Sensacionalismo barato

Publicado em: 21/03/2010

Até a década de 1960, ainda no tempo ingênuo e improvisado da TV brasileira, eram raríssimos os programas que abordavam temas sensacionalistas. Sempre houve público para eles, mas existia um certo comedimento dos apresentadores e pudor – dissimulado ou não – de quem assistia. Além disso, as emissoras ofereciam programações musicais, novelas, teatro, humor, jornalismo e uma série de outros itens – quase todos ao vivo – que permitiam alternativas culturais atraentes.

O tempo passou e os meios de comunicação evoluíram tecnologicamente, mas o que se vê nas programações da maioria das emissoras de TV é semelhante ao que se ouve nas rádios: muita sofisticação, nos equipamentos, mas baixíssima qualidade no que apresentam!

Apesar da grande variedade de emissoras, são poucas as opções de programação. E quase todas dispõem de, no mínimo, uma versão de programas considerados sensacionalistas ou “populares”. Neles, pessoas aparentemente comuns “aceitam” expor seus problemas e mazelas. Mas o que se vê é a exploração sem limites de temas complexos, tratados de forma vulgar, sem ser didática; e a sujeição de seres humanos a situações vexatórias, que têm como clímax, ansiosamente aguardado, ofensas e agressões. Seria risível, se não fosse grotesco e desumano!

As produções se aproveitam da fragilidade moral ou financeira de indivíduos; ou criam situações fictícias – armações, ciladas ou “reality shows” – para explorar, com baixo custo – e nível – o desespero de uns, ou o anseio de outros pelos 15 minutos (às vezes um pouco mais) de fama – não importa se boa ou má – profetizados por Andy Warhol.
O curioso é que a maioria dos expectadores desse tipo de programa espera exatamente isso! Torcem para que ocorram deslizes morais e atos de violência. Parece haver um prazer mórbido em assistir à degradação humana… Tanto que quando isso não ocorre a reação é de frustração e, até, inconformismo! Nem os apresentadores a escondem! De quem é a culpa? Das pessoas que “aceitam” participar, dos “âncoras-malas” que os apresentam com ar de “credibilidade”, das equipes de produção, dos patrocinadores ou da direção das emissoras? Não! É apenas e tão somente de quem assiste!

Quem acompanha uma novela ou série sabe, teoricamente, que aquilo é ficção! Mas quem assiste programas sensacionalistas – principalmente os que falam de traições, dolos e “pegadinhas” de mau-gosto – acredita que esses “espetáculos” de mau-caráter ou ridículo dos outros são reais! Talvez pense que está imune e acima dessa condição… Mas, na verdade, só está exercitando o voyeurismo que, de certa forma, expressa desejos ocultos. Ao desejar que o pior aconteça, portanto, não está sendo melhor que os “protagonistas” da encenação. Na verdade, torna-se cúmplice travestido de juiz!

É… A sociedade de consumo também consome gente!

Além disso, é praticamente impossível acreditar na veracidade do que é mostrado, por uma razão bastante simples e prática: a forma como as pessoas são expostas e, no limite, agredidas é material mais do que suficiente para embasar processos por danos morais ou físicos, com indenizações vultosas, muito superiores a qualquer cachê ou doação pseudo-humanitária. Não faltariam advogados dispostos a prestar seus serviços para tanto. Tudo, portanto, sugere um provável embuste, baseado nos piores instintos humanos de quem produz ou consome. É sensacionalismo barato que se nutre da pobreza de espírito e a estimula a um custo moral exorbitante!

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