igualmente assumir o comando da programação.

Uma das formas da população ter vez e voz são as rádios comunitárias, instituídas no Brasil em 1998. Executado por fundações e associações, sem fins lucrativos, o serviço tem por finalidade, conforme diz a Lei Federal número 9.612, de dar oportunidade à difusão de idéias, elementos da cultura, tradições e hábitos sociais da comunidade.


O apresentador Misael, da Rádio Favela FM, entrevista em 2002 o  candidato ao
Governo de Minas Gerais, Aécio Neves.

Para quem não tem oportunidade de acompanhar a programação de uma rádio comunitária, voltada para o espírito coletivo, vale assistir “Uma Onda no Ar”, de Helvécio Ratton. O filme relata a história da “Rádio Favela”, de Belo Horizonte. Surgida em 1981, a emissora atuou na clandestinidade para servir os interesses sociais do Aglomerado da Serra, um conjunto de favelas atualmente com mais de 160 mil habitantes.


Os radialistas da Favela FM, Misael e Nerimar, fazem  entrevistas
ao vivo na Rua. Janeiro de 2003.

A emissora foi premiada pela ONU pelo combate às drogas e à violência. Em 2000, a Favela FM 106,7 recebeu autorização do Ministério das Comunicações para funcionar como rádio educativa. Quem quiser, pode também acessar “A Voz do Morro” pela internet: www.radiofavelafm.com.br.


Bertold Brecht (1898-1956).

Fonte:
FANUCCHI, Mário. O Rádio de Brecht Setenta Anos Depois. São Paulo: Revista da USP, 1997.


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