Dicas que não saem de moda

Publicado em: 26/06/2008

Estive revendo o texto de Marcelo Parada, intitulado “Som, a matéria prima”, que está no livro dele “Rádio: 24 horas de jornalismo”. É um texto de incentivo para que radialistas e jornalistas saiam às vezes da rotina e partam para fazer reportagens mais criativas. Isto é, inserindo nas matérias sons do ambiente que cercam o assunto abordado.
O livro de Marcelo Parada foi publicado em 2000, pela Editora Panda. O texto em questão não saiu de moda. Ou melhor, só vai sair de moda quando a maioria dos profissionais de rádio incorporar as dicas e orientações do jornalista. Boa leitura.
“Jornais e revistas têm fotos, e a televisão, a imagem. No rádio, o que faz a diferença é o som. Óbvio, não? A maioria das rádios jornalísticas e dos repórteres despreza, subestima sua principal matéria-prima. Não se trata aqui do som da voz do apresentador ou do repórter. Mas da música, do ambiente, dos gritos, das sirenes, do bate-boca, do choro, enfim, de tudo o que cerca uma situação que não deve ser simplesmente relatada  por um meio de um texto ou de uma entrevista.
Se os jornais vão exibir a foto dos torcedores chorando a derrota da final do campeonato, você, repórter de rádio, não pode se limitar a dizer que todos choravam quando do término do jogo. Grave o choro, entreviste gente que quase não consegue falar porque as lágrimas não deixam.
A utilização do som é uma maneira de transportar o ouvinte para o local do acontecimento. A matéria deve reproduzir o ambiente, para que não se reduza à mera leitura de um texto com o trecho de uma entrevista.
Em 1996, houve uma fuga na Casa de Detenção de São Paulo. No meio da confusão, a namorada de um preso revelava toda a dor que cerca uma pessoa que está presa tentando se relacionar com a outra, em liberdade. O som daquela conversa entre a mulher e o detento, tentando vencer a muralha do presídio e a distância, era emocionante. Os sinais, os gritos e o murmúrio nascidos daquela comunicação rara marcaram a cobertura do acontecimento. O som, às vezes, tem uma alta carga emocional e informativa. O impacto dele no ouvinte pode ser maior do que um longo relato, por mais bem escrito que seja.
Vamos a um exemplo hipotético: na cobertura de um incêndio, o repórter está no local e o ouvido dele capta uma infinidade de sons de caminhões dos bombeiros chegando, sirenes, movimentação de pessoas etc. Se não estiver atento, aquilo, para ele, torna-se o normal da situação, e não haverá a preocupação de mostrar esse ambiente ao ouvinte.
Nas rádios americanas, o som é um recurso muito aproveitado. A maioria das reportagens leva sempre uma “ilustração sonora”. Além de respostas do entrevistado, o repórter tenta registrar os melhores sons para “embalar” o produto final. Assim, além de informativo, o trabalho fica diferente e agradável de ouvir.
O aproveitamento intensivo desse recurso, como informação, é vital para o rádio. É o que diferencia a boa reportagem de uma média ou ruim e faz o ouvinte se sentir mais próximo do fato”.

2 respostas
  1. Aguinaldo Filho says:

    Exatamente, caro Medeiros. Era uma das características que tínhamos na Voz da América nos idos dos anos 70 e 80, sair com um gravadorzinho para registrar sons ambientes para ilustrar as matérias. Aliás, até hoje guardo esse gravador Panasonic, grande para os dias de hoje, mas ‘portátil’ naquele tempo. Quando olho para ele, na prateleira, ‘ouço’ as reportagens e entrevistas que fiz durante a primeira visita do Papa ‘Voitila’ aos Estados Unidos, do pranto do povo nas ruas quando Kennedy foi assassinado. Enfim, é meu passaporte para uma viagem ao passado. E ainda funciona…

  2. Ricardo Medeiros says:

    Aguinaldo Filho, como fico contente em encontrar um cúmplice das minhas idéias sobre a utilização do som ambiente em matérias jornalísticas. Quem sabe você poderia também escrever um dia sobre este assunto.
    Um abraço e boa semana,
    Ricardo Medeiros

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