Sons orgânicos!

Publicado em: 04/11/2012

 Já disseram que a voz humana é o instrumento musical mais perfeito! Também é o mais antigo e, provavelmente, as primeiras melodias entoadas pelos ancestrais do ser humano tenham sido imitações de sons da natureza. Não deve ter demorado muito para a associarem a rituais religiosos ou, simplesmente, ao puro êxtase de “lavar a alma”, espantando os males em comemorações divinamente mundanas. Os instrumentos musicais passaram a acompanhá-la, em princípio, apenas com acordes introdutórios. Aedos, bardos, menestréis, trovadores e outros artistas cantavam histórias desde a Antiguidade, e quanto mais belo o seu canto, permeado pelo lirismo e pela ironia, mais se tornavam famosos e celebrados.

A diversidade e o potencial da voz a dividiu, posteriormente, em naipes: barítono, tenor, contralto, soprano… O fascínio por ela também gerou absurdos, dentre os quais, a aberração dos castrati talvez seja a mais emblemática.

O canto gregoriano, monofônico e monódico, e os corais polifônicos deram ar divino e épico à voz humana, ao ponto de afirmarem que quem canta ora duas vezes. Mas foi o advento dos grandes solistas, cujos limites passaram a ser cada vez mais testados pelos grandes autores, que a voz humana atingiu seu ápice. Enrico Caruso, Maria Callas e Luciano Pavarotti são conhecidos porque há registros artificiais de suas vozes. No entanto, quantos outros podem ter sido ainda maiores, antes deles?

E todos precisavam “ter voz”, para depois treiná-la e aprimorá-la, com muito estudo e dedicação, além do dom!

Isso não impedia, como não impede, que grandes vozes nos encantem no canto popular. E não precisam ser potentes! Chico Buarque tem uma voz “pequena”, mas ninguém interpreta suas músicas melhor do que ele! Elizeth Cardoso nunca precisou gritar ou quebrar copos de cristal para nos maravilhar com sua voz. Já os falecidos Jessé, Minnie Riperton e Withney Houston conseguiam alcançar notas altíssimas, mas chegavam a irritar, com essa constância.

Outro dia, numa conversa virtual com o Antunes Severo, lembramos de alguns grupos vocais: Tamba Trio, Quarteto em Cy, MPB4, Boca Livre, Os Três do Rio, Os Cariocas… Alguns deles nem precisavam de acompanhamento instrumental, pois suas vozes já eram mais do que suficientes para preencher todos os espaços.

Cantar “à capela”… Talvez esse seja o ápice da voz humana!

Alguns desses grupos até imitam os instrumentos que acompanhavam o canto!

Sozinho, Al Jarreau também faz isso. E quantos não fazem o mesmo, capazes de imitar instrumentos musicais com perfeição, sem necessidade dos anos de estudo e horas de exercícios dos musicistas?

A voz humana pode ser divina, dependendo de como o ar passa pelas cordas vocais, e do repertório de quem a usa. Pode dar um “dó de peito” ou dar dó, saindo do chuveiro para o vaso sanitário…

Ainda na conversa com Antunes, surgiu a lembrança do “Swingle Singers”, grupo vocal criado nos anos de 1960, no qual vozes masculinas e femininas brincam com melodias de todos os tipos, mesclando qualidade musical com bom humor performático. Ouvi a formação inicial do grupo quando tinha uns oito anos e o estilo “ba-dá, ba-dá” nunca mais saiu de minha mente, como o “laiá-raiá” que sempre nos salva das letras esquecidas.

Fruto desse bate-papo “internético”, fui dar um passeio no YouTube para, depois de ouvir e ver, pela enésima vez, sua impagável versão da “Abertura 1812”, de Tchaikovsky (acessem: http://www.youtube.com/watch?v=8lZ5Yez0Hec), encontrar outro grupo, que também achei ótimo: “The Vocal People” (http://www.youtube.com/watch?v=eRpQGXC_no0&feature=fvwrel), que canta e faz, vocalmente, o instrumental de várias músicas. Depois, foi a vez do fantástico “Barbatuques” (http://www.youtube.com/watch?v=_E0EJLRkysM), cujos integrantes usam o corpo como instrumento musical!

Tudo muito diferente dos “tchum-tchurum-tchum-tchum”, “tchum-cum-tchác” e outras onomatopeias entoadas por certos “cantores”, que insistem em transformar nossos ouvidos em pinicos, com as bênçãos de mídias que querem converter “popular” em sinônimo de má qualidade.

A voz humana, quando bem usada, é maravilhosa, eclética, emocionante e grandiosa, mesmo quando singela.

É ela, som dos sons, que nos torna ouvintes: encantados e caros ouvintes!

Adilson Luiz Gonçalves | Membro da Academia Santista de Letras | Mestre em Educação | Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor | Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento) | Caso queira receber gratuitamente os livros digitais: Sobre Almas e Pilhas, Dest’Arte e Claras Visões, basta solicitar pelos e-mails: [email protected] e [email protected] | Conheça as músicas do autor em:  br.youtube.com/adilson59(13) 97723538 | Santos – SP

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