Tradição, memória e ausência!

Publicado em: 03/08/2009

O rádio brasileiro precisa redescobrir alguns valores essenciais.

Tradição em rádio dançou?

Emissoras trocam de nome e de programação num piscar de olhos. Essa onda desenfreada que invadiu o rádio de uns tempos para cá despersonalizou um grande número de emissoras de AM e FM Brasil afora, acabando com a identidade delas.

Sob as vistas do ministério da área (o das Comunicações), cresce também pelo país o número de rádios que passaram a ter programações de igrejas evangélicas e de outros segmentos que as descaracterizaram por inteiro. Um “quadro negro” que parece não ter volta.

Uns empresários de radiodifusão agem assim, em detrimento da qualidade de suas rádios, por ganância pelo dinheiro fácil; outros, por pura incompetência de gestão; e alguns, por modismo. O fato é que a falta de vigilância por parte do governo facilita a vida desses empresários (sic).

Veja, por exemplo, em Florianópolis: das quatro primeiras emissoras de FM (Ibope), só uma, a Regional, tem seu nome original e programação própria, enquanto as outras três, Band FM, Jovem Pan FM (São Paulo) e Atlântida (Porto Alegre) são canais locais que servem de “cavalo” (total ou parcial) para quatro redes nacionais. 

Se verificarmos o panorama em outras capitais do país, a situação é igual ou de proporções ainda maiores. Em São Paulo, marcas famosas de empresas (Sul América, Oi, Mitsubishi e outras) substituíram os nomes originais e programações de emissoras com jogadas de marketing que poderão ou não ser duradouras.

Quem não tem memória, não tem história…

Em rápida passagem por Curitiba, cidade onde dirigi as rádios Ouro Verde, Independência e Clube Paranaense (nas décadas de 50,60 e 70), conversando com ex-colegas, tocamos num assunto que deve merecer urgente atenção: a falta de literatura sobre o rádio paranaense.

Faz falta um livro que retrate sua história desde 1924, quando foi inaugurada a Rádio Clube Paranaense, até os dias atuais. Falei em urgente atenção porque os mais antigos radialistas, na faixa dos 60 a 80 anos, estão morrendo e daqui a pouco faltarão depoimentos daqueles que ajudaram a construir a radiofonia paranaense.

Como diz Renato Ribas, diretor do Instituto Cinevideo de lá: “Quem não tem memória, não tem história”. Esse instituto, que vem realizando um trabalho de colheita de depoimentos de personalidades do rádio, TV, cinema e teatro do Paraná, poderá servir de fonte para a realização do livro proposto.

Domingo (26-7), morreu o publicitário José Felipe Engler, 83 anos de idade, ex-diretor comercial da Rádio Ouro Verde, que também exerceu por muitos anos o mesmo cargo na TV Paraná (canal 6). Foi um dos mais competentes profissionais dessa área que, com certeza, tinha muitas histórias pra contar.

Felipe teve uma participação importante no projeto Ouro Verde só música, boa música, programação que colocou e manteve essa emissora em primeiro lugar absoluto no início dos anos 60 e que transmitia apenas um comercial por intervalo. O esquema criado por mim na época só foi possível graças ao trabalho desenvolvido por ele, logicamente aprovado pelo empresário radiodifusor, Ronald Stresser.

Ausência sentida: MPB, onde estás que não te escuto?

Consultei 50 ouvintes de rádios FM de São Paulo – na faixa de 18 a 24 anos – sobre quais os cantores brasileiros que conheciam. Apenas cinco desses ouvintes responderam: dois indicaram Ana Carolina, um Seu Jorge, um Zeca Pagodinho e um Marisa Monte.

A falta de conhecimento sobre nossos cantantes – 45 ouvintes disseram não conhecer ou não se lembrar de nenhum cantor ou cantora… Isso é alarmante e preocupante porque nunca, em tempo algum, o Brasil teve tantos e tão bons cantores, principalmente cantoras, como agora. Mas essa pesquisinha é o retrato do que toca nas rádios na atualidade.

Existem raríssimas exceções, como a Rádio Nova Brasil (www.novabrasilfm.com.br), que esbanja música popular brasileira de primeira em 100% de sua programação. E por todo o país são poucas as emissoras que se atrevem a rodar só o que é nosso. Essa constatação parece que não tem volta.

Não somos radicais e, em hipótese alguma, achamos que todas as rádios devem tocar exclusivamente música brasileira. Mas uma entre cinco, que tal? E pensar que, não faz muito tempo, a maioria das rádios apresentava 50% de músicas nacionais.

Em consequência desses maus-tratos à nossa música no rádio, são poucos os artistas que têm contratos com gravadoras. E também muitas delas fecharam ou foram à falência. A fabricação de CDs virou “por conta própria”, ou seja, nossos cantores bancam a produção e se viram na divulgação e vendagem pela net.

EM TEMPO: Ser ou não ser (diferente), eis a questão…

O governador Roberto Requião, do Paraná, tem prazer de se envolver em questões polêmicas. Recentemente, ele sancionou uma lei que obriga a tradução de palavras estrangeiras em propagandas veiculadas no Estado. A medida, assim que divulgada, encontrou reação negativa, principalmente por parte de publicitários e anunciantes.

Quem desobedecer ao decreto antiestrangeirismo na propaganda está sujeito à multa de cinco mil reais, que pode ser aplicada às agências de publicidade, contratantes e veículos de comunicação.

Na quarta-feira (29-7), foi protocolada no Tribunal de Justiça do Paraná, pelo Sindicato das Empresas de Publicidade Externa no Paraná (SEPEX-PR), uma Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADIn contra essa inédita lei, oriunda de projeto do próprio governo paranaense, aprovada por 27 deputados estaduais.

Abaixo o xenofobismo, já!

O anúncio dessa excêntrica lei, que vai contra a liberdade de expressão, está causando muita discussão no Estado paranaense e além de sua fronteira, tendo até mesmo motivado Maílson da Nóbrega a escrever uma coluna inteira sobre o assunto na revista VEJA (29-7). Note-se que sua coluna aborda sempre assuntos econômicos.

Maílson encerra assim sua matéria: “Em Portugal, o mouse do computador é rato mesmo. O que ganhariam os paranaenses se nas propagandas aparecesse rato ao lado de mouse? Nada. A lei Requião é, pois, uma tremenda tolice. Ela não reforçará a soberania nacional. Significará apenas aumento de custos, perda de tempo e falta do que fazer.”

Concordo em número, gênero e grau com o economista ex-ministro da Fazenda. Uma sugestão para o governador Roberto Requião: procure gastar o tempo restante de seu mandato criando leis que proporcionem melhores condições de vida para o povo do Paraná. 

PENSAMENTO

Lygia Fagundes Telles: queria ser jogador de futebol...

Quando vejo o Kaká, eu penso: Nossa, como ele é bonito. Na próxima “encadernação”, queria ser jogador de futebol, para ganhar os milhões que eles ganham e ter a cara do Kaká. Porque ser imortal, como dizia Olavo Bilac, é não ter onde cair morto. Lygia Fagundes Teles, escritora (86 anos de idade)

FINAL, DOIS PONTOS:

1. Anúncio de um produto transmitido pela Rádio Transamérica FM de São Paulo diz que: SÓ KUK TEM (leia em alto e bom som), e

2. Alertada para o cacófato que a fala tem, a dita emissora diz que é criação da agência e que a TV também apresenta o anúncio assim. Sinal dos tempos.

P.S.M. POST SCRIPT MUSICAL

Aqui, uma soberba apresentação de Ana Carolina, intérprete citada em 1º lugar na pesquisa sobre cantores mais conhecidos das rádios FM.

 

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *