Uma epopéia musical- A Electrica

Publicado em: 26/10/2015

Na Calábria do início do século 20, um jovem desvirgina uma moça de família, cujo pai, em vingança, promete colocar a máfia para tratar do assunto.

Fábrica de Discos Gaúcho

Por via das dúvidas, o irmão mais velho do rapaz convenientemente resolve fugir do país carregando-o para uma longa viagem pela América, que termina em Porto Alegre, onde acabam fundando o que viria a ser a segunda mais importante indústria fonográfica da América Latina até o final da Primeira Guerra.

A história é contada pelo pesquisador Hardy Vedana, que preferiu não mencionar essa versão, digamos, íntima em seu récem-lançado livro A Eléctrica e os Discos Gaúcho (patrocinado pela Petrobras por meio da Lei Rouanet). Em edição de luxo, acompanhada por três CDs com gravações raras, a obra conta a epopéia de um dos mais ousados empreendimentos da história da música local.. “Discos Gaúchos” foi o rótulo que se tornou mais conhecido, entre os diversos lançados pela Casa A Eléctrica – loja, gravadora e fábrica que operou de 1913 a 1924. Pesquisador obstinado, dono de um invejável acervo de discos e documentos raros, Vedana chegou a viajar para Buenos Aires e Montevidéu em busca de peças pra montar o quebra-cabeça da trajetória desta que chegou a ser, segundo ele, “a gravadora mais importante do mundo”. “É estranho, mas é verdade”, confirma Vedana.

Tudo isso daria um filme, claro. E de longa-metragem, no que depender do diretor Gustavo Fogaça, o Guffo, que levará a história de fato às telas, até 2008. As filmagens acontecem no ano que vem. Ele esclarece que não será um documentário, e sim uma história romanceada dos fundadores de A Eléctrica.

Entre as lendas que rondam a Casa está a de que lá teriam sido gravados o primeiro samba e o primeiro tango da história. A versão mais conhecida a respeito do primeiro samba ainda aponta Pelo Telefone, de Donga, na voz de Bahiano, em 1917, para a Casa Edison, no Rio de Janeiro. Acontece que, pelo menos dois anos antes, o cantor Geraldo Magalhães, da dupla Os Geraldos, havia gravado uma série de músicas para A Eléctrica, em Porto Alegre, entre as quais alguns sambas. O músico e jornalista Arthur de Faria, que prepara uma nova edição de seu Um Século de Música no RS (livro + CDs patrocinados pela CEEE e lançados originalmente em 2001), lembra, no entanto, que já em 1911, também no Rio, um samba sem indicação de autoria já havia sido registrado. Há um outro porém: como na época era comum indicar o gênero das músicas no rótulo dos discos, muita coisa era samba apenas no nome. O pesquisador Humberto Franceschi, autor do livro A Casa Edison e Seu Tempo (Biscoito Fino), é categórico: “Nem Pelo Telefone era samba. O samba começou mesmo apenas em 1928, no bairro do Estácio, no Rio”.

No caso do primeiro tango gravado, o que ocorreu foi uma certa confusão entre gravar e prensar um disco. Nos primeiros anos do século 20, a indústria fonográfica recém começava sua trajetória. Os discos, de 78 rotações, também conhecidos como “chapas”, eram gravados apenas de um lado (depois se passou a usar os dois), contendo uma única música, ou “fonograma”. Gravar um fonograma não era propriamente o maior problema – diversas casas na América do Sul faziam isso. A pior parte vinha depois: afinal, para fazer cópias da matriz gerada na gravação era necessário um maquinário diferenciado. Essa segunda etapa era a prensagem dos discos.

É justamente aí que está o pioneirismo da Casa A Eléctrica. No começo, em 1908, ela era só mais um bazar que vendia produtos de papelaria, instrumentos musicais, discos e gramofones (os parentes mais antigos do toca-discos), além de ser a orgulhosa representante oficial das lâmpadas Osram no Sul, em uma época em que a energia elétrica na região era uma relativa novidade. Além da loja, que ficava na Rua dos Andradas, Savério Leonetti e seu irmão também tinham uma chácara na Av. Sergipe, onde davam festas de arromba, com música ao vivo e muita badalação. Foi nessa chácara que Savério instalou, em 1913, aquela que foi a segunda fábrica de discos da América Latina e possivelmente a quarta do mundo. Até então, as matrizes dos discos gravados no Brasil ou nos países vizinhos precisavam ser prensadas nos Estados Unidos ou na Alemanha. Em dezembro de 1912, uma novidade: a Casa Edison, no Rio, inaugura a primeira fábrica de discos do país. Em 1º de agosto de 1914 é a vez de A Eléctrica anunciar a sua. Com o início da Primeira Guerra, tornou-se impraticável enviar matrizes para a Europa ou para os Estados Unidos, e as gravadoras das redondezas, incluindo as da Argentina e do Uruguai, passaram a prensar seus discos por aqui. Começavam os anos de glória.

APENAS MAIS UM COGLIONE

Então ficou assim: até o cessar-fogo, A Eléctrica se tornou uma espécie de pólo da produção fonográfica sul-americana. O episódio mais célebre aconteceu em 1915, quando Francisco Canaro, o “rei do tango”, saiu de Buenos Aires, acompanhado por dois músicos, para gravar na capital gaúcha. A mediação do negócio foi feita por Alfredo Almendola, amigo argentino com quem Leonetti mantinha boas relações comerciais. Entre outros fonogramas, Canaro registrou El Chamuyo, que alguns julgaram ter sido o primeiro tango gravado na história.

Acontece que já se gravavam tangos na Argentina, desde 1902 (prensados na Alemanha e, depois, no Rio de Janeiro). Ainda antes da gravação de Canaro para A Eléctrica, um grupo de músicos cariocas havia registrado um tango pela Odeon, no Rio. El Chamuyo poderia ostentar, então, nas palavras de Arthur de Faria, o título de “primeiro tango gravado e prensado por músicos argentinos na América Latina”. Não parece muito impressionante. “Isso não daria manchete num dos maiores jornais argentinos, como deu a simplificação que acabou sendo meio que oficializada”, afirma Arthur.

Mas a importância da Casa, é claro, vai além. Em seu livro, Hardy Vedana deixa de lado essas controvérsias para privilegiar a importância da Casa A Eléctrica nos tempos da incipiente indústria fonográfica mundial. Como, por exemplo, na criação de um mercado regional efetivo dentro do Rio Grande do Sul. Visionário como poucos, Leonetti tomou a iniciativa de fabricar gramofones no Brasil, pois até então eles eram importados e caros, luxo para uma pequena elite. Com os gramofones nacionais, popularizou-se um novo costume (hoje evidentemente banal): ouvir música em casa. Leonetti lançou, então, o rótulo Discos Gaúcho, com as cores da bandeira do Estado e o desenho de um gaudério a cavalo. O modelo do desenho, segundo Vedana, era o gaúcho argentino. Os brasileiros nem perceberam a diferença.

Savério costumava percorrer a capital e cidades do interior em busca de talentos. A idéia era boa: vender discos gravados por “gente da nossa gente”. Foi em uma dessas andanças que descobriu um gaiteiro descendente de italianos que morava no atual distrito de Vila Ipê, nas proximidades do município de Vacaria. Seu nome: Moyses Mondadori. Mas ficou conhecido mesmo como “Cavaleiro Moysé” – o primeiro ídolo da música regionalista gaúcha. Gravou valsas, polcas e “trovas”. Além de ser artista dos mais prestigiados da Casa, trabalhou na seção de prensagem e foi por algum tempo diretor de A Eléctrica. “Muitos inclusive relacionavam o Cavaleiro Moysé ao desenho do homem a cavalo no rótulo dos Discos Gaúcho”, nota Vedana. Depois de casado, o gaiteiro voltou para sua cidade, onde ninguém acreditava que ele havia sido um pequeno astro da música. “Era natural, não havia gramofones por lá”, comenta o pesquisador e escritor Frei Rovílio, que chegou a conhecer Mondadori. Ele conta que, no final da vida, quando o músico se identificava orgulhoso como Cavaleiro Moysé, a reação dos conterrâneos era sempre a mesma: “Que Cavaleiro nada! É um coglione como todos nós!”.

DINHEIRO, MULHERES, FESTAS

Em um período relativamente curto, a Casa A Eléctrica montou um portifólio que contava com registros hoje históricos de artistas gaúchos, como Octávio Dutra e o grupo Terros dos Facões, assim como internacionais, a exemplo dos argentinos Roberto Firpo e Francisco Canaro. Tão grande era a dese de sucesso de Savério Leonetti que, ainda em 1915, protagonizou o que pode ter sido um dos primeiros casos de infração de direitos autorais na área da música no país. Ele havia produzido uma gravação da música Cabocla de Caxangá (de João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense) sem a devida autorização, que pertencia a Fred Figner, comandante da Casa Edison, no Rio. Não deu outra: Savério teve de pagar indenização a seu concorrente carioca. Apeser disso, como lembra Vedana, algumas malandragens permaneciam corriqueiras. “Era comum um produtor trazer discos de outros lugares e colocar o rótulo de sua própria casa, como se tivesse sido feito lá”, diz.

Com o fim da Guerra, no entanto, a era de ouro do disco no Rio Grande do Sul também encontrou seu desfecho. Novas fábricas de prensagem foram inauguradas na Argentina e nas proximidades, acabando com os privilégios de A Eléctrica – e da Casa Edison, no Rio. Para piorar as coisas, Savério tornou-se cada vez menos hábil na tarefa de equilibrar trabalho e diversão. “Ele era muito perdulário. Era muita festa, muita mulher”, diz Vedana. Apesar de seus méritos invejáveis, como visão de mercado e vocação para o marketing (havia transformado a inauguração da fábrica em um verdadeiro acontecimento), não teve jeito: na virada do ano de 1924 é decretada a falência da Casa A Eléctrica. Da fábrica, na Av. Sergipe, hoje resta uma das duas casas (que eram interligadas por um corredor). O local foi tombado como patrimônio histórico municipal, no final de 1996, e o próprio Vedana atualmente comanda a batalha pela instalação do Museu da Imagem e do Som de Porto Alegre por lá. “É a única fachada ainda existente no país de uma indústria voltada à fabricação de discos e gramofones”, afirma Gilmar Eitelwein, coordenador editorial do livro de Vedana e membro da associação em prol do museu.

A Eléctrica, no entanto, ainda vai dar muito o que falar. O filme que Gustavo Fogaça prepara, com produção de Beto Rodrigues, será uma história de amor (fictícia) protagonizada por Savério. Além de curiosidades, como a reconstituição do primeiro Gre-Nal, o filme vai sugerir – com a liberdade da ficção – que o primeiro tango e o primeiro samba foram de fato gravados em Porto Alegre. O diretor já se prepara para uma possível reação desmedida de pesquisadores do país e do exterior. “O fato de ter uma polêmica já é um ponto histórico importante”, afirma Gustavo. “Essa história caiu no meu colo meio sem querer, como uma espécie de missão.” E a Casa A Eléctrica, que até há pouco tempo estava ameaçada de cair no esquecimento, agora tem não apenas seu passado garantido, mas também o seu futuro.

[Por Fábio Prikladnicki, com colaboração de Ivan Dorneles Rodrigues ]

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