Um “Ébrio” inesquecível

Publicado em: 28/07/2008

Nos anos 30, 40 e 50 do século XX, o Brasil inteiro ouvia (pelo rádio e nos discos), via  (nos shows,  teatros e cinemas) e aplaudia uma dupla notável: Vicente Celestino e sua mulher Gilda de Abreu.
Jamais o Brasil conseguiu juntar no mundo artístico, um casal tão versátil como este.
Vicente compunha, cantava e era ator de teatro e cinema. Gilda foi cantora lírica e de operetas, atriz de teatro e cinema, roteirista, autora de livros, de roteiros de cinema e peças de teatro, de rádio novelas,  além de ter dirigido vários filmes.
 
Diversos dos seus livros foram adaptados para o rádio, transformando-se em novelas de sucesso, como “Mestiça”, “Aleluia, a Cigana” e “Coração Materno”.

A versão para cinema de “O ÉBRIO” que ela dirigiu, com Vicente Celestino no papel principal, foi um recordista de bilheteria. Realizado em 1946, até hoje é lembrado como um dos maiores exemplos do cinema que se fazia no Brasil naqueles tempos.
Houve cidades em que a bilheteria de “O Ébrio” superou a do famoso “… E o Vento Levou”.

A música “O ÉBRIO” foi cantada pela primeira vez ao microfone de uma emissora de rádio na Rádio Guanabara do Rio de Janeiro e gravada em 1937. No disco, a canção é precedida de um monólogo na voz de Vicente Celestino. Ei-lo, e depois a canção:
 
“Nasci artista. Fui cantor. Ainda pequeno levaram-me para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo até chegar aos píncaros da glória. Durante a minha trajetória artística tive vários amores. Todas elas juravam-me amor eterno, mas acabavam fugindo com outros, deixando-me a saudade e a dor. Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor. Essa jovem veio a ser mais tarde a minha legítima esposa. Um dia, quando eu cantava A Força do Destino, ela fugiu com outro, deixando-me uma carta, e na carta um adeus. Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de seu eu: a minha filha. Uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar. Voltei novamente a cantar, mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça, bonita … E uma noite, quando eu  cantava ainda mais uma vez A Força do Destino, Deus levou a minha filha para nunca mais voltar. Daí para cá eu fui caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa. Até que acabei por levar uma vaia cantando em pleno picadeiro de um circo. Nunca mais fui nada. Nada, não ! Hoje, porque bebo a fim de esquecer a minha desventura, chamam-me ébrio. Ébrio … ”
 
A canção:
 
“Tornei-me um ébrio e na bebida busco esquecer
Aquela ingrata que eu amava e que me abandonou
Apedrejado pelas ruas vivo a sofrer
Não tenho lar e nem parentes, tudo terminou
Só nas tabernas é que encontro meu abrigo
Cada colega de infortúnio é um grande amigo
Que embora tenham como eu seus sofrimentos
Me aconselham e aliviam os meus tormentos
Já fui feliz e recebido com nobreza até
Nadava em ouro e tinha alcova de cetim
E a cada passo um grande amigo que depunha fé
E nos parentes … confiava, sim !
E hoje ao ver-me na miséria tudo vejo então
O falso lar que amava e que a chorar deixei
Cada parente, cada amigo, era um ladrão
Me abandonaram e roubaram o que amei
Falsos amigos, eu vos peço, imploro a chorar
Quando eu morrer, à minha campa nenhuma inscrição
Deixai que os vermes pouco a pouco venham terminar
Este ébrio triste e este triste coração
Quero somente que na campa em que eu repousar
Os ébrios loucos como eu venham depositar
Os seus segredos ao meu derradeiro abrigo
E suas lágrimas de dor ao peito amigo.”
 
Quem lê, ou escuta esta canção, não pode deixar de ficar emocionado. É um relato de um drama, sintetizado em poucas linhas, que perdura pelos tempos, enfrentando épocas e várias gerações, sem perder a dignidade. Uma jóia da música popular brasileira, cantada pelo ídolo que tinha o título de “O Cantor Orgulho do Brasil”.

2 respostas
  1. Adalberto Day says:

    Vicente Celestino
    Muito bem lembrado pelo Braga Mueller, garnde Cantor, que ficou mais conhecido pela música o Ébrio, mas que outras tantas fizeram sucesso como relata Braga Mueller. Patativa, Porta Aberta, Coração Materno…cantor que arrastava multidões, e depois se traduziam em filmes espetaculares.
    Parabéns Bra Mueller
    Adalberto Day de Blumenau

  2. dolores says:

    Quando eu era criança, lembro-me ver minha irmã ler um livro e ficar emocionada! este livro era: O ÉBRIO, de Gilda de Abreu. Já faz tempo que procuro este livro. Gostaria muito de adiquiri-lo, poder ler sua história na íntegra.

    Dolores

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