Tem tradução!

Publicado em: 28/11/2010

Noel Rosa, no samba “Não tem tradução”, de 1933, dizia: “O cinema falado é o grande culpado da transformação…”. Eram os primórdios da sonorização dos filmes e a letra falava da influência de outros idiomas na cultura de massa de então. O “Poeta da Vila” afirmava, ainda, que: “A gíria que o nosso morro criou, bem cedo a cidade aceitou e usou”. Hoje, no entanto, importamos gírias, roupas e trejeitos a cada nova moda inventada no Hemisfério Norte. Até imitar o submundo dos países desenvolvidos é “fashion”! As línguas são vivas, daí as gírias, os neologismos. Novas palavras também surgem por conta de descobertas científicas ou inovações tecnológicas, normalmente vindas do exterior. Quase tudo tem tradução, mas preferimos incorporá-las a traduzi-las.

O problema é quando isso deixa a literatura científica, os jargões profissionais, as placas das lojas, razões sociais, marcas “fantasia” e ambientes de escolas de idiomas, e entra no cotidiano. É quando desconto vira “off”; ponta de estoque, “outlet”; lixeira, “garbbage”; grátis, “free”; balsa, “ferry-boat”; plataforma ou deque, “deck”; lema, “slogan”; ou popularizam-se expressões como: “self-service”, “pet shop”,”drive thru”, “barbecue”…

Tem tradução, mas parece que alguns preferem esquecer-se disso, por esnobismo, desconhecimento ou desprezo. O “complexo de vira-lata” faz alguns acreditarem que publicidade em outros idiomas dá confiabilidade e modernidade a produtos, empreendimentos e discursos. É o “marketing”, “feedback”, “gap”, “update”, “turn key”, “triple A”, “insight”, “schedule”, “play off”, “tie-brake”… Existem até faculdades brasileiras e cursos com nome em inglês: “business school”, MBA, com sotaque inclusive!

Globalização não significa colonização cultural!

Mas isso não deve virar uma neurose nacionalista. Querem usar palavras ou expressões em outros idiomas? Tudo bem, mas desde que as coloquem também em português, pois, salvo engano, esse é o idioma oficial do Brasil. Obviamente, o exemplo deve partir do governo, permeado pelo bom-senso e ao encontro de iniciativas como a da unificação ortográfica lusófona.

Isso não solucionará a questão moral e ética que aflige nosso país. Nesse âmbito, alguns dos aspectos “culturais” das elites governantes precisam realmente ser banidos, junto com seus adeptos. Afinal, nenhuma nação independente e progressista se constrói desprezando sua identidade.

Pode ser exagero de minha parte, mas essas práticas contribuem para o enfraquecimento de nossa consciência nacional. Não é à toa que outro dia vi na entrada de uma loja de “shopping” (centro comercial), as formas e cores da bandeira brasileira num capacho. Quando critiquei aquilo, a vendedora disse que nunca haviam reclamado, e que aquele era um dos produtos mais vendidos da loja…

Será que a culpa é só do cinema falado?

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