TÁ FALTANDO UM FOGUINHO AQUI

Publicado em: 26/09/2006

1. “Sei, que me amas
com tanto fervor.
Há, em teus lábios
Mil frases de amor.
Entretanto,
eu preciso ouvir a voz
da razão.
Para saber
se direi, sim ou não.
És, para mim
Precioso troféu.
Vejo em ti
Pedacinhos do Céu.
Porém preciso refletir
mais um pouquinho
para não desiludir
meu dolorido coração.
Que ainda sente a emoção,
de uma ingratidão.”
Por Elóy Simões.

2. Ficou revoltado quando soube dos resultados da eleição e viu que não tinha sido reeleito.
“Fui traído, fui traído!”, gritou.
Tinha certeza de ter, como vereador, feito um grande trabalho. Verdade que não apresentara um só projeto.
Feito um único pronunciamento. E faltado a tantas seções que se tornara o vereador mais faltoso.  “Eu não tinha tempo, precisava cuidar das minhas coisas”, justificava quando alguém o cobrava. “Você tem de entender meu problema.” E porque achava que todo mundo entendia, esperava ganhar fácil.
“Povo ingrato”, bradou. “Vocês vão ver comigo.”
Saiu dali, foi à Prefeitura. Entrou no prédio, dirigiu-se para o primeiro andar. O gabinete do Prefeito estava vazio. Juntou um punhado de documentos, fez um monte, tacou fogo e saiu.
No caminho, passou pelo local onde os funcionários trabalhavam. Avisou: “Se eu fosse vocês, saia daqui porque fiz um foguinho aí em cima.”
O incêndio destruiu o prédio da Prefeitura.
3. Desconfio que existe, por parte  do rádio, um forte preconceito contra o chorinho, e não é só neste Estado.
Como sou apaixonado por esse meio, entro no carro e a primeira coisa que faço é ligar o aparelho e corujar.
Procuro ouvir emissoras de todas as cidades por onde passo. Encontro programas religiosos em número cada vez maior; programas onde o locutor ou locutora fala com o ou a ouvinte via telefone, coisa que começou na década de 50, na Rádio Bandeirantes, com o Telefone Pedindo Bis do Enzo de Almeida Passos;
programas de música regional (rancheiras, modas de viola, xotes etc); mas posso contar nos dedos as vezes que consegui ouvir um chorinho, embora ele tenha composições maravilhosas como esse Pedacinho do Céu, do Valdir Azevedo, cantado em gravação pela primeira vez por Ademilde Fonseca, cuja letra reproduzi, em parte no início desta prosa.
4. Isso é coisa de antigamente, dizem-me de vez em quando.
Papo furado: parece, para alguns, música antiga, porque a televisão se encarrega de disseminar esse pensamento, ao associar o choro com imagens de outros tempos.
5. Na verdade, o chorinho, o mais autêntico gênero musical brasileiro, é também o mais moderno. E o mais sofisticado. Tocar e cantar esse tipo de música não é para qualquer um.
6. Dizem, também, que só gente velha gosta de chorinho.
Aos que pensam assim, lembro que um número crescente de garotos, apaixonados por ele, forma conjuntos especializados, por este Brasil afora. Cito, como exemplo, o Água na Moringa, o Nó em Pinto Dágua, e Brasília, onde a divulgação do choro que lá se faz, gera um número crescente de grupos especializado, onde gente de toda idade toca.
Nenhuma surpresa: sempre acontece com o chorinho – é ouvir e gostar.
7. O pessoal que faz rádio precisa levar a sério esse fenômeno e fazer como aquele ex-vereador: um foguinho.
Ou melhor, um chorinho.


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