A ambigüidade é o X da questão

Publicado em: 06/03/2010

A XFM entrou no mercado disposta a conquistar uma minoria “culta e exigente”. Mas desconfiou que ela fosse pouco numerosa para satisfazer a sua gula e resolveu convidar mais gente para a festa. O resultados foi a criação do “slogan” “para uma imensa minorias” – com o qual dificilmente alguém se identifica. E de uma programação que corre o risco de ter o mesmo destino.

O formato de programação “adult contemporary”, que a XFM tenta trazer para Portugal, é, reconhecidamente, o mais difícil de realizar. Destina-se a adultos jovens (dos 20 anos aos 40 anos) que, embora tenham mudado de faixa etária, não deixaram de se interessar pelo “rock” o “pop” e pela música atual. Difere, no entanto, das rádios que tocam “sucessos”, por uma seleção mais rigorosa em termos de qualidade.

A XFM, de fato, toca boa música, mas sabe-se lá quando vai executar a que lhe agrada. Os ouvintes de 20 anos vão cansar-se da monotonia de longos períodos de programação, muito próximos da “beautiful music”, ou “música de elevador”, como ironicamente a caracterizaram os americanos. Os de 40 vão arrepiar-se várias vezes ao dia com ritmos saltitantes como “tchno” e “acidjazz”. Entre uns e outros estão os que teoricamente poderiam interessar-se por essa variedade: esses terão que ajustar seus estados de espírito aos vividos, a cada momento, pelos programadores.

Para uma emissora destinada a melómanos, como pretende ser, a “X” precisava ainda de reforçar a qualidade técnica da emissão. Pelo menos em Lisboa, o “stereo” tende a desaparecer dos receptores conforme a região da cidade.

O volume de publicidade da XFM é pequeno, com distribuição bem dosada. A iniciativa de abrir espaço comercial a movimentos alternativos é simpática. Mas outras promoções da emissora são menos felizes, como a de pedir que os ouvintes escrevam solicitando música para o “triplex”: esse tipo de proposta está longe de apanhar a elite.

Quando a música dá lugar à palavra, o tom “X” é suave, o ritmo calmo, tudo muito apropriado a se dirigir a quem não gosta de receber ordens. Os problemas encontram-se no conteúdo: anunciar uma entrevista, depois picá-la em trechos de cinco minutos, a continuar no dia seguinte, é fazer pouco do público. Também a idéia de substituir a informação por outros tipos de texto, em princípio arrojada, só tem exposto a emissora ao ridículo: esboços pretensamente literários, apresentados como “argumentos” com musiquinha ao fundo, mais parecem composições de liceu. Ignoram os mais elementares princípios da linguagem radiofônica, para não falar em estética e bom gosto.

A desculpa de que “não há no mercado” quem faça esse tipo de texto para rádio revela apenas acomodação e uma inversão de perspectiva: é o mercado que cria o profissional, não o contrário. A BBC de Londres recebe 10 mil sugestões de textos, por ano. E o grupo TSF tem bons nomes na área de formação.

O “adult contemporary”, de entre os formatos de programação atualmente utilizados em rádio, é o que exige maior personalização. Para conquistar a elite, é preciso criar identidade e até cumplicidade com ela. Atingindo a verdadeira minoria formadora de opinião, o resto caia na rede naturalmente. Ou seja: o novo-riquismo, sem parâmetros, acaba por vir logo atrás. Também no caso da faixa etária, um “pássaro” na antena é o melhor caminho para atrair os que ainda estão a voar.

Para acertar, a XFM precisa de estreitar os seus objetivos e abandonar as suas ambiguidades. O alvo que pretende atingir é ambicioso: requer muito mais ousadia e talento. Porque a elite será sempre exigente, difícil e volúvel.

*O texto é uma versão abrasileirada feita pelo Editor, a partir do original veiculado no jornal Público de Lisboa, na edição de 14 de maio de 1994.

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