Um nome para história

Publicado em: 05/08/2007

Ao longo de uma jornada de mais de 57 anos de atividade na comunicação conheci muitos valores pessoais de envergadura imensa. Homens e mulheres que construíram magnânimas obras em vários setores da atividade humana, em especial na comunicação. Exemplos nacionais seriam, certamente, Roquette-Pinto e mais tarde Victor Costa, para citar apenas dois expoentes eternos da nossa admiração.
Por Agilmar Machado

Atendo-me ao âmbito estadual, seria infindável o rol de homens que merecem ser eternizados. Mas pessoalmente desejo destacar nesta oportunidade o nome de um homem que conheci bem de perto e cujo dinamismo me marcou profundamente. Um palhocense como meu pai, e que, tão logo atingi meus 17 anos, estava a seu lado levado pelo mano Aryovaldo, ajudando a fazer de uma pequena emissora um veículo de imensa importância comunitária.
Tive-o como um segundo pai, a guiar um início de carreira difícil para um iniciante que recém deixava de “engaipavar” a voz. Sabia-me divergente de seus conceitos religiosos, bem como do meu espírito independente e até certo ponto rebelde. Tive sempre presente seu querer paternal até aos últimos tempos de sua proveitosa vida.
Seu nome, pronunciado com toda a minha reverência, era Agenor Neves Marques, mais precisamente, Monsenhor Agenor Neves Marques.
Urussanga, a pequenina Urussanga que conhecemos, era o seu mundo; o pedaço de chão que encontrara para entregar-se completamente a ele, a sua comunidade, aos seus fiéis. Ali plantou raízes que proliferaram e se robusteceram, convertendo uma pequena cidade num exemplo de seu magnânimo e incessante trabalho, tal qual trabalhavam as abelhas que tanto amou e defendeu até internacionalmente como denodado apicultor de batina.
Leio hoje com saudades imensas desse homem e religioso de extrema bondade, inabalável coragem e coração incomensurável, uma dedicatória sua que está estampada no primeiro fascículo de cinco cadernos dedicados à apicultura. Era a lembrança que tinha para me dar naquela visita: “Ao amigo Agilmar Machado, ex-locutor da atual Radio Marconi, desejando-lhe uma vida repleta de mel e flores. O autor, P. Agenor Neves Marques”.
Depois disso  estive em sua casa, a seu convite, em 2003, quando a Rádio Marconi (ex Difusora Urussanga) fez 50 anos de existência. Além de seu primeiro locutor, confiou-me ele a direção interna da emissora. Fui alvo de múltiplas homenagens, porém a mais importante foi o momento em que aquele homem, em sua modesta
saleta-escritório já ao final da tarde me convidava: “Você vai assistir minha missa hoje? Quero te dizer um segredo de cinqüenta anos”.
Como negar àquele velho e querido ancião em sua cadeira de rodas, atendimento a um pedido tão espontâneo?  Porém condicionei: “Vou a sua missa, onde certamente estarão aqueles que por muito tempo me ouviram na Difusora, mas o senhor vai até ao altar andando, amparado por mim”.
– “Topo a parada”, me disse ele, rememorando os velhos e viçosos tempos dos anos 1950. E levantou, amparando-se em mim. Com passos lentos chegou ao altar. Após fazer-me ler, ao microfone (durante a missa) um trecho de um folhetim que é distribuído na igreja, disse:
– “Agora vou dar uma notícia que a todos agradará e trará saudade. Vocês acabam de ouvir a voz de um cidadão de grisalhos cabelos, cujo timbre me fez, um dia, acrescentar uma palavra ao “slogan” que eu havia escolhido para a velha Rádio Difusora, em 1952, que seria: “A voz da terra dos vinhedos”. Ao ouvir esse menino, trazido por seu irmão para aqui deixar perenizado seu nome na história desta cidade, encantei-me com a beleza de expressão que emanava do microfone. Então assim ficou definitivamente modificado o “slogan” para “A voz DE VELUDO da terra dos vinhedos”.
Em seguida, olhando-me na primeira fila de sua Capela, finalizou: “Que Deus guie teus passos, meu filho de sempre…” Foi sua última demonstração de apreço por
mim…

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