Teus brancos seios

Publicado em: 24/05/2005

Chegou em casa e encontrou a mulher chorando. Como não era ainda a hora da novela, preocupou-se.
– O que é que houve, Marilúcia?
Por Flávio José Cardozo

Aí é que Marilúcia chorou de verdade. Um choro denso e sentido. Assim tão sentido só quando a mocinha da novela foi abandonada pelo amado em meio aos alegres anúncios de cervejas e iogurtes.
– Hein, mulher, o que é que foi?

Ela limpou os olhos com as costas da mão, suspendeu um pouco os soluços, gemeu:
– A mamãe…
– Algum acidente? – apressou-se ele.
– Não, não…
– Alguma doença grave?
– Não, não…
– Dona Mariana deu em alguém?
– Não, não…

Ih, então não podia ser outra coisa: Dona Mariana estava de novo com seus problemas sentimentais. Na certa era alguma briga com o namorado, Seu Zoroastro, um velho capitão reformado, solteirão, tocador de violão nas horas vagas, bom como uma moça.
– Algum problema com Seu Zoroastro?
– Não, não… Quer dizer… Ai, Floriano, que desgraça!
– Que desgraça, Marilúcia? Fala logo!

Então ela enxugou outra vez os olhos e gemeu com sofrimento:
– Topless.
– Topless?
– Mamãe cismou que amanhã vai assim na praia. Topless, peito de fora Floriano!

Ele, quando se deu conta, estava sentado, a cabeça dando voltas. Não, aquilo era invenção, maluquice da Marilúcia. Uma brincadeira. Um tipo novo de gozação.
– Qual é a tua, minha nega? Que bobagem é esta duma senhora como Dona Mariana… hein?
– Bobagem nada. Ciumeira, isto sim. Pra se vingar do Seu Zoroastro, mamãe disse que vai andar na praia daquele jeito. E vai mesmo! Ela é fogo. Eu falei que me mato se ela fizer isto. Brigamos até agora. Saiu não faz dez minutos. Vai ser horrível, Floriano.

Chorou mais ainda. E não era pra menos. Aquilo ia além do que a mais permissiva imaginação podia conceber: Dona Mariana, 52 anos, viúva, gordona, boa família, mostrando os peitos de fora na Joaquina.

Absurdo, grotesco, coisa pra Fellini. Mas que fazia, fazia. A velha era o diabo. Foguenta. Gritalhona. Chiliquenta. Depois que ficou viúva, há quatro anos, teve três namorados. O que eles passaram não se deseja nem para os maiores bandidos Coitados, nunca viram tanto ciúme. Tiveram de desaprender que existe outra mulher no mundo. Nem revista podiam folhear. Nem se sabe como é que ela deixava Seu Zoroastro abraçar o violão.

A verdade é que Seu Zoroastro cometeu um grave deslise. Difícil de entender que tenha sido tão imprudente. Aconteceu que, depois de muita e muita tentativa, finalmente ele conseguiu dar à Humanidade uma musiquinha de sua própria lavra. Tocava há quarenta anos mas nunca acertava no que queria. Tudo já tinha sido feito pelos outros. Pois quando conseguiu, o capitão foi desastrado: intitulou a valsinha de “Zuleide, teus brancos seios…” e Dona Mariana não podia gostar, podia?, ainda mais assim com aquelas reticências insinuantes.
– Mas isso não é motivo pra topless, pomba! Zuleide é apenas um nome. Podia ser Conceição, Maria, Henriqueta.
– E quem é que não sabe? Só a mamãe não sabe. Ela vai dar vexame, Floriano. Tenho certeza: ela vai dar vexame. Disse pra mim que esse velho bobo vai aprender a valorizar o que é dela.

Floriano não tinha dúvida nenhuma: a velha é cheia de vontade, diz que faz e faz mesmo, não foi à toa que o marido morreu daquele jeito, com quarenta e sete quilos.
– Já pensaste na vergonha, Floriano?
Estava pensando. Bota vergonha nisto. Colunas de jornais, comentários por todo lado. O Brasil inteiro ia gozar Florianópolis, que passou o verão todo sem topless e só agora, no fim da temporada, é que aderia à moda, mas de que jeito? E a polícia? Sim, a polícia pode perdoar uma garota de dezoito, vinte anos (afinal, a juventude merece compreensão e tolerância), mas uma cidadã tão vivida como Dona Mariana, não, não podia, perdão também tem limite, poxa!
– Floriano, vai procurar a mamãe, vai. Vai lá, tira essa loucura da cabeça dela, se não eu acho que me mato mesmo, Floriano. Ela está em casa da tia Heloneida. Me ajuda, Floriano, vai!

Floriano saiu. Mas tocou-se antes para a pensão onde o velho morava. Pediu que ele sentasse, respirasse fundo, contou-lhe a iminente tragédia. Peitos de fora, Seu Zoroastro. Um bando de selvagens vai deliciar os olhos com os seios de Dona Mariana, Seu Zoroastro. E ela está decidida, urge uma intervenção. O ciúme alucina, o ciúme é um veneno, Seu Zoroastro. O velho quase teve um enfarte, mas pegou o violão, disse que podiam ir, e foram.
– Dona Mariana, viemos em missão de paz – falou o genro assim que ela abriu a porta. – Sempre se pode remediar qualquer mal praticado, não se pode? O nome da valsinha como é que ficou sendo mesmo, Seu Zoroastro?
– “Mariana, que sejam só meus olhos…” – balbuciou o violonista, fixando no pujante peito da mulher toda a concupiscência de olhar de que era capaz, com reticências e tudo, e já tocando sua obra-prima.
Dona Mariana era uma doida mesmo: abraçou gentilmente o genro, tranqüila, apaziguada. Mas depois fez-se pantera: atirou-se sobre o namorado e só não o devorou de amor, ali mesmo na sala da irmã, porque afinal havia gente por perto. Floriano viu logo que a crise estava conjurada e saiu. E Dona Heloneida foi lá pra dentro ver um desbotado filme com James Cagney.

(Do livro Água do pote, Florianópolis, UFSC / Lunardelli, 1982)

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