Um caso: índios avás-canoeiros

Publicado em: 30/10/2013

Para recordar: 1) o bem chega a conta-gotas, o mal aos borbotões e é eterno; 2) é dantesca nossa ineficiência em administrar a questão indígena; 3) apenas chorar o leite derramado só aumenta o sofrimento; 4) olhar o mundo com viés ideológico produz mais mártires; 5) crer que o mundo é estático amplia as injustiças; 6) adulto com tutor possui apenas nano-cidadania.

Detentores de 38 mil hectares no Estado de Goiás os índios avás-canoeiros perderam 3 mil hectares para a hidrelétrica Serra da Mesa. Desde 96, com a construção da usina as concessionárias Furnas Centrais Elétricas e CPFL Energia creditam por mês valor equivalente a 2% dos royalties pagos aos seis municípios que tiveram terras inundadas pelo reservatório (Colinas do Sul, Minaçu, Niquelândia, Uruaçu, Campinaçu e Campinorte).

Os recursos, num montante de R$ 6,9 milhões, são administrados pela Funai, com a assistência do Ministério Público Federal, até que os indígenas sejam considerados aptos a administrá-los diretamente. Os membros dessa comunidade são: Matxa, 73 anos, a matriaca; Nakwatxa, 63; Iawi, 53; Tuia, 43; Thrumak, 26; Niwatima, 24; Kapitomy’i, 26 (da etnia tapirapé, que se casou com Niwatima); e Paxeo, 1, filho de Kapitomy’i e Niwatima. Segundo a Istoé On line são os remanescentes do massacre de 1969, que dizimou 150 índios (envolvendo garimpeiros e outros aventureiros)

Deles, só Niwatima sabe ler e seu irmão Thrumak tem noções de Matemática, aprendidas no convívio com não índios. Segundo Furnas, em 2001, foi assinado convênio com a Universidade Federal de Goiás, para que professores ensinassem os índios, mas o projeto fracassou, pela ausência de “progressos” dos indígenas.

Recentemente o jornal O Globo registrou: “Entre os municípios de Minaçu e Colinas do Sul, no norte de Goiás, sete índios avá-canoeiro estão vivendo no limite da extrema pobreza, marginalizados pela desastrosa tutela da Fundação Nacional do Índio (Funai). O caso é mais grave quando se destaca que os índios, remanescentes de etnia nômade que já contou com mais de 2 mil membros no século passado, possuem reserva de 38 mil hectares (mais que o dobro da área da cidade de Niterói, no Rio de Janeiro) e, há 16 anos, são presumidos destinatários de royalties milionários pagos pelas concessionárias da hidrelétrica de Serra da Mesa, situada parcialmente em suas terras. Todavia, os índios jamais viram a cor – e, menos ainda, os benefícios – desse dinheiro”.

“Eles passaram fome com dinheiro em caixa — diz Egipson Correia, indigenista da Funai responsável pela aldeia. As cestas básicas e a perda de tradições inibiram os índios de matar a fome com hábitos antes tradicionais. Niwatima e Iawi, por exemplo, hoje comem morcegos e tatus — pratos comuns até o contato com o branco — com a frequência que o cidadão de classe média come lagosta no Brasil, ou seja, raramente. E, neste caso, não é por falta de oferta, uma vez que morcegos enfileiram-se no teto da cabana de alvenaria de um cômodo, onde os moradores espalham-se por suas redes.

“Fazer das quatro pessoas que restaram da tribo objeto de proteção indigenista com verbas milionárias é uma forma bizarra de preservação e até forma de violência, porque desconsidera aspectos importantes da vida deles. Essa sociedade, que vive em situação de cativeiro, passou a ser dirigida por tutores” — disse Cristhian Teófilo da Silva, professor de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), que defendeu tese de doutorado sobre o grupo.

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