Sobre castrações!

Publicado em: 12/06/2014

Quando o Sultão, cão policial comedor de polenta e osso sumiu chorei. Adultos estranharam a tristeza (a mãe foi solidária), afinal era só um bicho. Onde nasci – tirante gato, cachorro, cavalo e feras – bicho era para comer, sem força de expressão e isso levou a certa frieza com eles. Frito, defumado, tostado, cozido, assado, bem ou mal passado, seco ao sol, ensopado, com pão, arroz, feijão ou massa, enfiado numa tripa, o jeito mão importava. Lembro que só crianças choravam os bichos e, mais tarde, muitos não confirmariam Benjamim Franklin: “o menino que sofre e se indigna diante dos maus tratos infligidos aos animais, será bom e generoso com os homens”.

Era cultura pragmática: tudo que, dotado de penas, tivesse parentesco com peru, galinha, pato, faisão, perdiz, perdigão e voasse levava bodocaço ou chumbo e parava na panela. Idêntico destino tinham tatu, quati (cotia. não lembro), rã, lebre, lebrão, tateto, javali, veado, peixe, porco, vaca, coelho, porco do mato, ovelha, cobra, ratão do banhado e outros que não recordo. Um dia perguntei ao primo Claudino: a gente come jacaré? Se tiver por perto, disse. E corvo?, indaguei. Isso já é exagero, respondeu.

A dureza da vida cotidiana na roça mostrou cedo qual nossa posição na cadeia alimentar: o maior (ou mais forte?) engole o menor (ou mais fraco?). Comer ou morrer, eis a questão! Claríssimo para todos que enfrentavam a muque a natureza impiedosa que, numa bobeira, qualquer, os engoliria. O que desejo dizer com isso? Simples: bicho sempre fez parte da minha vida, dentro ou fora da panela.

Sobre o Sultão, às vezes precisava a mãe lembrar (mãe raramente esquece algo): “já deu comida para o cachorro hoje?” Quando esquecia abria a janela e berrava: Sultão, e de lá jogava nacos de polenta que ele não deixava cair no pó, engolia fácil. Claro, na época cachorro não entrava em casa! Lugar de bicho é lá fora, dizia a mãe, a avó, o pai, o avô, os tios, a vizinha. Apesar de senões creio que cuidei bem do Sultão, mas tive desavenças com gatos, com o que, talvez, não me incluam na visão de Immanuel Kant: “Podemos julgar o coração de um homem pela forma como ele trata os animais”.

No terceiro milênio estamos mudando a forma de encarar os bichos não porque evoluímos, mas por tirar do baú ensinamentos aos quais as gerações passadas deram pouca importância. Como, por exemplo, os de Anatole France: “Antes de ter amado um animal, parte da nossa alma permanece desacordada”. Ou de Alexander Solzhenitsyn: “Hoje em dia não pensamos no amor de um homem por um animal; rimos de pessoas que são apegadas a gatos. Mas se pararmos de amar aos animais, não estaremos na iminência de pararmos de amar os humanos, também?” Ou, ainda, a expressão aguda de Mahatma Gandhi: “A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados”. Charles Darwin foi alvo: “Não há diferença fundamental entre o Homem e os animais nas suas faculdades mentais (…). Os animais, como o Homem, demonstram sentir prazer, dor, felicidade e sofrimento”.

Bem, toda a conversa é para indagar se o terceiro milênio ainda não se posta de forma contraditória sobre os bichos. De um lado nos conscientiza sobre uma relação que deve transcender a panela e, de outro, estimula a castração em massa, especialmente de gatos e cachorros, para estabelecer a convivência com eles na área urbana e, mais do que isso, a vida do bicho dentro de casa. Sabemos o que é castrar? Com a castração o gato não deixa de ser gato, o cachorro não deixa de ser cachorro? A castração não seria a instituição do “não-bicho”. Se Darwin estiver certo a castração não significa dar fim lacônico ao bicho e coloca-lo num processo infindável de tortura?

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