Vida longa ou “vida louca”?

Publicado em: 03/09/2015

Havia dois gatos pelas ruas. Para alguns abandonados, para outros simplesmente livres.

infanciaNa verdade há muitos gatos e cachorros soltos por aí. Existem pessoas que parecem não ter “coração”, largar seus animaizinhos quando bem entendem. Demonstram que nada entendem sobre sentimentos e amizade.

Quanto aos dois gatos mencionados no início, um se chama Zé, o outro Fred. Ambos andavam como bem entendiam. Vida boêmia. Noites de farra.

Muitas gatas. Brigas não faltavam, mas nada tão grave, não usavam armas, não eram covardes, não atacavam pelas costas ou sem motivos. Pular o muro era sua rotina diária, ou noturna. Sempre havia uma gatinha lá do outro lado, se desse briga não seria a primeira nem a última, tomara que não. Comida eles encontravam, de fome não morrem. Zé e Fred não eram amigos, nem colegas, cada um na sua.

Quando amanhecia eles deixavam os contatos felinos e partiam para o contato humano, de tolos não têm nada. Numa barbearia onde sempre encontravam uma linda manicure encontravam também comida e carinho. E o carinho vinha de várias pessoas. As clientes gostavam de ver aqueles “vagabundos” se enroscarem entre suas pernas, se jogarem no chão, e mais carinho, mais afago, mais mimo e claro, comida, ração de boa qualidade. Nem os homens resistiam às carinhas e aos miados do Zé e do Fred. Mas eles nunca chegavam juntos. Parecia combinado.

Um dia alguém deu a ideia que para alguns parecia brilhante, já para outros chocante. Por que não ouvir a opinião do Zé e do Fred já que o assunto é tão importante. Se fosse comigo, juro que gostaria de ser consultado.

A ideia. Se continuassem nas ruas correndo todos aqueles riscos e sem os devidos cuidados provavelmente os gatos teriam uma vida curta. Uma “vida louca”, cheia de aventuras, mas curta.

Agora, se fossem castrados poderiam ser adotados, morar numa casa ou apartamento quentinho e confortável e por muito tempo, mas sem as aventuras, sem as emoções e sem os…

Não deram a eles a oportunidade de escolha, de refletir (como se fosse necessário nesse caso), simplesmente decidiram por eles.
Não foi possível impedir. Foi difícil engolir, imaginar. Quantas decisões tomamos em nossa vida e simplesmente arcamos com as consequências, boas ou não. Mas fomos nós quem escolhemos. O Fred está há 3 anos morando num belo apartamento onde também há outro gato na mesma condição. Lar confortável, boa comida, veterinário, vida de príncipe.

O Zé deu no pé. Deve ter ouvido a conversa ou por coincidência sumiu por algum tempo. Uns 6 meses depois voltou a barbearia. Aparece lá todos os dias, ganha comida e muito carinho. Elas costumam dizer ao Zé de maneira carinhosa o que não dizem aos homens: “Por onde você andou seu vagabundo. Deve estar com fome meu amor, ah, vem cá vem, deixa eu te dar um carinho. Agora coma sua ração e vá deitar naquela cadeira, deve estar cansado da bagunça dessa noite”.

Quem será que está mais feliz? Outro dia o dono do Fred passou pela barbearia com ele no colo e bem no momento em que o Zé estava recebendo toda atenção depois de uma noite daquelas. O primeiro encontro deles na barbearia. O Zé olhou para o Fred no colo do seu dono. O Fred olhou para o Zé se esfregando nas pernas das clientes. Não emitiram som nenhum. Mas como eu queria perguntar se eles gostariam de trocar de lugar. Uma vida longa e confortável ou uma vida possivelmente curta, mas carregada de emoções. Por enquanto só se passaram 3 anos. Não da pra imaginar o Zé passando dias e noites naquele apartamento. E menos ainda o Fred pulando um muro, olhando uma gatinha e se perguntando: “E agora?”

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