Teatro em casa

Publicado em: 12/04/2005

Os primeiros passos da arte de interpretação nas ondas radiofônicas foram dados pela emissora de Roquette Pinto, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (PRA-2).
Por Ricardo MedeirosSegundo relatos do jornalista e escritor Reynaldo Tavares (1997), para a elite urbana a PRA-2 levava ao ar peças de teatro da mesma forma em que eram apresentadas nas casas teatrais, sem que essas produções fossem adaptadas para o meio em questão : o rádio. Era literalmente o teatro sendo transportado para o rádio, onde os intérpretes liam ao microfone os textos que não recebiam o apoio de músicas, sons e efeitos. O teatro no rádio, sem nenhum tratamento especial, variava de um a três atos, conforme o acordado entre a direção da emissora e a equipe de produção. Um outro detalhe a ressaltar é que os atores e atrizes deveriam ser bons de leitura, pois os scripts e escalação de personagens eram distribuídos apenas minutos antes do início da peça entrar no ar.

Depois de Roquette Pinto uma das pessoas que apostou na interpretação de textos pelo rádio foi Ademar Casé, quando o território nacional contava com 54 emissoras no ano de 1936. Neste período, conforme Antônio Pedro Tota (2000), a audiência radiofônica começava lentamente a crescer, motivada fundamentalmente pelo barateamento do custo do receptor de rádio. A produção de aparelhos, a preços relativamente acessíveis, permitia o início de uma mudança no cenário brasileiro : « já não era impossível comprar um rádio : um aparelho custava em torno de 80$000 (oitenta mil réis) e o salário médio de uma família de trabalhadores não ficava longe de 500$000 (quinhentos mil réis) por mês » .

Ademar Casé criou na segunda metade da década de 1930, na Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, o Programa Casé, onde havia a sessão de radioteatro chamada Espaço da Ribalta. A idéia do radialista não era de fazer teatro no rádio simplesmente, mas trazer para este meio de massa textos que seriam adaptados e lapidados para a estação radiofônica, com o acréscimo de contra-regragem e sonoplastia. Casé colocou no ar um trabalho mais bem elaborado, seja com texto oriundo do teatro propriamente dito ou tendo como fontes de inspiração livros ou a vida real. Desta forma, o radialista canalizou para este veículo uma das modalidades de radioteatro : a peça completa ou programa de fim.

O Programa Casé estrea o seu radioteatro com Os Miseráveis, do escritor e dramaturgo francês Victor Hugo, e seguiu as encenações com textos como O Conde de Monte Cristo, Quo Vadis, Talita, A Moreninha e O Morro dos Ventos Uivantes.

Depois de Ribalta do Espaço duas outras sessões foram ainda criadas para o Programa do Casé, sendo uma delas Romances Imortais, com interpretações de biografias de personagens ilustres e de romances da literatura. Além disso havia o Teatro Sherlock Holmes, com Alziro Zarur fazendo o papel principal da obra policialesca de Sir Connan Doyle. Com este trabalho Casé oferecia à população a segunda modalidade do radioteatro, o seriado de aventuras. Tratava-se de uma encenação dividida em episódio diário ou semanal, que podia ser seguida e compreendida pelo ouvinte sem a necessidade do público ter assistido a emissão anterior da série. No seriado havia sempre um personagem central ou um grupo de pessoas que formavam a base do radiodrama.

O Teatro Sherlock Holmes, após alguns meses no dial da Mayrink Veiga, passou por problemas. Os textos adaptados do investigador inglês , e de seu assistente, o Dr Watson, chegaram ao fim. Para preencher a lacuna, Ademar Casé incumbiu o escritor Anibal Costa para criar histórias misteriossas envolvendo um detetive no estilo brasileiro. Foi assim que surgiu Teatro Policial, cujo o protagonista continuava a ser Alziro Zarur, agora com o nome de Roberto Ricardo. O detetive durante muito tempo esteve com muito trabalho para elucidar casos, a exemplo de O Assassinato da Bailarina, Onde Estava o veneno?, As Vendedoras Desaparecidas e O Assassinato da Condessa. O próprio Roberto Ricardo, ou melhor Alziro Zarur, definia para a Revista Carioca o personagem principal do Teatro Policial : « (…) Roberto Ricardo foi o tipo do detetive brasileiro que veio enriquecer a nossa paupérrima literatura policial, em excelente criação de Aníbal Costa. Ele é diferente. Se caracteriza pela simpatia à polícia brasileira…Isso, é claro, transmitte ao público uma confiança maior na organização policial brasileir. O objetivo do autor, ao traçar seus enredos, era mostrar que não existe crime perfeito e acentuar que o criminoso sempre vai ser punido. E que a nenhum homem é dado o direito de tirar a vida de um semelhante ». 

O sucesso foi tão grande do Teatro Policial que o personagem central e criador, Alziro Zarur e Anibal Costa, receberam uma proposta irrecusável de uma outra emissora, transferindo-se para Rádio Guanabara. Com um novo impasse em mãos, Ademar Casé decidiu por interpretar fatos do cotidiano do mundo policial do Rio de Janeiro dentro do Defensores da Lei. A sua equipe percorria as delegacias de polícia carioca para trazer para o rádio dramas verdadeiros. Da ficção para os relatos reais, os ouvintes acompanharam O crime da Mala, O Crime do manicômio, O crime do Pavilhão Mourisco, Na Ronda da Morte, O Maníaco, Uma Vida Roubada e O Chapéu Trocado.

Radioteatro se espalha pelo país

Na Mayrink Veiga, emissora que Casé atuou por vários anos, houve ainda o radioteatro Teatro pelos Ares, sob a responsabilidade de Plácido Ferreira, Cordélia Ferreira, Olavo Barros e Anita Spá. Neste prefixo, foi apresentado, em dois capítulos de meia hora, o folhetim do francês Victor Hugo : Os Miseráveis. Enquanto isso na Rádio Transmissora, do Rio de Janeiro, Renato Murce lançou o Radioteatro Leopoldo Froes.

Em outro prefixo, na Rádio Farroupilha de Porto Alegre, Luiz Petry e Estelita Bell comandavam o Teatro Farroupilha. Patrocinado pelo Café Carioca- o amigo de seu paladar-, em 1939 o espaço de radioteatro conseguia reunir somente na capital do Rio Grande do Sul 23 mil ouvintes, o que equivalia a 10% da população da cidade. O programa ía ao ar todo domingo à noite e seguia algumas regras básicas para ser acompanhado por todos os membros da família, ou seja, não podia ter cenas ou frases indecorosas, segundo o historiador Moacyr Flores (2000) : « Era para fazer rir sem fazer corar. Procurava educar pelo ridículo da cena, expondo os espertos, os malandros em situações embaraçosas. A crítica social é indireta, mas seus textos leves servem para reconstituir uma época do bonde, da fila do cinema, das pensões e dos casais ingênuos quando a mulher ainda não trabalhava ».

Na Rádio Record, de São Paulo, Manuel Durães encenava o Teatro Manuel Durães. Ainda na década de 1930, a Rádio Atlântica de Santos inaugurou o seu Teatro de Antena sob a direção de Armando Rosas, que radiofonizou a peça, de Luiz Iglesias, Onde Estás Felicidade ?

Como Sherlock Holmes e o detetive Roberto Ricardo o mundo do rádio conhece um novo mocinho com as Aventuras de Dick Peter, transmitido a partir de 1937, primeiramente na Rádio Difusora e mais tarde na Rádio Tupi, ambas de São Paulo. O programa, de autoria do jornalista Jerônimo Monteiro, evocava igualmente a luta do bem contra o mal, quando o investigador Peter se encontrava nas mais diversas situações. Dick Peter poderia estar num episódio se confrontando com bandidos e assassinos caçadores de tesouro e, num outro, lutando contra homens invisíveis, concebidos por cientistas malucos. Era o início nas ondas do rádio da ficção científica de forma seriada.


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