Perfil de um homem de rádio

Publicado em: 11/11/2011

Antunes Severo fez carreira em vários estados, mas fincou raízes em Florianópolis, onde está desde 1956

Paulo Clóvis Schmitz

Antunes Severo. Foto Danil Queiroz

A vida de Eurides Antunes Severo pode ser definida como uma sequência de grandes desafios, da infância na remota localidade de Capela do Saicã, entre Rosário do Sul e Alegrete (RS), à consagração como criador da renomada A. S. Propague, a primeira grande agência de publicidade de Florianópolis. Mas é, também, uma trajetória de sucessos, porque a cada etapa superada vinha outra, não menos cheia de obstáculos, e lá ia ele, sempre entre os primeiros, precisando avaliar convites cada vez melhores para tocar sua vida profissional. Boa parte de suas conquistas se deu no rádio, instrumento que jamais abandonou, embora tenha atuando na propaganda e lecionado na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina) durante quase 30 anos.

Desde 2003, ele administra, com Alexandre e Emílio Cerri, colegas da publicidade, o site Caros Ouvintes, que tem mais de 30 mil acessos por mês e chama a atenção de internautas das principais capitais do país e também de americanos, portugueses, alemães, italianos e ingleses. E publicou “História do rádio em Florianópolis”, com o jornalista Ricardo Medeiros, e “Radiodifusão em Santa Catarina”, em parceria com Marco Aurélio Gomes.

Dos tempos áureos, ele recorda de locutores memoráveis como Dib Cherem, Ivo Serrão Vieira, Souza Miranda e Acy Cabral Teive, todos da rádio Guarujá, de Mozart Régis, o Pituca, um dos primeiros radialistas catarinenses a brilhar nos grandes centros, de Maria Alice Barreto, que se notabilizou também como dubladora dos personagens de Walt Disney, entre muitos outros. Também lembra das polêmicas geradas pela disputa entre a rádio Anita Garibaldi, de J. J. Barreto, e rádio Jornal A Verdade, de Manoel de Menezes, que trocavam farpas em tempo real, um em cada emissora. “Era preciso ter dois aparelhos para acompanhar a briga”, brinca Severo.

De lenhador a militar

Criado pela madrinha após o assassinato do pai, ao voltar para a casa da mãe Severo teve o privilégio de ouvir o primeiro radinho movido a energia eólica da sua região. O aparelho era abastecido por uma bateria alimentada pelo “aerodínamo”, sistema baseado na força de um prosaico cata-vento. “Eu era fascinado por aquela caixinha que começava a falar de repente”, conta. Lenhador até os 13 anos, ele passava metade do tempo no mato, e num dos intervalos em que estava com a família surgiu a ideia de buscar o apoio de um primo mais abonado, poliglota e médico em Rosário do Sul. Ali, fez amizades que o levaram a trabalhar num sistema de alto-falante que fazia comerciais à noite na principal praça da cidade.

Àquela altura, ele já havia sido conquistado pela magia do rádio, mas precisou, antes de se firmar na profissão, passar por algumas provações. Teve que aprender a ler e só fez o primeiro documento de identidade ao entrar no Exército, aos 18 anos. Em 1949, finalmente, passou a trabalhar na única emissora da cidade. Contudo, por conta de uma carreira militar incipiente, foi parar na Escola de Sargentos das Armas, em Três Corações (MG), onde enveredou pela engenharia e começou a mostrar um espírito de liderança que o acompanhou pela vida a fora.

O pouso do andarilho

O sucesso num programa de rádio da escola militar provocou ciúmes num superior, e Severo, orgulhoso de seu talento, fez greve de fome pelas reprimendas recebidas. Acabou sendo transferido para o Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro, e dali para a unidade do Exército em Lages. A carreira profissional no rádio começou em Rio Negro (PR), já na fase de desligamento da vida militar. Daí para Curitiba foi um pulo, e na capital paranaense ele se consagrou comandando um programa de auditório que liderava os índices de audiência. Certo dia, com um amigo, sintonizou as ondas curtas da rádio Diário da Manhã (atual CBN Diário). “Que som!”, comentou. Dias depois eles estavam trabalhando em Florianópolis. O ano era o de 1956.

Dali em diante, ele chegou a trabalhar em Porto Alegre e Itajaí, até montar a A. S. Propague, em 1963. Vendeu a agência em 1978, fundou a ADVB/SC, mas sempre esteve ligado ao microfone. Hoje, com cinco filhos, nove netos e dois bisnetos, é um manezinho premiado, diplomado e condecorado. Sobre o rádio, só lamenta que ele nem sempre acompanha as transformações desses tempos de redes sociais, que mudaram o perfil dos ouvintes. “Esta ainda é uma mina a ser descoberta”, define ele.

Perfil | Plural | Notícias do Dia | Florianópolis, segunda-feira, 7 de novembro de 2011 | pc_ND | [email protected]

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *