Uma intrépida bateria

Publicado em: 13/04/2009

Tempos heróicos foram vividos no final dos anos sessenta e início dos setenta pelos que acabaram sendo os pioneiros da TV em nosso Estado.

Quando a TV Coligadas começou suas transmissões oficiais, em 1º de setembro de 1969, a emissora criou uma Diretoria de Expansão, cuja missão era instalar o maior número de repetidoras no território catarinense.

E partiram os emissários televisivos, para contatar principalmente os prefeitos, propondo-lhes a parceria: a TV entraria com as imagens; a Prefeitura com a repetidora.

Natural que o interesse das comunidades era grande. E uma importante alavanca para este processo de instalar repetidoras foi um programa chamado “Municípios em Revista”, que Télvio Maestrini produzia e apresentava aos domingos no Canal 3, TV Coligadas de Santa Catarina, com sede em Blumenau.

Certa feita eu estava em Florianópolis, isto por volta de 1970, 1971, e uma pessoa me disse que recebia em casa as imagens da TV Coligadas de Blumenau com mais qualidade que as da TV Cultura, que era dali mesmo, da Capital.

Isto demonstrava a qualidade dos técnicos incumbidos de montar as repetidoras. Estas,  chegaram a muitas dezenas. Parece-me que passaram de cem.

A imagem da TV Coligadas chegava até São Miguel do Oeste. Para alavancar as linhas de retransmissão, existiam pontos definidos e um deles era o Morro do Funil.

O Morro do Funil localiza-se no Município de Mirim Doce, desmembrado de Taió em 1991. Seus 1.062 metros de altitude conferiam-lhe o status de ser um local privilegiado para receber as emissões da TV Coligadas e rebatê-las para o oeste do Estado.

Tudo isto me veio à lembrança quando eu conversava dia destes com um amigo, que reside há muitos anos em Blumenau.

Ele relembrou que, na adolescência, assistia a TV Coligadas no município de Agrolândia, onde nasceu e morava. Só que a energia elétrica ainda não havia chegado ao interior,  onde seu pai era lavrador. A solução era ligar a TV em uma valente bateria. E cabia à esta bateria a tremenda responsabilidade de gerar a eletricidade para as imagens aparecerem na tela.

E mais: a audiência tinha que ser racionada. A televisão só era ligada no horário do Jornal Nacional e da novela das oito. Mais que isso a bateria não  daria conta da tarefa durante a semana inteira.

E quando chegava o sábado, cabia à rapaziada da fazenda levar a dita cuja até um velho paiol, ligá-la a um motor a diesel, que demorava duas horas para arrancar, e efetuar o recarregamento… para mais uma semana de energia,  garantia de TV ligada.

Meu amigo confidenciou um segredo: como a TV Coligadas começava a transmitir ao meio-dia, eles ligavam naquela hora só para saber o que ia ser exibido. As transmissões começavam com a  programação do dia. E se tivesse um faroeste programado, adeus controle de energia. O bang bang tinha a preferência. E lá ia pro saco o Jornal Nacional e a novela da oito da sexta-feira.

À medida em que a carga da bateria ia ficando fraca, a tela ia encolhendo e de repente…puft, desaparecia!

Estão vendo? Não foram só os que fizeram a TV que vivenciaram momentos heróicos. Os espectadores, também.

1 responder
  1. Adalberto Day says:

    Belo artigo do nosso querido Carlos Braga Mueller, que sempre nos brinda com seus comentários, e sua experiência no Rádio e no pioneirismo da TV – Coligadas. Pra história esses relatos serão de suma importância, e para nós mesmo que vivenciamos a TV Coligadas canal 3 de Blumenau, as entrelinhas e muita coisa a gente não sabia.
    Parabéns amigo Braga Mueller.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história.

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