Um mestre (1)

Publicado em: 12/10/2008

Nos anos 1940 o mundo tinha os olhos voltados para a Europa  onde as forças do exército alemão invadiam países vizinhos e Adolf Hitler expandia seus domínios. Na cidade catarinense de Joinville, com forte colonização alemã, havia um clima de tensão e expectativa.
Nas rodas de conversa as notícias da Segunda Guerra Mundial eram comentadas com muito cuidado em tom de cochicho. Num bairro próximo ao centro da bela cidade, um grupo de meninos, alheios ao noticiário sobre a guerra, se reunia para brincadeiras tradicionais. Entre eles um garoto magro, de gestos lentos e olhos espertos que preferia brincar  de rádio.

Usava duas caixas de fósforos ligadas por um fim. Uma era o microfone e outra o receptor. Dona Maria observava os movimentos do filho, sem saber que estava testemunhando o nascimento de um talento para o rádio. Quando não estava com os amigos, Jair de Brito costumava ficar ao lado do rádio ouvindo programas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro.

O interesse pela profissão foi aumentando. Quando completou 13 anos mudou-se para Curitiba. No colégio em que estudava conheceu Carlos Batista Júnior com quem acompanhava a saída das alunas do Instituto de Educação do Paraná, na rua Emiliano Perneta. Era programa obrigatório dele e da maioria dos adolescentes que se postavam próximo ao portão principal para ver as belas “normalistas” com o tradicional uniforme azul e branco, “trazendo um sorriso franco no rostinho encantador”, como dizia o samba gravado por Nelson Gonçalves.

O amigo e parceiro na paquera diária era filho do diretor financeiro da Rádio Clube Paranaense. Por indicação do amigo conseguiu seu primeiro emprego em Curitiba. Iniciou suas atividades de radialista em 1951 como discotecário. Fazia uma jornada de trabalho dobrada acumulando a função de operador de som. Em pouco tempo na atividade já se firmou como bom profissional, trabalhando ao lado de radialistas consagrados na radiofonia paranaense.

Fazia amigos com grande facilidade. Um dos mais chegados era o narrador de futebol, Ribas de Carvalho, amigo e admirador. Quando voltou de uma viagem de férias ao Rio de Janeiro, Ribas de Carvalho trouxe-lhe um presente precioso; um disco em 78 rotações, com a primeira gravação da cantora Ângela Maria. Ficou orgulhoso por ter tido o privilégio de promover a estréia da famosa cantora na programação da Rádio Clube Paranaense.

Nos anos 1950, discos lançados em São Paulo e Rio de Janeiro chegavam a Curitiba três meses depois. Esses discos tinham duas músicas gravadas. Uma em cada lado. Os programadores de rádio costumavam tocar as duas, não importando muito se eram boas ou ruins, se tinham ou não chance de figurar nas paradas de sucesso. Jair de Brito mudou isso.

Passou a tocar somente a música que considerava com maiores possibilidades de sucesso. A iniciativa melhorou ainda mais a excelente programação musical que elaborava com tanto zelo. O trabalho diário exigia muita dedicação e apurado gosto musical. Ouvia centenas de discos diariamente. Estes eram escolhidos e relacionados para o programa correspondente, e deixados à disposição do operador de som do horário, que se encarregava de fazer o transporte até a sala da “técnica de som”. Esse trabalho era realizado com extremo cuidado.

Os discos eram muito frágeis e quebravam com o menor impacto. Os acidentes com perdas de discos eram freqüentes.  Certo dia o operador de som Edwin Scott Balster, chegou atrasado para iniciar as transmissões da emissora. No momento em que transportava os discos da programação matinal, ficou frente a frente com o diretor Jacinto Cunha, conhecido como administrador muito enérgico e exigente.

– O que está havendo que a rádio ainda não foi para o ar. Edwin coloque a emissora no ar imediatamente. Largue esses discos aí e vá tomar providências!

Meio sonolento e tremendo de medo do chefe, Edwin largou os discos ali mesmo no chão. Metade deles quebrou. O episódio resultou numa suspensão por três dias.

Jair de Brito atuou na Rádio Clube num período em que o elenco de profissionais era considerado um dos melhores do país. Locutores como Loris de Souza, Airton Goulart (tio do ator Paulo Goulart), Milton Luiz Pereira (foi  Ministro do Superior Tribunal de Justiça), Souza Miranda, Haroldo de Andrade, todos do mais alto nível na radiofonia brasileira.

Desse elenco de craques do microfone, Haroldo de Andrade foi o que mais se destacou no cenário nacional. Contratado pela Rádio Mauá do Rio de Janeiro, Haroldo foi, em seguida, convidado pela Rádio Globo onde se projetou como um de seus mais populares apresentadores. Tinha excelente voz , sabia ler um texto como poucos.  Nem por isso ficou sem deixar sua marca no painel das gafes onde a maioria dos locutores tem lugar reservado.

Durante a apresentação de um programa de noticias da Rádio Clube Paranaense, Haroldo de Andrade foi ler uma notícia internacional e derrapou feio. Disse ele: “Foi revelado hoje que Mussolini guardava com carinho as CALÇAS DE AMOR de Carla Petacci”. A noticia sobre a amante do ditador italiano, Benito Mussolini saiu diferente do original na voz do locutor. Na verdade tratava-se das CARTAS DE AMOR de Carla Petacci e não de suas calcinhas.

Do livro Sintonia Fina – histórias do rádio.

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