Vila Palmira – 1

Publicado em: 31/08/2013

Música  | Ilha de meu som | Primeiras canjas

Márcio Santos

Outro local, onde muitos músicos tiveram suas primeiras experiências musicais (e não só) foi a saudosa zona de meretrício Vila Palmira, em Barreiros/São José. Aqui, vou omitir nomes para evitar constrangimentos, mesmo que não me envergonhe de tê-la frequentado e dado minhas primeiras canjas, entre meus quinze e dezessete anos de idade. Havia uma dupla de amigos meus que tinham contrato na Boate Coelha – e Mazzola e eu, menores de idade –, os acompanhávamos n’algumas noites. Quando batia a polícia, tínhamos duas alternativas: ou nos escondíamos nos quartos das “meninas” ou pulávamos a janela para os fundos do palco, cujo lamaçal nos cobria até os joelhos.

Na primeira vez, optamos pela segunda alternativa, o que nos impediu de voltar à boate pelo estado lamentável em que nos encontrávamos: lama pura! Depois, mudamos de estratégia, pois naquela noite voltamos para Floripa a pé, já que nem os taxis aceitavam nos servir, pelo barro de nossas roupas.

Uma figura impar era um marinheiro apelidado de “Biguaçú”, de quase dois metros de altura e músculos de halterofilista. Apesar de cantar mal, meus amigos sempre ofereciam o microfone para ele cantar, o que, no começo, estranhei. Quando estourou a primeira briga no local, entendi o procedimento deles: Biguaçú se colocava em frente ao palco e impedia qualquer um de se aproximar da banda, distribuindo porradas e defendendo os músicos.

Muita gente boa tocou um dia ali, ou em outras “bocas” como a gafieira do Laudelino, Sandália de Prata, Night & Day, etc. Aliás, muitos anos depois, foi o trabalho na Sandália de Prata que possibilitou que Neno e Landinho alugassem uma casa na Armação do Pântano do Sul, onde a banda Phoenix ensaiou por um tempo, fazendo apresentações no salão paroquial da Armação em bailes super-animados. A boate tinha características próprias, ficava onde era a antiga Radio Guarujá, e onde aconteciam casos raros (no final da rua João Pinto, Centro).

Havia uma fazendeira, do interior do Mato Grosso, que fretava, vez ou outra, um avião, trazendo seus empregados e amigos para passar uma noitada na Sandália. Pelo poder econômico, seus pedidos eram uma ordem, a nossa banda, que era de rock, se desdobrava para atender seus pedidos, improvisando canções bregas, quando chamávamos os clientes para cantar, já que não conhecíamos nada daquilo. Uma streeper, lindíssima, era nossa musa; sempre deixava claro que não fazia programas, desde que se tornara mãe, e teve casos relâmpagos, primeiro comigo, depois com o Neno, mas continuou nossa amiga até deixarmos a casa.

Por causa dela, que muitos achavam que só dava bola pros músicos, certa noite, ao sair da boate, encontramos o fusca quatro portas do Neno sem os parafusos de uma das rodas e, se não descobríssemos a tempo, teríamos tido um grande desastre, pois nosso destino era a Armação. Só que o sacana não lembrou que, tirando um parafuso de cada roda e colocando-os na roda em que faltavam todos, o veículo ficaria em condições de andar.

Mas chegou a noite em que fomos expulsos da casa: uma streeper, que começava seu número vestida de noiva, fazia sua performance, até a hora de tirar o sutiã. Seus peitos enormes, caindo de encontro à barriga, fez um barulho tão alto, mesmo em meio à música, que caímos numa gargalhada incontida, apelidando a moça de “streeper bola murcha”. Por mais que tentássemos disfarçar, o proprietário não gostou de nossa atitude e nos dispensou.

Sem grana fixa para pagar aluguel, deixamos a casa da Armação e voltamos a ensaiar na casa do Neno, na Agronômica. Paulo Mazzola, um dos melhores baixistas que Floripa já teve, conta duas historias interessantes a respeito da Vila Palmira e da Sandália:

O Cabral e o Tocinho tocavam na Boate da Sônia e por isso nosso conjunto, “Os Estranhos” usava a Boate para ensaiar durante à tarde. Eu tinha recém entrado no conjunto, deveria ter uns 15 anos no máximo. O Cabral nessa época era funcionário do Hospital Celso Ramos e num determinado dia, por ele estar de plantão pediu para eu ir  substituí-lo na boate.

Fiquei preocupado por não saber o que fazer, pois eu não cantava nada,  mas o Cabral me tranquilizou dizendo que o Tocinho cantaria; só que, chegando lá,  descobri que o Tocinho cantava,  mas só uma música e, assim, começamos a noite tocando essa única música do “nosso” repertório e já pensando como a gente ia fazer quando esta única música acabasse.

O Tocinho, mais experiente do que eu, ao acabar a música, anunciou: “vamos repetir esta música à pedidos” e assim fomos levando até que lá pela décima “repetição”, quando os fregueses notaram que nosso repertório era de uma só música, a Sônia achou melhor ligar uma vitrola p/continuar a noite e nos mandou embora.

Se bem me lembro, depois dessa nossa magistral apresentação a Sônia proprietária da Boate achou melhor tirar os músicos definitivamente e usar sua vitrolinha para garantir o sucesso de sua casa. O Cabral encerrou ali sua trajetória de músico de zona, eu nem comecei a minha e a banda perdeu seu local de ensaios”.

Segunda: na Sandália de Prata,  o conjunto da casa na época tinha o Sr. Arcindino na guitarra que era cego e não gostava de mim. Uma noite cheguei na Boate “a mil”e resolvi dar uma canja justamente para o dito cujo. Ele relutava e não deixava, pois dizia que eu era maconheiro e maconheiro não tocava na guitarra dele. Tanto aporrinhei que ele resolveu deixar. Colocaram ele sentadinho num sofá que tinha num canto e eu fui dar a amaldiçoada canja.

Para meu azar na segunda música quis o “destino” que a primeira corda da guitarra arrebentasse, continuei tocando como se nada tivesse acontecido e no intervalo deixei a guitarra num cantinho, saí bem de mansinho quase levitando e sentei alí perto também só para ver o que ia acontecer. Eu nem respirava.

Quando ele passou a mão na guitarra e sentiu que faltava uma corda o velhinho foi à loucura e gritava: “onde está aquele maconheiro f.d.p., eu mato ele”. E eu ali, num cantinho, assustado vendo aquela cena e pensando em como eu era azarado.”

Até hoje não entendo por tantos colegas se recusam a falar sobre esta fase de suas carreiras, pois acho que nada há para se envergonhar das passagens pelas casas “de meninas”, que nos deu tanta experiência, tanto musical quanto de vida.

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