Um Facho de Luz

Publicado em: 17/08/2005

Por mais implacável que seja o tempo, ele jamais consegue apagar cenas que estimulam as nossas mais profundas e vivas recordações. Um facho de luz que entra sorrateiramente pelo vão da cortina, forma um estranho balé de partículas suspensas no ar.
Por Léo Saballa

Nesta projeção quase cinematográfica, volto no tempo e presto mais atenção em mim. Menino magro, sardas no nariz, cabelo espetado, joelhos feridos, choro fácil e uma vontade alucinada de crescer.

As partículas se agitam como num formigueiro. A vassoura desliza pelo quarto inteiro. Mesmo com sono, o menino sai da cama nesta manhã preguiçosa de domingo. Não é dia de aula, mas o sol o convida a brincar. Nas mãos bolinhas de gude e bolinho de banana, ainda quente, quase pelando. A avó protesta mostrando o chinelo de pano enquanto os irmãos ensaiam mais uma briga matinal.

Capim regado pelo sereno, roseta espetando o pé, a atiradeira, o passarinho abatido e o arrependimento infantil. O riacho, o sapinho que parecia peixe, a goiabeira escorregadia, o gesso no braço, o futebol, o recreio no grupo escolar, o choro e o riso em pequenos intervalos. Tudo isso volta ao menino como num filme em preto e branco, colorizado por computador. As mentiras, a realidade e as fantasias, o medo do escuro e a euforia incontrolável do menino na noite de Natal. A ansiedade no aniversário. E os presentes.

O futebol, o carrinho-de-lomba, o pião e a bicicleta que ele nunca teve. As alegrias e decepções, de certa forma, permanecem no menino teimoso e curioso. Também ficaram alguns traços de pureza. O tempo interferiu na alegria do menino e o fez crescer mais do que ele queria. Alguns sonhos ficaram pelo caminho e outros o caminho engoliu.

Fantasias e realidades transformaram os dias do menino numa fusão agridoce de saudade. Não há choro nem riso. Nem Natal nem aniversário. Não tem mais avó nem bolinho de banana. Também passou a vontade alucinada de crescer. Poucas vezes encontro o menino. Não o vejo mais no espelho nem no meu dia-a-dia. Deixo a cortina entreaberta para visualizar as partículas dançando na luz e desesperadamente procuro o menino que pouco a pouco foi embora de mim.


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