Silvio Santos no rádio

Publicado em: 01/05/2011

Silvio Santos no rádio (PaginaDoSilvioSantos.com)

Fernando Morgado

A extensa e variada carreira de Silvio Santos na televisão e no mundo dos negócios já foi alvo de diversos artigos na imprensa e na academia, mas, curiosamente, ainda é pouco repercutido o interessante caminho trilhado por ele no rádio, a mídia que o revelou e consagrou no Rio de Janeiro e em São Paulo.

Apesar de hoje cumprir apenas o papel de ouvinte — já tendo declarado diversas vezes que costuma acompanhar a Jovem Pan AM enquanto dirige seu carro rumo ao SBT —, Silvio ocupou tantos postos de trabalho no rádio quanto na TV: de locutor comercial a comunicador, chegando a ser proprietário de emissoras.

O início na Guanabara
Tudo começou quando ele ainda tinha catorze anos de idade e atraia multidões nas calçadas do centro do Rio de Janeiro com suas mágicas, vendendo carteiras para título de eleitor, canetas, anéis, bonecas e outros artigos. Vários guardas já haviam tentado capturá-lo, mas sua conversa fácil e voz inconfudível acabavam por impressionar os populares, que chegavam a se mobilizar para impedir que o jovem camelô fosse levado para a cadeia.

Impressionado com tanto poder de comunicação, o então diretor de fiscalização da Prefeitura, Renato Meira Lima, teve uma ideia: ao invés de apreender Silvio — que ainda era chamado por seu verdadeiro nome, Senor Abravanel —, resolveu indicá-lo para participar de um teste de locutores na Rádio Guanabara. Na época, a emissora pertencia a Jorge de Matos, dono do Café Globo, e, alguns anos mais tarde, passaria às mãos da Bandeirantes — rede a qual pertence até hoje.

Foram em torno de trezentos inscritos nesse concurso e, dentre eles, muitos nomes que se tornariam famosos, como Chico Anysio, José Vasconcelos, Celso Teixeira e Fernanda Montenegro. Silvio conquistou o primeiro lugar e assim iniciou sua trajetória artistica.

Apesar da satisfação pessoal, o agora radialista sentiu no bolso o preço por mudar de profissão: se na Guanabara ganhava 1.300 cruzeiros por mês, na rua ele conseguia tirar 960 mil réis por dia e em menos de uma hora (enquanto os guardas almoçavam). Resultado: apenas um mês depois de estrear ao microfone, Silvio voltaria a ser camelô, mas sem abandonar sua paixão pelo rádio.

Silvio Santos como ‘colega de trabalho’
Como vendedor, Silvio conseguia ter as tardes livres e aproveitava para participar da plateia dos programas mais famosos do dial. Um dos seus preferidos era o Trem da Alegria, transmitido pela recém-inaugurada Rádio Globo e comandado pelo chamado “trio de osso”: Yara Salles, Lamartine Babo e Heber de Boscoli. Na biografia A vida espetacular de Silvio Santos, escrita por Arlindo Silva (L. Oren, 1972), o ‘homem do Baú’ cita Heber como uma de suas maiores referências na comunicação, ao lado do ícone Cesar de Alencar:

Nesse tempo havia dois grandes ídolos no rádio: Cesar de Alencar e Heber de Boscoli […]. Eu gostava muito do Cesar de Alencar. Ele sempre foi um homem que eu admirava, porque quando eu chegava à escola — eu estava no ginásio naquele tempo — as moças, na 2ª feira, só falavam no Cesar de Alencar. Então eu tinha, assim, uma pontinha de ciúme do Cesar de Alencar, porque as meninas falavam muito nele e até pareciam apaixonadas por ele. Eu, então, comecei a ouvir o Cesar de Alencar na Rádio Nacional e realmente gostava do programa dele. Havia sábados em que eu ficava ouvindo o programa do Cesar do começo ao fim. […] Consegui assimilar os estilos do Cesar de Alencar e o de Heber de Boscoli, apesar de serem dois estilos diferentes, não imitando um ou outro, mas por ter visto como eles se comunicavam com o público. O Heber dizia: “Quem é que está com um sapato da Cedofeita no pé”? Aí, todo mundo respondia: “Eu, eu, eu”! — “Quem é que trouxe o talãozinho”? “Eu, eu eu”! Então aquele bate papo que o Heber de Boscoli tinha com o auditório é praticamente o bate papo que hoje eu tenho com o auditório e aquela maneira como Cesar de Alencar fala é, praticamente, a maneira como eu falo hoje. [sic]

Foi nesta fase como ‘macaco de auditório’ que nasceu o nome artístico Silvio Santos. Quando desejava ganhar um dinheiro extra, Senor aproveitava seu talento e inscrevia-se em algum concurso de locutores. Sempre ganhava. Com isso, seu nome ficou famoso no meio e as emissoras passaram a não aceitar mais a sua participação por já o considerarem um profissional. Para fugir desta restrição, o jovem encontrou uma rápida saída: quando o produtor do teste perguntou seu nome na hora da inscrição, respondeu: “Silvio” —  forma como sua mãe Rebeca já lhe chamava. Quanto ao sobrenome, a ideia veio imediatamente em seguida: “Santos, porque eles ajudam”.

A volta ao microfone
A vida como estudante, camelô e ouvinte permaneceu até os dezoito anos de idade, quando Silvio foi obrigado a cumprir o serviço militar, indo parar na Escola de Paraquedistas, em Deodoro. A nova vida no Exército o impedia de seguir como vendedor ambulante, afinal, caso fosse preso pela Polícia Militar, sua punição seria ainda mais severa. Com isso, voltou ao rádio através da Mauá, uma emissora que pertencia ao Ministério do Trabalho. A oportunidade foi conseguida pelo locutor Celso Teixeira e não envolvia nenhuma remuneração, mas esse já não era mais o problema: agora, seu desejo era realizar-se profissionalmente e trabalhar com aquilo que mais amava.

Na Rádio Mauá, Silvio participava como locutor comercial do programa de Silveira Lima, aos domingos — justamente seu dia de folga no Exército. Lima era um dos maiores sucessos do rádio carioca nas décadas de 1940 e 1950, mas nunca permanecia muito tempo na mesma emissora. Tanto que, mais tarde, viria a se transferir para a Rádio Tupi, então sediada na Av. Venezuela. Silvio Santos o acompanhou nesta mudança, que acabou por viabilizar, inclusive, a sua estreia na televisão, atuando como figurante de alguns programas do pioneiro canal 6 do Rio.

Visando melhorar seus ganhos, Silvio mudou para a Rádio Continental, em Niterói, onde permaneceu por pouco mais de um ano. Trabalhava entre 22h e meia-noite. Saiu de lá para montar nas barcas da Cantareira um serviço de auto-falantes que animava a viagem dos passageiros e gerava muitos negócios, principalmente através da venda de bebidas, que acabaram por transformar-lhe no cliente nº 1 da Companhia Antarctica.

A chegada a Rádio Nacional de São Paulo
Foi justamente a partir do convite de um diretor da Antarctica que Silvio Santos foi a São Paulo pela primeira vez. Ao comentar que faria esta viagem ao seu colega de Continental, Fernando Nóbrega, ouviu: “quando você for, procure meu irmão, o Manoel. Ele é mais conhecido do que moeda de quatrocentos réis!”. Fernando ainda chegou a fazer uma carta de recomendação que, segundo consta, nem precisou ser apresentada.

De fato, Manoel de Nóbrega era uma figura popularíssima: tratava-se da maior audiência do rádio paulistano, além de ser o deputado estadual mais votado. Silvio e Manoel viriam a se conhecer na Rádio Nacional de São Paulo, emissora de propriedade do radialista e empresário Victor Costa e que não possuía nenhum vínculo com a homônima carioca. Silvio havia feito um teste com Dermival Costa Lima, então diretor da emissora, e, como sempre, tinha sido aprovado e contratado imediatamente. Como o salário era atraente e ele havia conseguido uma pensão barata para morar, resolveu não voltar mais ao Rio de Janeiro.

Um dos seus primeiros programas na Nacional foi o Cadeira de Barbeiro, ao meio-dia, que era repleto de humor e críticas políticas. Manoel, responsável pela atração, fez questão que Silvio Santos assumisse a apresentação ao ver seu desempenho no comando dos shows da Caravana do Peru que Fala. Além disso, Silvio tornou-se o locutor comercial da Praça da Alegria, também de Manoel de Nobrega.

No começo dos anos 1960, estreou no rádio a gincana Vamos Brincar de Forca, sob o patrocínio das Casas Econômicas de Calçados —  do deputado Carlos Kherlakian —  e das Camisas Lauton. Mais tarde, este programa ganharia uma versão para a TV Paulista e passaria a ser considerada como a primeira atração do Programa Silvio Santos.

Silvio Santos: comunicador-amigo
A popularização da televisão forçou transformações no meio rádio, que teve de deixar os auditórios para concentrar-se numa relação mais íntima entre os comunicadores e seus amigos ouvintes. Esta transformação se deu quase que no mesmo período em que as Organizações Victor Costa — proprietária tanto da Rádio Nacional quanto da TV Paulista — foram compradas pelas Organizações Globo.

Se o canal 5 paulistano adaptou-se ao modelo da carioca TV Globo, o mesmo pode se dizer sobre a Rádio Nacional, que foi sendo alinhada com o estilo muito bem-sucedido da Rádio Globo do Rio de Janeiro, que havia assumido a liderança de audiência em 1965 ao valorizar o carisma pessoal dos seus comunicadores.

Nessa nova fase, Silvio Santos assumiu as manhãs dos 1100 AM paulistanos com um programa diário, ao vivo, que levava seu nome. Na Rua das Palmeiras — onde a sede paulistana do Sistema Globo de Rádio permance até hoje — era comum ver o apresentador dividindo-se no acompanhamento das suas produções no rádio e na TV.

O objetivo era transportar o clima do auditório dominical para o radinho das donas-de-casa — público principal da emissora neste horário. Para isso, muitas vinhetas cantadas e aplausos eram inseridos para dar um tom festivo ao programa. Nesta fase, Lucimara Parisi era produtora da atração, interpretava a fofoqueira Candinha e ainda participava do quadro Justiceiro Invencível — em que o justiceiro, claro, era Silvio Santos.

Silvio permanceu na Rádio Nacional de São Paulo até 1976, chegando a participar da fase de transição pela qual passou a emissora passou até adotar o nome Rádio Globo — que viria a acontecer em definitivo no ano de 1979.

Rádio Record: sua última emissora de rádio
Depois de comprar 50% das ações da Rádio e Televisão Record, o apresentador e empresário transferiu para lá todos os seus programas e isso logo pode ser ouvido, inclusive, nas vinhetas de identificação da rede: “Rádio Record Sociedade Anônima São Paulo. ZYK 522; onda média 1000 kHz. Especialista em Brasil. Emissora do Grupo Silvio Santos e do Grupo Paulo Machado de Carvalho”.

Silvio realizou muitos investimentos visando reposicionar a Record AM dentro do segmento popular e ainda conquistar a audiência do interior brasileiro — principalmente através do tradicional programa de Zé Béttio. Sobre esta nova fase, Maria Celeste Mira, em seu livro Circo eletrônico: Silvio Santos e o SBT (ed. Loyola; Olho D’água), fala das novidades tanto na atração radiofônica comandada pelo ‘patrão’ quanto no resto da grade:

A estrutura de seu programa foi modificada. Segundo Ademar Dutra, que o dirigia na época, os quadros radiofonizados que vinham realizando morreram com o elenco da Rádio Globo. Em lugar deles, passaram a ser feitos alguns quadros consagrados na televisão, como “Qual é a Música?” ou “Quem Sabe Mais, o Homem ou a Mulher?”, usando “todo aquele impacto da televisão no rádio”. De maior importância, porém, são as contratações de Gil Gomes, e dos disc-jóqueis Barros de Alencar e Ely [sic] Correa, de enorme popularidade no rádio. Com os dois últimos, a Record AM passava a cobrir também o gênero de maior audiência no meio entre todas as classes sociais, o de música popular. Para reforçar o gênero policial, entraria ainda Jacinto Figueira Jr., “O Homem do Sapato Branco”.

A carreira de Silvio Santos como comunicador no rádio chegou ao fim ao mesmo tempo em que começava a implantar o SBT. Silvio permaneceu como um dos acionistas da Record até 1989, quando a rede foi vendida para Edir Macedo. Nesta época, além da AM, o animador também era sócio da FM Record, 89,7 de São Paulo — lançada em 1977. No início dos anos 1980, o Grupo Silvio Santos chegou a constituir uma empresa chamada SBR — Sistema Brasileiro de Rádio S/C Ltda. visando novos investimentos nesta mídia.

Como se vê, a trajetória de Silvio Santos no rádio foi tão profícua quanto a na televisão. No dial, o ‘homem do Baú’ também consagrou-se como líder de audiência e estendia para as manhãs dos dias de semana a alegria que contagiava suas ‘colegas de trabalho’ nas tardes de domingo.

Áudio: trecho do Programa Silvio Santos na manhã de 18 de junho de 1976, na Rádio Nacional (Globo) de São Paulo. Disponível no site da Rádio Globo.

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