Wagner Mendes: o grande responsável pelo sucesso dos artistas é o rádio

Publicado em: 29/05/2006

Ouço falar de Wagner Mendes há muito tempo. A curiosidade de conhecer o nosso – agora – John Peel sertanejo vinha aumentando roporcionalmente ao crescimento da Tupi FM (104,1 MHz/São Paulo). O interesse não era só meu e do RA: colegas profissionais de diversas áreas (rádio, publicidade, indústria do disco) cada vez mais me cobravam com freqüência essa entrevista.
Por Enio Martins

Pois bem, leitores do RA e colegas que me cobram há muito: o homem falou. Diplomático mas sem medo de pisar em ovos, Wagner Mendes contou tudo sobre o fenômeno Tupi FM.
 
Rádio Agência – Antes de começar a falar sobre a Tupi FM, vamos voltar no tempo: Que tipo de música você gostava de ouvir no carro? Era sertanejo mesmo?
Wagner Mendes – Na verdade, a música sertaneja, se tornou presente na minha vida pessoal e profissional a partir do momento em que assumi a Tupi FM em 1999.
RA – E por quê é que esse gosto sertanejo apareceu? Foi sugerido por alguém?
WM – Vim da Rádio Cidade,fui diretor artístico de lá e recebi o convite para dirigir a Tupi FM. Já sabia que era uma rádio sertaneja.Como na minha vida sempre procurei buscar atalhos para ser diferente, melhorei a plástica da rádio e a metodologia de trabalho da emissor. E assim ela teve um crescimento muito grande. Tive que adaptar muito o meu ouvido. Na verdade, era longe de ser um profundo conhecedor de música sertaneja e nem me considero até hoje um grande conhecedor…
RA – Só por curiosidade: o ouvido do Wagner Mendes cai mais pra onde? Pop Rock?
WM – Hoje até a música sertaneja já faz parte…
RA – Mas e antes?
WM – Sempre fui eclético. Mas sempre gostei mais do Pop/Rock.Mais para o pop do que para o Rock na verdade.
RA – Voltando à Tupi,como você encontrou a rádio quando chegou?
WM – Peguei uma rádio em 19º lugar, sem metodologia de trabalho.Uma rádio que não tinha uma plástica, que por ser sertaneja, o locutor tinha que ser caipira. No pior sentido da palavra! Então a gente transformou a Tupi FM numa rádio sertaneja moderna, com plástica moderna, com apresentação de locutores que falam o português correto, que tem comunicação de locução de FM de São Paulo.
RA – Foi difícil driblar os locutores descontentes? Ou seja, os locutores antigos que tinham espaço na rádio e tocavam o que bem entendiam.
WM – A programação da rádio era feita um pouco pelos locutores mesmo. Mas quando você deixa claro a sua forma de trabalho, tudo se resolve.Acho que ninguém é unânime, por mais que sejamos profissionais. Acho importante deixar tudo claro.As pessoas automaticamente percebem se elas se enquadram ou não no seu squema. Eu tenho uma regra definida e, no momento em que assumi, chamei a equipe inteira. Naquele momento tínhamos mais uma dificuldade: todos os horários estavam locados, os locutores compravam duas horas da rádio por exemplo…
RA – A coisa era mais complicada ainda.
WM – Sim!Porque mexia com pessoas que, apesar de não terem qualidade tão boa como locutores, eram pessoas sérias que compravam esses horários. Tínhamos que honrar, cumprir até o último dia desses contrato.
RA – Embora esses contratos ainda estivessem em vigência e você tivesse que respeitar até o final, qual foi o método musical que você adotou no início? Tocar só sucessos?
WM – Desde o princípio, tive na cabeça o seguinte: o ouvinte (da Tupi FM) gosta de música sertaneja. As pessoas gostam de música sertaneja boa, não importa quem canta. Primeiro coloquei os sucessos que a rádio não tocava. Porque antes ficava aquela coisa pessoal,”eu gosto dessa música, eu toco essa música, o locutor gosta dessa música, ele toca essa música” sem saber se agrada de verdade ou não e ele impondo isso para o ouvinte! Quando cheguei a metodologia que usei foi tocar realmente aquilo que os ouvintes querem e gostam de ouvir. Passei a tocar aquilo que é novo. Mas a gente acaba tendo um “feeling” para ter a percepção de saber se aquilo é bom para o ouvinte ou não. Outra dificuldade era que os artistas sertanejos de 1999 que faziam sucesso no Brasil eram Zezé di Camargo e Luciano, Chitãozinho e Xororó, Leandro e Leonardo e o Daniel.E não tinha mais! E aí? Como você faz uma rádio sertaneja com quatro artistas?
RA – E como você sabia o que era sucesso ou não? Era você e os programadores? Pesquisa?
WM – Para conhecer aquilo que já tinha sido sucesso eu tive que ouvir as pessoas que trabalhavam na rádio e que conheciam mais do que eu. Também acho que sempre tive ouvido médio, bom para perceber o que é sucesso e o que não é. Mesmo dentro dos segmentos que já trabalhei, como o pagode por exemplo. A Tupi FM foi a rádio que modernizou a música sertaneja em São Paulo. Uma música que não tocava em São Paulo naquele momento. A Tupi FM foi a rádio que descobriu os artistas que já faziam sucesso relativo no Brasil mas não faziam em São Paulo: Bruno e Marrone, Gino e Geno, Teodoro e Sampaio, Edson e Hudson…
RA – Quanto tempo levou para a Tupi sair do 19º lugar e parar na liderança? Vamos lembrar que isso foi um dos recordes na história do rádio, subiu muito rápido. Você deve ter detalhes disso.
WM – A velocidade maior foi quando ela saiu de 19º lugar para 4º lugar: subiu em seis meses.Depois tivemos mais uns dois anos de trabalho para chegar na liderança. Hoje são quase dois anos em primeiro lugar…
 
RA – Foi uma coisa que surpreendeu você também?
WM – Me surpreendeu porque era música sertaneja em São Paulo. Como ela é pouco difundida não sabia qual era o limite dela, né? Não era uma coisa que já era feita. Quando peguei a Tupi até o mercado falava para mim que eu era louco de fazer uma rádio sertaneja, que não iria chegar a lugar nenhum.
RA – O departamento comercial sempre foi um problema na rádio. Como você lida com essa eterna coisa do artístico vs. comercial? Você também vende as promoções, os shows? Como isso funciona dentro da Tupi?
WM – Vou te falar uma coisa que bem minha:ouço falar que o departamento artístico não se dá muito bem com o departamento comercial ou vice-versa. Mas para mim não é bem assim. Em todas as rádios que trabalhei, Transamérica, Rádio Cidade, Rádio Cidade de Portugal e na Tupi FM, sempre me dei muito bem com a área comercial. Cada um dentro do seu objetivo. Nosso objetivo é fortalecer a rádio em audiência para que tenha produto para o departamento comercial vender.E o departamento comercial também tem que trazer dinheiro em função desse produto: não adianta a gente ter uma rádio em primeiro lugar sem que rentabilidade.
RA – Mas você tem uma força dentro do departamento comercial, tem o artístico bem colado no comercial. È você que cuida das promoções, dos shows? Começa tudo com
você?
WM – Sem dúvida, mas a gente se dá muito bem.Procuro orientar não só o departamento comercial, mas também os clientes. Porque em função da experiência que a tenho na área artística e promocional afirmo que o único objetivo é dar o melhor resultado para o cliente. Às vezes o cliente tem uma idéia mas ela não está bem administrada ou desenvolvida. A gente ajuda a pegar essa idéia, valorizar e mostrar onde o cliente pode estar errando. Suprir as deficiências em função da experiência que temos. Tenho relação muito boa com todos e, apesar de eu não interferir na área comercial – e a área comercial não interferir no artístico, há a a consciência que um precisa do outro.
RA – Quando o Cauby Peixoto vai fazer um show tem que cantar Conceição, senão não deixam ele sair do palco. Vou te fazer uma pergunta que já devem ter feito a você muitas vezes: você virou empresário do Edson e Hudson, descobriu os dois. Como é ser diretor de uma rádio popular que é primeiro lugar no IBOPE e lidar com ser diretor artístico e empresário de artista que toca na mesma rádio?
WM – Na minha visão é tranqüilo isso. Porque primeiro se trata de um artista que hoje eu considero como um segundo artista, dentro da música sertaneja.È a segunda dupla do Brasil hoje, colocando Bruno e Marrone em primeiro lugar. Acho uma satisfação trabalhar numa rádio sertaneja e poder tocar um produto que, por acaso, sou empresário e que tem uma grande aceitação dos fãs que ouvem a rádio. Tem um lado muito interessante, porque acabo vivenciando mais este segmento. Seria mais complicado, por exemplo, ser diretor de uma rádio sertaneja e empresário de uma banda Pop/Rock. Eu teria mais dificuldade para me envolver porque seria um mercado que eu não estaria sentindo. Para mim dirigir uma rádio sertaneja e ser empresário de uma dupla dessa importância é muito honroso, é importante ter esses dois resultados diferenciados.


Edson e Hudson

RA – Pergunto isso porque fico imaginando a romaria que deve ser de empresários de duplas e artistas sertanejos atrás de você que deve ter virado uma espécie de “Papa” para eles…
WM – Eu não confundo uma coisa com a outra.Tenho a convicção que o mercado precisa de vários Bruno e Marrone, vários Edson e Hudson, vários Rio Negro e Solimões. Estou, como diretor artístico, abrindo espaço para as duplas. Em nenhum minuto eu prejudico ou deixo de dar espaço para uma dupla que esteja chegando em benefício do Edson e Hudson, muito pelo contrário. A música sertaneja precisa de um movimento, não de um único artista. Fico feliz de poder colaborar com o mercado. Você falou uma coisa muito importante: sinto que as pessoas tem um respeito e carinho muito grande por mim. Tem coisas que ouço que até me deixam num primeiro momento assustado. Às vezes a pessoa senta na minha frente e diz “Me ajuda a escolher o repertório para o meu disco, você é o cara que mais entende de música sertaneja”. Para mim é muito estranho isso, porque eu conheci a música sertaneja de 99 para cá! Me sinto com uma responsabilidade muito grande de colaborar com vários artistas e fortalecer o segmento, entendeu?
RA – Mudando de assunto: a Nativa vem anunciando a subida dela, entre segunda-feira e sexta-feira, como líder de audiência. É isso mesmo? Isso te preocupa?
WM – Vejo pelo seguinte lado: a gente só melhora com a concorrência. A única coisa que a gente discorda é a forma que a Nativa vem anunciando essa liderança. Na verdade eles estão em primeiro lugar de segunda à sexta das 06h às 19h. A Tupi FM é líder no geral.Se a Nativa quisesse anunciar que ela é primeiro lugar, deveria falar em qual faixa horária ela é primeiro lugar. E ela não está anunciando. Já conversei com o IBOPE. E o IBOPE já informou à Nativa que eles não podem falar dessa forma. O diretor da Nativa, Marcelo Siqueira, é um grande amigo, sei do potencial dele como profissional e respeito demais os concorrentes porque nos fazem crescer. O rádio em SP chegou num nível profissional muito bom. Isso daqui é que nem corrida de Fórmula 1: brigamos na pista e, na hora que chegamos no podium, a nos abraçamos. Porque independente de ser primeiro, segundo, terceiro lugar, numa cidade como 18 milhões de habitantes todas essas posições são super privilegiadas, entende? Só chega quem tem muita capacidade e trabalho.
RA – Quero que você fale sobre os anunciantes da Tupi FM hoje.
WM – O que percebo é o seguinte: se todos pensam que a música sertaneja é coisa de pessoas simples, porque é popular, estão bastante enganados. Segundo pesquisas, 70% do público que ouve a Tupi FM é ABC. É um produto popular porque ela atinge muitas pessoas. Mas a música sertaneja atinge todas as faixas etárias e perfis: atinge a criança, o adolescente, o jovem, o adulto, o idoso. E da mesma forma isso acontece com os anunciantes. Temos grandes anunciantes nacionais, bancos, empresas internacionais de cosméticos, enfim, a rádio tem um nível de anunciantes excelente.
RA – Para encerrar, deixe um recado para o mercado.
WM – Dou os parabéns para o mercado de SP: é um mercado muito disputado.O rádio que tem a força de fazer os artistas da música, seja qual for o segmento. O grande responsável pelo sucesso dos artistas é o rádio. O rádio tem que valorizar muito isso e olhar com muita responsabilidade também.
Site relacionado:
http://www.radioagencia.com.br/


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