Um sinal é gerado por um processo: liga-se o rádio

Publicado em: 11/09/2010

Ação realizada com sucesso, sinal aceito, sinal entregue. Um evento cotidiano aparentemente sem importância… Mas, e se não houver um objeto, um rádio a ser ligado? Sinal de um rádio tomado como metáfora para transmissão, circuito, desarticulação, metamorfose, recepção, mutação. Radiofonia, domínio heterogêneo para além das concepções comuns da comunicação como mídia. Um aparelho para colocar algum código pode também tornar-se um aparelho para decodificar mensagens… Palavras guardam real significado na música de cada voz, impressão sonora única, sinal marcado no tempo também enfronhado por escolhas pessoais. Estas, amordaçam os espaço nos objetos trajetos de uma vida inteira, transmitindo silêncio ruidoso como naquele arranjo em cima da mesa, uma natureza morta – still life – interrompida por esta voz que insiste em existir.. Still, ainda…

Ouvimos bibb do rádio relógio determinando os segundos, estes mesmos instantes subdivididos pelo tac tac do metrônomo. Mas este ritmo fechado em espaços preciosos escapa de sua homogeneidade quando a voz de Eva impõe seu próprio tempo, nos envolvendo em ressonâncias da memória. Aquela outra voz repetindo as frases de Eva, se esforçando, obediente, para acompanhar o tempo preciso, é a voz radiofônica.

Perdida no trânsito das válvulas, objetos do cotidiano que também se esvaem na presença de substituições corpóreas (novas tecnologias?) já sugeridas naquele outro aparato ipod. Na tela deste pequeno ipod, enxergamos a areia caindo na ampulheta. O tempo escorre como sombra porque, embota lento, nossos olhos não conseguem distinguir cada grão de areia precipitado. Um milésimo de segundo? Você ouve isso?

A primeira rádio tocando o tempo aonde o seu grau zero é aquela voz. A voz que irrompe “como espião” e transforma a homogeneidade do tempo, este que está sendo medido pela ampulheta, lançando seu próprio pulsar naquela sala verde onde o belo e grande relógio está parado. Ali, sempre serão oito horas da noite… Ela diria “… ah! isso foi a vida inteira…”

Evasão… Sonhar uma língua que decodifique este congelamento do espaço de uma casa-museu, captando outras mensagens naquela voz que ainda respira a natureza presente, escapando do cronômetro inaudível de um tempo que nos engole.

Trabalho de Lilian Zaremba realizado na Fundação Eva Klabin – junho / agosto 2010. Projeto Respiração. Curador: Marcio Doctors.

Fotografia e filmagem: Lucia Helena Zaremba | Edição do filme em iPod: Francisco Cid Guimarães
Iluminação: Fernando Sant’Anna | Voz e supervisão de edição sonora: Adriana Ribeiro
Editor de som: Alexandre Meu Rei (ECOSON) | Agradecimentos: Marcio Doctors e equipe, Claudia Bakker, Toni Godoy, Alcimar Ferreira, Irene Peixoto, Kika, Vera Terra, Alvaro Barata.

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