UM PIRATA ÀS MARGENS DA BAIA DO GUAJARÁ

Publicado em: 19/09/2006

Há algumas coisas que só podem ser vistas de perto. E outras que mereceriam ser vistas com o ouvido. Mister Bacalhau merece ser visto e escutado, ali nas barracas do Mercado Ver-o-Peso, em Belém, no Pará, junto à sua bicicleta. Não se sabe quem é de quem, a bicicleta de Mr. Bacalhau ou Mr. Bacalhau propriedade de sua bicicleta.
Por Rodrigo Manzano

Não é uma bicicleta qualquer: ela tem uma bateria, um alto-falante e um microfone. E Mr. Bacalhau também não é um homem qualquer: ele é um homem-rádio. Passa o dia tocando CDs piratas e anunciando o que tem de melhor, ele mesmo.

Expulso, vomitado, alijado do sistema de radiodifusão – porco, autoritário e reducionista – Mister Bacalhau criou a sua própria emissora de rádio: uma bicicleta, um microfone e um alto-falante. E ali, onde as barracas das ervas medicinais se encontram com as de artesanato, está sua mídia.
– Queremos dar boas vindas a todos que estão aqui no Mercado Ver-o-Peso e agora eu convido a quem quiser falar aqui na rádio sobre a feira, a cidade, pode vir que o microfone está aberto a todos. Os turistas podem vir fazer as críticas à cidade, para que todos nós possamos melhorar, convida o radialista.
A voz não é nem solene, nem despojada. Não se deslumbra com o lugar privilegiado. É a voz, somente. E então alguém vai ao microfone para dizer à namorada que a ama. Outro avisa que gostou muito de Belém e agradece aos parentes que o receberam. Uma terceira, procura a filha e pede uma música da Marisa Monte. Mister Bacalhau procura entre os CDs piratas em sua discoteca – uma caixa sintomaticamente forrada com cópias de notas de 100 reais – e escolhe uma canção.
– Aqui quem manda é quem ouve, alerta Mister Bacalhau, talvez sem saber o poder revolucionário de sua fala.  Antes que a canção de Marisa Monte terminasse, Bacalhau obedece a um outro pedido e a substitui. Ele se agrada de agradar.
O homem-rádio é a encarnação do devir deleuziano. Está na fronteira. Na borda, o melhor lugar a ele destinado e a nós, que resistimos.   Mister Bacalhau, o homem-rádio, é a síntese de tudo aquilo que deveríamos ser, mas não somos. Até porque é preciso coragem para enfrentar os moinhos de vento da burrice e estupidez.
O que eu fico pensando é se tanta letras e tantos louros nos dariam a audácia para ser, como Mister Bacalhau, um homem-rádio. Há coisas que merecem ser vistas e ouvidas de perto. Até porque só se sintoniza nelas aqueles que estão com a escuta atenta. Essa é uma ode ao Mister Bacalhau.
Leia como um texto e aprecie como quem ouve uma música. Porque é isso que ele é.


{moscomment}

1 responder

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *