Vulcões, aviões

Publicado em: 28/10/2011

O céu florianopolitano ganhou um tom estranho, quase sinistro, lá pelas tantas da tarde. O vulcão Puyehue, disseram, era o culpado. Mas poucos pensaram no fenômeno em si, nos aviões parados, na população do entorno sufocada pelo pó que vinha das entranhas da terra. A preocupação era com as cinzas que maculavam a lataria, a despesa extra com a lavação, aquelas manchas incômodas que precisavam ser removidas a qualquer custo. Houve até quem, com medo da execração alheia, tenha escrito “Chile” no capô, como a justificar tamanho deslize. Meu carro, que vê água só no Natal, manteve o aspecto desleixado de sempre. Contra ele, coitado, a poeira chilena pouco fez, se superpondo à sujeira acumulada de dezembro para cá.


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Após entrevistar alguns moradores das antigas, fiquei pensando como eram os anos em que os hidroaviões desciam no mar da baía sul, próximo ao Mercado Público. Quem viveu esses dias conta que os passageiros desembarcavam em uma lancha, vinham até um trapiche e dali saltavam para a terra firme. Até Assis Chateaubriand fez isso, na surdina, quando fugiu para o sul do país, acossado pelo governo de Washington Luís. Depois, às escondidas, ele se esgueirou até São Joaquim, onde foi acolhido pelo fazendeiro Cesar Martorano, que passou para a história como o homem que salvou a vida de um dos magnatas da imprensa brasileira.

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As festas de outubro estão cada vez mais sofisticadas, atrativas, bem organizadas. A Oktoberfest é um show – para quem gosta daquela balbúrdia, é claro. Um único reparo: o caos dos banheiros masculinos, infestados pelo mau cheiro e pela má educação dos usuários, que urinam em qualquer canto, no chão e nos compartimentos de lixo. Aproveito para dar uma sugestão: não vendam batata recheada com carne de terceira. Em Blumenau, sábado, paguei caro por uma, da qual só aproveitei a batata e um pouco do recheio, porque a carne era só gordura. Um ponto contra a festa, que de resto é um modelo de profissionalismo.

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Por acaso, dias atrás, me lembrei da boa programação de filmes na tevê aberta até os anos 90. As sessões da tarde não eram tudo isso, mas à noite e nos fins de semana havia o que assistir. Hoje, nada há além de lutas marciais, tiros entre policiais e bandidos e heróis de mentirinha salvando cidades, países e o mundo de supostos vilões planetários. Há horas em que nem os canais pagos se salvam. Você pode suspirar por Marilyn, Ingrid e Audrey, mas é brindado com canastrões espalhando sopapos para todos os lados.

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