Televisão

Publicado em: 01/05/2012

Os amigos incondicionais da televisão vão me desculpar, mas o jeito que esse poderoso veículo de comunicação está sendo tratado, há muita gente correndo o risco de transformar-se em autômato, espécie de marionette da era eletrônica, funcionando ou deixando de funcionar por força de chaves e botões. No que me diz respeito, a dose foi muito elevada e hoje de irremediável telefobia. A gravidade da minha doença está proporcionalmente ligada ao tipo de programa.  Assim, quando é apresentado um filme daqueles de mil novecentos e antigamente, começo a sentir calafrios intermitentes. O tremor aumenta de intensidade com os programas humorísticos (?), cresce mais ainda com a cara do Agnaldo Timóteo, para melhorar um pouco com o Chico Anysio. O estado geral sofre uma recaída brusca com as novelas e chego quase ao estado de coma com os casamentos do ilustrado vereador gaúcho Ivan Castro. Os comerciais, esses me causam intolerantes distúrbios estomacais.

Atualmente estou em recesso, mesmo porque muita gente melhor do que eu também está, inclusive em Brasília.

Num dia destes resolvi fazer uma visita a um casal amigo e entrei pelo cano mais violento.

É que cometi a inimaginável estupidez de chegar na hora do Antônio Maria e fiquei com a maior cara de asno, sentadinho, sentadinho. É o que poderia se chamar de TV-obrigatória. Você assiste porque é obrigado a assistir.

A gente pensa que o amigo está satisfeito com a visita e quando vai conferir a mulherzinha dele lança olhares chispantes, o próprio amigo olha extasiado para o vídeo e a gente ali, com cara de besta.

Saí na hora da propaganda, que é a única hora em que se pode falar alguma coisa sem correr o risco de passar por chato institucional. E, assim mesmo, na saída, parece que ouvi um suspiro de alívio da dona da casa, como quem diz “já devia ter ido a mais tempo”.

É nesse pé que andam as minhas relações com a TV.

Já nem sei se visitar alguém é permitido sem consultar antes o visitado sobre suas preferencias e horários.

Ou, então, recomendo aos meus amigos que tiverem esse problema, uma solução que, sem querer, adotei num dia desses. Puxei o maior ronco, com assobio e tudo.

Quando acordei, até o Antônio Maria olhava, espantado, para a minha atremenda cara de pau.

 

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Nosso querido e amado burgomestre antigamente, quando se referia a este plumitivo de amenidades, deixava escapar um “meu caro Zigelli”. Depois que ficou de mal comigo, nosso bom alcaide azedou um pouco o tratamento, se bem que continue gentilíssimo. Era na base do “ilustre jornalista”. Agora, numa vingança terrível, o doutor Acácio resolveu lançar-me ao anonimato mais cruel. Em entrevista ao repórter Dakir Polidoro, o Prefeito afirmou que “alguém” anda dizendo que com badalação não se faz um pavilhão.

Mas que não se faz não se faz mesmo.

 

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A imprensa noticiou durante a semana um empréstimo assinado em Londres e destinado a conclusão da BR-101.

Uma fonte do DNER declarou que o engenheiro Hildebrando Marques de Souza vai reunir autoridades e imprensa nos próximos dias para fornecer detalhes da conclusão da rodovia federal.

Conclui-se daí que a BR-1101 é a estrada que mais se conclui no Brasil.

 

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Quem ficou embatucado com um telegrama recebido de Joinville foi o deputado Mário Olinger. O telegrama, muito misterioso, dizia apenas:

 

– Deputado Mário Olinger. Assembleia. Fórmula. Um abraço. Deputado Pedro Colin.

 

O telegrama, aliás, nesses tempos imaginativos, poderia causar uma confusão digna de Kafka se caísse nas mãos de uma autoridade mais diligente.

Aquele Fórmula UM poderia ser um código subversivo, ora se podia.

Quem decifrou o mistério foi o deputado Walter Zigelli. Aquele Fórmula Um não era mais do que a primeira fórmula telegráfica de mensagem de boas-festas do nosso inefável DCT.

Acontece que o deputado Pedro Colin teve mais de sete mil votos e muito eleitor deve andar, a esta altura, com o telegrama na mão, tentando decifrar a mensagem.

Tranquilizem-se.

Quer dizer apenas “Feliz Natal e Próspero Ano Novo”.

 

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Ultimamente, o Prefeito tem concedido algumas entrevistas incendiárias.

Há dias houve um bate-boca radiofônico entre o Prefeito e o Delegado da SUNAB por causa dos feirantes.  Agora, Sua Excelência declarou que o Natal é uma farra semelhante às bacanais romanas. A afirmação é exagerada, em que pese a respeitável opinião prefeitural. Quando nasce uma criança a alegria é natural em qualquer lar e, modestamente, não vemos porque um fato como o nascimento de Cristo deva ser recebido com rostos graves, sem sorrisos nem alegria. E afinal, cada um bebe a sua cervejinha quando pode. O mau-humor oficial é compreensível quando se tem em vista os gigantescos esforços do Prefeito, as incompreensões e as ingratidões, os problemas enormes e explosivos de uma cidade que cresce.

Mas daí até a briga com o Menino Jesus vai uma distância considerável.

 

Adolfo Zigelli. As soluções finais. Florianópolis: Editora Lunardelli, 1975. Esgotado.

 

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