Sistemas e sua autocura V

Publicado em: 26/07/2013

Houve um tempo em que as pessoas também eram solitárias, mas estavam em plena integração com o meio na qualidade de pastores de animais e de agricultores.

Não havia telefone, tevê, computador e as rádios eram raras; mais raros ainda eram os receptores, enormes, pesados, a válvulas, movidos a baterias do tamanho das usadas hoje por carros.Para renovar a carga eram levadas até o moinho da aldeia onde um dínamo era conectado a elas para repor a carga.   Não se aborreça, leitor, esse tempo tem menos de 75 anos.
A diversão, rara, era marcada por fins de semana, não todos, claro, em que pequenas festas chamadas popularmente de surpresas (pequenos bailes com comes e bebes), nada mais que a comemoração de aniversários de pessoas da comunidade. Fora isso, tinha também, pequenas reuniões familiares chamadas de serões, ou filós, em que se reuniam duas ou três famílias para falar de muitas coisas e até cantar e comer.

Havia solidão, sim, mas muito bem compensada. Veja: no aniversário de alguém, os amigos se combinavam e batiam lá, de surpresa, e já iam matando galinhas que, minutos depois estavam na panela ou no forno para serem consumidas com arroz, polenta, batata, vinho e alguma música ao vivo, que se transformava em baile. Tudo ao natural.

Quem viveu esse tempo sabe que até as paredes da casa eram arrancadas, despregadas, para que o salão ficasse maior e o baile pudesse pegar fogo. Nada de microfone, alto-falante, tudo como hoje se diz, no acústico.

Havia solidão, sim, mas muito bem compensada pelos já referidos serões ou filós, onde os vários membros de duas ou mais famílias se sentavam na sala ou na varanda, dependendo do clima e, entre o som de algum violão ou gaita, mas nem sempre com música, iam surgindo causos, poemas e canções, com a participação de todos.

As pessoas se olhavam nos olhos, falavam com clareza audível, vibravam umas com as outras, discutiam e brigavam também, mas não havia crime, vingança, estupidez, crueldade, ladroeira. Não havia droga nem beijo na boca em público. O padre rezava a missa de costas para o público, em latim. Dominus vobisco!

Esse tempo foi sendo engolido pela chegada dos tratores, da energia elétrica, dos telefones de manivela e mais tarde de disco, pelos rádios transistores movidos a pilha descartáveis e bem mais tarde pelas tevês, através de antenas repetidoras e só mais tarde pelas antenas parabólicas.

Para se falar por telefone de uma cidadezinha do interior com a capital, usava-se o serviço da telefonista, encomendava a ligação pela manhã e talvez à tarde fosse possível falar, com dificuldade de nitidez.

Hoje, através de um aparelhinho com 100 gramas de peso e do tamanho pouco maior que uma caixa de fósforos (lá no passado também não tinha fósforo, eram os isqueiros acionados com pedra de faísca), qualquer criança aciona interlocutores ao redor do mundo.

Mas, em compensação estamos cada dia mais sós, procurando a companhia dos animais. Onde isso vai dar?

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