Uma vida

Publicado em: 04/01/2012

Na primeira vez, me pareceu algo inerte, inanimado. Uma hora depois, percebi um frêmito, um leve tremor, as asas quase transparentes ensaiando uma reação, um sutil movimento para o lado, um esforço para não sucumbir. Coloquei-o na palma da mão, tentando intuir melhor o que se passava. A impressão é de que faltavam uma ou mais patas, mas o calor da pele, em vez de confortá-lo, incomodava o inseto – uma mariposa, uma pequena borboleta, não sei. É o fim, pensei, não há o que fazer, tudo se esvai, imagine a existência de um ser deste tamanho, um nada neste mundo tão vasto.

Teria sido vítima de um predador, do qual se desvencilhou, ou ingeriu algum veneno, talvez essas comidas que os humanos engolem sem saber o mal que fazem? Cogitei que todos os bichos têm um tempo de vida, e quando este acaba o fim vem ao natural, sem apelação nem resistência.

Contudo, havia ali a tentativa de recobrar alguma coisa, quem sabe a capacidade de voar, quem sabe a força para chegar onde havia água ou algum lenitivo para aquela agonia. Me arroguei, na tarde daquela quinta-feira, o direito de também lutar, porque uma vida estava em jogo – ínfima, mas uma vida.

E voltei mais vezes àquele banheiro, até sem outra necessidade, porque não aceitava tal desenlace. E foi com tristeza que vi a noite chegando, a impotência, a inoperância da vontade. Como seriam as horas seguintes, aqueles espasmos, aquele desejo instintivo de permanecer, mesmo que a hora fatal estivesse se aproximando?

Pensei que a janela seria o melhor destino, quem sabe a redenção pela liberdade, ainda que a um preço elevado. Mas seria o mesmo que jogar um cervo aos leões, as pessoas e os carros passariam por cima. E o frio da madrugada estava chegando, naquela semana atípica, de ares gelados em pleno verão tropical.

Lembrei-me da formiguinha de Quintana, que toda noite atravessava a mesa do jantar, sempre pela mesma hora, e que um dia não apareceu, e deixou para sempre de cruzar a imensa mesa do jantar, levando o poeta a se perguntar sobre o paradeiro de sua companhia noturna. Teria se afogado numa gota de orvalho? Cogitou outras hipóteses, para nada concluir, porque as possibilidades eram numerosas – e sempre insatisfatórias.

No dia seguinte, tendo chegado mais cedo, não encontrei vestígios do objeto de minhas inquietações. As faxineiras executaram o serviço que eu não fizera, para abreviar tudo. Agora, a imagem do inseto trêmulo, agonizante, é menos dolorida, mas permanece impassível, presa nas paredes da memória.

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