Sistemas e sua autocura IV

Publicado em: 20/07/2013

Estamos abordando em artigos sequenciais muitas deturpações dos sistemas, onde podemos incluir o prisional e as barbaridades que somos chamados a testemunhar, achando que o governo tem solução. Não tem.

Lá nos presídios também tem, como aqui fora, onde nos prendemos dentro de casa, a inundação de máquinas, de um lado, e a promoção de animais à condição próxima do ser humano, como fiéis companheiros de pessoas, dormindo na mesma cama e, pasmem, mantendo relações íntimas.

É o que fazemos como analistas e não críticos, Temos certeza de que isso terá consequências, como já ocorre com o excesso de automóveis andando pelas ruas, cada um com uma, no máximo duas pessoas a bordo.

No caso de algumas maquininhas, a cena resultante chega a ser cômica, se não fosse preocupante. As crianças, ao invés de se relacionarem e brincarem umas com as outras, passam a interagir umas com as outras através de seus tablets e smartphones (dados por pais que não param para avaliar se os filhos já têm idade para serem expostos ao mundo digital desta forma), mandando mensagens (ao invés de conversarem ao vivo e a cores) entre si, jogando online (ao invés de brincarem umas com as outras).

Com os adolescentes, a cena não é muito diferente, onde numa mesma mesa pode-se ver a interação sendo feita através dos mesmos smartphones e tablets, com o envio de mensagens de um para o outro (ao invés de tentar simplesmente conversar), ou através das atualizações de suas respectivas atividades no “Face” (diminutivo de Facebook, porque dá muito trabalho falar ou escrever Facebook, segundo estes adolescentes cuja marca registrada é um imenso e constante cansaço).

Estão, inclusive, cansados de serem roubados nas saídas dos colégios, presas fáceis dos larápios, pois trazem os aparelhinhos à mão, é só agarrar e sair correndo até encontrar o primeiro receptador e trocar por drogas.

As delegacias de polícia começaram lotadas de queixas por assalto e roubo desses equipamentos, mas, como os ladrões são soltos novamente, as pessoas nem mais querem registrar o B.O., não adianta. Em cinco segundos um menor marginal, sem nenhum esforço sai correndo com um bem que vale mais de 1 mil reais a fazer festa dos receptadores por qualquer 50 pilas.

A este panorama de pessoas altamente conectadas com tudo e todos à sua volta e, por si só, bastante para desencadear a ansiedade e o aparecimento de neuroses diversas nesta sociedade global do século 21, adicione-se o surgimento de uma sociedade onde nunca se viu um contingente tão grande de solitários e de laços afetivos tão fluidos e instáveis, a era do chamado “amor líquido”.

Uma era onde é mais fácil deletar, do que tentar resolver obstáculos e conflitos dentro dos relacionamentos, onde todos estão ligados a todo mundo, mas poucos conseguem estabelecer relações estáveis e saudáveis, seja do ponto-de-vista afetivo ou sexual.

Estas constatações, consolidadas pelas minhas observações do quotidiano das pessoas por aí, são reforçadas por uma pesquisa feita por duas universidades alemãs e publicada recentemente pela Agência Reuters, que mostra o Facebook como capaz de provocar infelicidade e solidão. Segundo os pesquisadores da Universidade Humboldt, de Berlim, uma em cada três pessoas tiveram experiências negativas com a rede social e sentem-se solitários, frustrados ou com raiva.

Isso me leva a refletir que, neste novo mundo de relações digitais e fluidas se está criando uma nova geração, onde os relacionamentos virtuais, diferente dos relacionamentos reais; pesados, lentos e confusos, são muito mais fáceis de entrar e sair; eles parecem inteligentes e limpos, fáceis de usar, compreender e manusear.

Quando o interesse acaba, ou a situação chega a determinado ponto que exige pelo menos elaboração, sempre se pode apertar a tecla “delete”. Não sem consequências psíquicas ou com tanta leveza quanto se aparenta, já que a modernidade não chega com esta velocidade ao psiquismo.

O que vemos, é cada vez mais casos de pacientes com discursos fragmentados, ocorrências de dissociação de personalidade (um resultado nítido das alter personalidades tão usuais no mundo digital), quadros de carência afetiva aguda e comportamentos compulsivos diversos (muito provavelmente originados no abandono gerado pelos pais pós-modernos), além de transtornos de ansiedade e depressão, nos mais diversos níveis.

Um mundo onde as pessoas não só estão mais sozinhas, como estão sozinhas e deprimidas, ansiosas (todas buscando aceitação, acolhimento, conexões afetivas e amor) e compulsivas e, paradoxalmente, conectadas com o mundo. Ou seja, ao contrário do ditado, não basta estar sozinho, mas sozinho apesar de acompanhado.

Até as reuniões destinadas a encaminhar e resolver problemas comunitários estão esvaziadas em virtude da doença da solidão que toma conta das pessoas, infelizmente. Quantos condôminos vão às assembleias de seu condomínio. Você vai? Você vai às audiências públicas que acontecem para encontrar solução a tantos problemas coletivos?
Você liga pra tevê cobrando o fim desses programas que só mostram sangue derramado e dinheiro roubado? Pois é, meu leitor. Entramos em eclipse. Sairemos dessa? O que você acha?

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