Um milagrinho

Publicado em: 23/10/2010

Comecei a trabalhar em rádio muito antes de saber o que fosse rádio. Nada incomum: ainda hoje, boa parte dos jovens estudantes que procuram fazer seus estágios universitários em uma emissora, ignora como funciona este “meio”. Muitos saltam dos estudos de Música e História diretamente para os estúdios e microfones, como foi o meu caso. Certamente por isso, após trabalhar dez anos senti em minha ignorância o maior tédio: rádio seria só isso? Resolvi voltar a estudar, então… a linha deste horizonte se tornou infinita. Nesses últimos dez anos, após completar mestrado e doutorado na Escola de Comunicação da UFRJ, o exercício radiofônico se intensificou, e não apenas em mim. O panorama no dial modificado com a entrada da rede internet tornou as informações mais acessíveis, rápidas, atuais, fáceis e… complexas. Radioarte, sim! Paisagens sonoras, sim!  Mas… continuando a trabalhar como produtora e roteirista estava armado um xeque-mate…

Entender a inserção de um discurso voltado para a exploração dinâmica dos recursos desta linguagem radiofônica também significa perceber como equilibrar diferenças. Ou seja, a criatividade disponível deve funcionar dentro de uma grade de programação geral de uma emissora acrescentando informações sonoras,  mas sem destoar deste conjunto. Parece simples? Nem tanto.  Basta lembrar que apenas as emissoras educativas e públicas vêm investindo nesta diferença de produção. As emissoras comerciais – embora exemplos de excelência em áudio, especialmente na propaganda, e agora nas independentes webradios, sejam detectáveis – geralmente não encontram na equação custo-benefício motivo para realizar este tipo de investimento. Embora também este panorama seja mutante (quem disse que seria mais fácil viver no terceiro milênio?).

Tal complexidade vem sendo elaborada no crescimento da pesquisa e produção desta área da comunicação oferecendo perspectiva para melhores resultados nas produções. A bibliografia em língua portuguesa multiplicou-se, o campo de exercício ampliou ultrapassando o espaço das emissoras para revelar-se em bienais ou eventos de “arte sonora” que passaram a apresentar obras radiofônicas. Pesquisadores universitários reunidos nos congressos do INTERCOM, como os professores do grupo Rádio e Mídias Sonoras, levam adiante a troca de informações neste verdadeiro “milagre” de renascimento. Rádio Mirabilis, o rádio milagroso, sem dúvida inicia este terceiro milênio rejuvenescido, como na imagem desta antiga válvula de transmissor: sendo possível encontrar imagem diferente para o mesmo objeto porque não rádio diferente também, ainda que continue a ser este objeto, este rádio? O aproveitamento desta História centenária, nos parece ser uma vantagem nesta contemporaneidade complexa.

Neste cenário organizei “Rádio Mirabilis” nova proposta de série radiofônica semanal na Rádio MEC-FM dando ênfase no que está sendo realizado, explorando a linguagem e o pensamento deste médium surgido no século 19 como “transporte de inteligência” segundo Morse arriscou classificar. O telégrafo iniciava parte deste acontecimento da invenção radiofônica e mesmo sem poder imaginar, Morse conseguiu catalogar de forma exata.

Rádio Mirabilis: concepção, roteiro e produção – Lilian Zaremba
Radio MEC-FM 98.9 MHZ ou www.radiomec.com.br Quartas-feiras: 00h30min
Mais informações sobre a programação no blog: lilianzaremba.blog.uol.com.br

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