Sou grato pela homenagem, afinal são 50 anos abraçando as causas da sociedade

Publicado em: 05/09/2015

Amigos, estou em Chapecó no Encontro Estadual de Jornalismo, onde, neste sábado, recebi homenagem pelos 50 anos de profissão.

 Sim, comecei cedo, no Correio do Estreito, onde passei a receber uns trocados para ajudar a família e sustentar meus estudos de adolescente.

Laudelino J SardáVivi as transformações do mundo que, quando eu nascia, encerrava um ciclo de guerras mundiais. Mas logo vivenciei os efeitos da guerra ideológica, que mudou nossos comportamentos, motivou a riqueza musical e do teatro. Os movimentos da contracultura dos anos 1960 significaram os protestos das gerações contra padrões sociais. Joplin, Hendrix, Tom Zé, Caetano, Chico, Geraldo Vandré e tantos outros que nos ajudaram a sentir e refletir a sociedade mergulhada na hipocrisia. Não foi à toa que Hemingway não concordava em chamar as gerações pós-guerra de perdidas.

Vivemos uma época de fartura musical, de artes plásticas valorizando tendências e escolas, o teatro dramatizando a vida e as contradições. Em 1965, realiza-se no teatro Álvaro de Carvalho um festival que escolheu a canção da Ilha. Zininho sai vitorioso com a música “Rancho do Amor à Ilha”, magnificamente interpretada por Neide Maria Rosa. Até a nossa Ilha cantava e poetizava.

A ditadura amordaça a cultura. O educador Paulo Freire vai para a Suíça, onde, em 1980, me concede a sua última entrevista no exterior antes de voltar do exílio. E ele afirma: “O povo brasileiro é autoritário por natureza”. Sim! As leis são fracas perante o homem autoritário.

Entre as dezenas de grandes reportagens, destaco uma. Certa vez desci em um garimpo de ouro na Amazônia. A matéria do contrabando foi pequena, mas outra mereceu uma página: uma menina de 17 anos estava na prostituição do garimpo havia três anos. Ela me contou o drama de precisar todas as noites ir para a cama com mais de 10 homens que nunca se banhavam, a não ser nas águas barrentas do garimpo. Vocês acham que jornalista não chora? Pois eu escrevi esta matéria com as lágrimas pingando sobre o papel da máquina Olivetti.

Nos últimos 15 anos eu fui, como todos vocês, impactado pela revolução tecnológica. A instantaneidade da informação e a presença de usuários flagrando fatos mudaram o dia-a-dia do jornalista. Antes, precisávamos ir às fontes e olhar tête-à-tête o entrevistado. Preocupávamo-nos com a reportagem completa que ensejasse a reflexão. O mal do jornalismo hoje é que se viciou na velocidade de dados e informação e se não mudar vai ter de dividir seu diploma com o usuário da internet. O furo de reportagem acabou e as novas e velhas gerações exigem que o jornalismo exerça a criatividade e a reflexão. Dados e informações pertencem a um grande universo de democracia da comunicação. Nós jornalistas precisamos ir além: exercer a crítica abraçando as causas da sociedade. Não existe jornalismo imparcial, pois está justamente na parcialidade o nosso papel de defender a sociedade.

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