Vôo conturbado num Douglas DC-3

Publicado em: 15/07/2007

Já tive oportunidade de narrar – em meus livros e aqui – algumas peripécias que marcaram a saudosa trajetória nos belos tempos do rádio de 1950. Muita coisa nos deixa até hoje nutrindo imensa saudade daqueles belos tempos.
Por Agilmar Machado

Tivemos colegas e amigos nos meios radiofônicos e jornalísticos que, cada vez mais, nos trazem a saudade de momentos os mais inusitados: por vezes dramáticos, de outras alegres e na maioria jocosos, pelo simples fato de quase não existir, nos meios (especialmente radiofônicos de então) a palavra tristeza. Às vezes, no maior miserê, repartia-se a desgraça com algum colega: rachávamos o tostão ao meio, se preciso fosse…
Um dos mais diletos amigos surgidos nos tempos da Rádio Difusora de Laguna, André Martins foi uma figura fenomenal. Lagunense até a medula, trabalhava no quadro de comando da usina da Companhia Siderúrgica Nacional (depois Sotelca, Eletrosul e hoje com outra detentora), de Capivari de Baixo.
A paixão dele pela Rádio Difusora era imensa , tanto que acabou nomeado como representante dela na praça de Tubarão. Incrível, como corretor. De certa feita apareceu ele com várias anotações e contratos destinados a gravações de jingles e spots. Nós, particularmente, já tínhamos passado pela experiência de gravar em Porto Alegre, no Serrão Vieira (Edifício Sulacap, sexto andar, na Borges de Medeiros). Não dava retorno desejado: eram muitas Mônicas (Menino Deus), Dorinhas (perto do Hotel Guaporense) e Verinhas (na Azenha), onde belas mulheres formavam verdadeiro “conglomerado”, e voltávamos quase sempre tendo de ressarcir prejuízos das zonzeiras noturnas porto-alegrenses. Contamos isso ao André e ele já tinha a solução na ponta da língua: vamos até Joinvile, à Rádio Difusora, ZYA-5, onde o Brosi, proprietário, já está com equipamento bastante eficaz.
Lá conhecemos o Jota Gonçalves, com quem mantivemos desde então uma sólida amizade. Ele gravava conosco e nós participávamos dos seus acetatos, sempre em duo. Tudo batia, elas por elas. Como tínhamos convênio com a TAC- Cruzeiro, sugeri ao André que fôssemos de avião até Navegantes e de lá em ônibus até Joinvile. Seria seu “batismo” a bordo de um avião. Chegados ao aeroporto, informei no balcão que seria seu primeiro vôo: ficha vermelha pra ele (que se entregava na entrada da aeronave e os comissários já ficavam de olho no redomão…)
Na hora de escolher a poltrona, André já me mandou para a janela para não precisar conferir a altura em que ia ficar dali pra frente… Na decolagem ele esticou-se todo, quase rebentando o cinto de segurança. Ao redor da boca, um círculo meio roxo denunciava seu pavor. Na região entre Florianópolis e Itajaí, vieram as bandejas de almoço: um sanduíche reforçado com ovo estrelado e outros complementos, inclusive uma maçã Argentina de sobremesa. Ele olhava como eu procedia para fazer o mesmo. Bandeja recebida, baixava-se um suporte onde se a assentava.
Na segunda passada o comissário trouxe a bandeja do André. Precisamente no momento em que ele, com os cotovelos semidobrados, recebia a bandeja, uma turbulência fez com que o vácuo levasse o avião para baixo por uns trinta metros.
Foi algo deplorável esse vácuo repentino: André ao sentir seu estômago na goela, instintivamente levantou os braços, e o conteúdo do bandejão foi parar no rosto e no fino traje de um casal do banco de trás: ao marido coube receber na testa uma maçã, que depois sairia rolando (pra frente e pra trás) pelo estreito corredor rebaixado do Douglas; a mulher (minha nossa!) recebeu a explosão do ovo em pleno rosto, escorrendo a gema mal passada por cima de seu vestido impecável. Armou-se o barraco e, em Navegantes, quase que tivemos que sair fugidos da fúria da madame lambuzada e seu marido engomadinho… O comissário, diplomaticamente, nos salvou o “pêlo”…

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