A primeira aula

Publicado em: 24/02/2013

Linda, loira, de cabelos caprichosamente penteados pela mãe dona de casa, Isabelle teria naquele dia a primeira aula de sua vida. Dormira cedo na véspera por causa do compromisso inédito, mas o sono foi tumultuado, como o desses adultos que se deitam ansiosos, estressados, cheios de metas por cumprir. Aos seis anos, passaria por uma experiência cercada de expectativas, num ambiente novo, com crianças que não conhecia, com uma professora que imaginava bonita, cheirosa, repleta de coisas para ensinar. Mas o ônibus não passou, ou passou com uma hora de atraso – e ela voltou para casa frustrada, contendo uma lágrima. “Amanhã vai dar certo”, disse a mãe, passando-lhe a mão na cabeça, num misto de ternura e revolta.

Morena, parecendo ter mais do que os seis anos que constavam na matrícula, Ana Carolina vinha sonhando há tempos com aquelas manhãs que lhe prometiam um mundo diverso do seu, de espaços curtos, mobília gasta, goteiras nos dias de chuva forte, escadaria para sair e chegar. Estava inquieta com o primeiro dia de aula, numa área nobre do centro da cidade. Perfumada, prendedor novo nos cabelos cacheados, lá foi de mão dada com a mãe enfermeira. Mas os minutos passavam, nervosos, e nada. Soube depois que os coletivos não saíram da garagem naquela manhã. Em casa, jogou a mochila colorida num canto, chorou um pouco e foi consolada pela avó, que lhe dera o prendedor: “Amanhã o ônibus desce, querida!”

Micaela viria dos Ingleses para a Trindade, onde a muito custo a mãe garçonete conseguira uma vaga para a menina espevitada que tinha tudo para dar trabalho na turma do primeiro ano. Seu avô já tinha dito, com a ironia sábia dos mais velhos, que ela iria tornar mais brancos os cabelos dos professores, fossem homens, fossem mulheres. Alheia a tudo, Micaela se preparou, vestiu o melhor que tinha e veio cantarolando pela rua de lajotas até o ponto de ônibus. Qual o quê? Nem sinal daquele latão verde e branco cujo motor barulhento estava habituada a ouvir, perto de casa… Voltou muda, emburrada, e nem teve ânimo para brincar com o poodle cinza que lhe pedia atenção. O socorro veio do avô: “Amanhã esses tipos à-toa vão trabalhar”. A menina não pareceu animada, mas sorriu.

No dia seguinte, os coletivos circularam precariamente e a cidade, caótica, travou de vez. Algumas crianças foram para a escola, mas o encanto da primeira aula, com vivas e canções, deu lugar a um temor sem explicação, a uma dúvida mesquinha, a um sentimento vago de desconfiança no mundo…

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