Vida breve

Publicado em: 09/11/2011

Ele chegou à escola por volta das 7h15 com um canivete no bolso, e foi puxando briga já na fila de entrada. Esbarrou de propósito em um desafeto de nove ou 10 anos, que era desafeto só no seu conceito, porque nada fizera até então além de algumas brincadeiras por causa do futebol, do time do coração, das meninas da classe, essas coisas que todo moleque abraça e pelas quais alimenta alguma paixão ou simpatia. O outro fingiu que não era com ele, mas a provocação continuou, até que alguém chamou a atenção do guri – que prometia dar trabalho extra naquela manhã.

Dentro da sala, começou a falar alto, xingou mais dois ou três, desafiou a professora e disse que fazia questão de ser chamado para a secretaria. Lá, advertiu, mandaria a orientadora, o coordenador pedagógico, a diretora, quem quer que fosse, para o inferno, porque não nascera para receber ordens, reprimendas, nada que mexesse com o seu orgulho. E mais: se fosse preciso, chamaria o irmão mais velho, notório traficante na redondeza, de quem era ídolo e ao qual se juntaria um dia, quando tivesse idade e músculos para tanto.

A professora, temerosa de alguma tocaia ou retaliação, não levou o desafio a sério. Ele acabou se acalmando, baixou o tom da voz, pegou o caderno, nenhuma tarefa feita, nenhuma resposta dos pais ao bilhete da mestra sobre seu comportamento e sua preguiça em copiar o conteúdo do quadro negro.Assim se passaram aquele ano e o seguinte, até que numa manhã ele apareceu com uma faca na mochila. Foi uma confusão, pensaram em chamar a polícia, mas a direção achou por bem tolerar mais esse deslize e apenas pediu providências à família. Até que ele entrou na sala cochichando para um colega que trazia uma arma na bolsa, mas que não avisassem ninguém, era apenas uma prevenção para as ameaças que sofria. Não havia ameaças, porque ninguém tinha coragem para desafiá-lo ali e nos arredores…

Quando a direção descobriu a arma, sabe-se lá de que maneira, foi um escândalo. Correria, desespero nos corredores, telefonema para a polícia, gente perdendo os sentidos. A viatura chegou, crianças de olhos arregalados, pais surgindo do nada para ver o que estava ocorrendo. O rapaz foi levado, prestou depoimento e acabou liberado, não sem uma admoestação à família, incluindo o irmão mais velho, com pose de vítima.

Um dia, ele saiu da escola, porque nada mais havia a fazer ali. Não se soube mais de seu paradeiro. Há duas semanas, numa refrega com a polícia, morreu com quatro tiros no abdômen, na flor de seus 15 anos.

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