Sobre lobos e ovelhas

Publicado em: 08/09/2014

As indulgências podem ser “adquiridas” como forma de pagamento de uma dívida material devida por um pecado já perdoado pelo reconhecimento da culpa.

Encontrei uma explicação mais “didática”, que compara a vida a uma tábua cheia de pregos, cada um representando um pecado: o perdão os remove, mas ficam os “buracos”, que precisam ser tapados por “boas obras”.

Uma interpretação torta do sentido da indulgência foi bastante usada na Idade Média, quando alguns religiosos estabeleceram um verdadeiro comércio de perdão de pecados.

De certa forma, isso não foi novidade, pois outras religiões, desde a Antiguidade, já tinham práticas semelhantes, que incluíam, além de “doações” pecuniárias, sacrifícios de animais, ambos proporcionais ao “tamanho” do pecado. Assim, os ricos sempre estiveram mais “perdoados”, explícita e oficialmente pagando por seus pecados.

Esperteza de ambos os lados.

A “justiça dos homens” também não faz muito melhor, com algumas exceções. Assim, juízes legais e “espirituais” ainda punem inocentes e perdoam culpados renitentes.

Ainda há muita gente que paga pelo “perdão” e outros tantos cobrando por ele.

A indulgência, na doutrina religiosa, seria reparar um dano material cometido, precedido pelo arrependimento sincero. Porém, antes como agora, as “indulgências” são cobradas e pagas muitas vezes se aproveitando da indigência moral de indivíduos.
Embora quem faça uso desse expediente jamais o reconheça, ele virou uma solução oportunista para os que cometem atos ilícitos por necessidade ou opção, mas se “incomodam” com isso – ou não –, buscando “perdão” para apaziguar sua consciência.

Como muitos não pretendem mudar de atitude, ficam pagando pelo “perdão” em prestações, maquiando sua imagem para os outros, ou fantasiando-a para si próprio. Ademais, alguns pregam que a riqueza é uma benção proporcional à nobreza espiritual, e que a prosperidade é como um fundo de investimento no qual, quanto mais você paga, mais você recebe. Uai? Então a pobreza material é uma “punição divina”?

O fato é que o “mercado das indulgências”, em espécie ou cartão de débito, continua próspero: um grande negócio que abre novas “franquias” e “filiais”, que oferecem “perdão” e sucesso proporcional ao valor aplicado. “Mercado” que cobra e aceita de tudo, inclusive propinas – corrupção em nome de um “bem maior” – e dinheiro de quem mal consegue se sustentar, mas que, num momento de desespero ou fraqueza moral, acredita em lobos com pele de cordeiro.

Lobos com isenção de impostos; que “estudam” para tosquiar ovelhas; que ameaçam e amaldiçoam quem questiona sua “unção divina”, quando suas práticas e verdadeiras intenções são denunciadas; que vivem do desespero, oportunismo ou hipocrisia dos que os seguem; que fazem acreditar que a riqueza material que esbanjam é uma benção que comprova sua ascendência sobre os demais; que disseminam o preconceito e a divisão entre os seres humanos; que fazem qualquer coisa para manter seu poder e lucro, independentemente do mal que fazem até ao seu próprio “rebanho”.

É certo que não se pode julgar um ideal pelos que falam em nome dele ou se arvoram seus únicos representantes. Na religião, qualquer que seja a denominação, como na política, não importa o partido, ou em qualquer área do relacionamento humano há pessoas de boa ou má índole. E o poder é extremamente sedutor e nas mãos erradas pode causar danos irreparáveis!

E esse mal não fica restrito apenas ao dano material. A doutrinação e alienação que os mal intencionados ou despreparados promovem destroem famílias, limitam o discernimento e induzem ao fanatismo, o que não tem absolutamente nada de divino!
Isso sem falar que esses falsos profetas não seguem o que pregam, mas impõem regras para tudo: comer, fazer, vestir, ler, ouvir, pensar…

Mas, se descumprir alguma não tem problema: as “indulgências” estão aí para isso!

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